quarta-feira, 31 de outubro de 2012

110 º ANIVERSÁRIO DE DRUMMOND

 
A  UM  AUSENTE
 
" Tenho  razão  de  sentir  saudade ,
tenho razão de te acusar .
Houve um pacto implícito que rompeste
 e  sem te despedires foste  embora .
Detonaste o pacto .
Detonaste  a vida geral , a comum aquiescência
de  viver  e  explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta  sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair .
 
Antecipaste a hora .
Teu ponteiro enlouqueceu ,
enlouquecendo  nossas  horas .
Que poderias ter feito de mais  grave
do que o ato sem continuação , o ato em si ,
o ato que não ousamos nem sabemos  ousar
porque depois dele não há nada ?
 
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência  em falas camaradas,
simples apertar de mãos , nem isso , voz
modulando sílabas  conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança .
 
Sim , tenho saudades .
Sim , acuso-te  porque fizeste
o não previsto  nas leis  da amizade e da natureza
nem nos deixaste  sequer o direito de indagar
porque o fizeste , porque te foste ."

terça-feira, 30 de outubro de 2012

POEMA DE HOJE ...

Barbara Cole
 
"  o vento
vai me trazer
sopros
surpresas
você
o vento
vai me trazer
de volta ."
 
 
Alice  Ruiz , in " Dois  em  Um "

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

DIA NACIONAL DO LIVRO

                                                   Salvador  Dalí

              ( ...) "  Oh ! Bendito  o que semeia
                         Livros ... livros à mão cheia ...
                         E  manda  o povo pensar !
                         O  livro caindo n'alma
                          É  germe - que faz  a palma ,
                         É  chuva - que faz  o  mar ."


                              Castro Alves , in
                           "  O  Livro e a América "

 

O primeiro presente do blog !

 
Hoje  tive  a grata surpresa  de ser
presenteada pela poeta Nádia Santos
do blog, soltandoamente.blogspot.com.br
  com o Selo/ Prêmio Dardos .
 
 
Informações sobre o SELO/PRÊMIO
 

O Prêmio Dardos foi criado pelo escritor

espanhol Alberto Zambade.
 
 
No ano de 2008 concedeu no seu blog Legendas de "EL Pequeño Dardo" o primeiro Prêmio Dardos
a quinze blogs selecionados por ele. Ao divulgar
o prêmio, Zambade solicitou aos blogs premiados
que também indicassem outros blogs ou sites
considerados merecedores do prêmio. Assim a
Premiação se espalhou pela Internet.

Cada ganhador do selo deve continuar a fazer
premiação (se quiser, é claro) aos blogs que por
ele considerar merecedores, seguindo as regras a
pedido do criador do selo:

1. Exibir a imagem do selo em seu blog.
2. Linkar o blog pelo qual recebeu a indicação.
3. Escolher outros quinze blogs a quem entregar
o prêmio dardos.
4. Avisar os escolhidos.
 


           MEUS  PRESENTEADOS   :

        http://ninitelles.blogspot.com.br
        http://suzewekblogspot.com.br
       http://valeriasouza-telas.blogspot.com.br
       http://laispintodealmeida.blogspot.com.br
      http://cristianlisandru.blogspot.com.br
     http://osretratosdamente.blogspot.com.br
     http://felizjunior.blogspot.com.br
      http://frivolidadesdandrea.blogspot.com.br
     http://artegenesis.blogspot.com.br
      http://walkyria-voarlonge.blogspot.com.br
       http://iamfotonico.blogspot.com.br
    http://poesiasinval.blogspot.com.br   
     http://danysempre.blogspot.com.br
     http://amalia2112.blogspot.com.br
    http://ac-www.interioridade.blogspot.pt/

                    
    Agradeço a poeta Nádia Santos que ofertou
    o prêmio ao blog  me deixando muito contente , 
   entrego o selo/prêmio  a blogs amigos
   que estão sempre   comigo ,  e ,
    finalmente , faço  minhas as palavras de 
    Rosiska Darcy de Oliveira :
    " Dar presentes é se dar de presente ,
      para que o outro lhe guarde consigo.
      O presente é fantasia , aquela alegria  que
      se quer dar , a alegria que , ainda que por
      um minuto , queremos ser  na vida de alguém ."  



                    Beijo  e abraço  todos

                                   Marisa   
                               
                                                                   

                                
   




                              

 
 

domingo, 28 de outubro de 2012

PAULO LEMINSKI

 
"  esta  vida  é  uma  viagem
pena eu estar
só de passagem ."
 
 
 

SINTONIA PARA PRESSA E PRESSÁGIO

Eric  Montoya
 
" Escrevia  no  espaço .
Hoje , grafo no tempo ,
na pele, na palma , na pétala ,
luz do momento .
Soo na dúvida  que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala ,
no tempo , distância , praça ,
que a pausa , asa , leva
para  ir do percalço ao espasmo .
 
Eis  a voz , eis o deus , eis a fala
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala .
 
 
Paulo Leminiski

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

JOSÉ SARAMAGO

 
( ...)     " Não   é  verdade.
A  viagem  não acaba   nunca .
Só   os  viajantes  acabam .
E  mesmo  estes podem prolongar-se
em memória , em lembrança , em  narrativa .
Quando  o  viajante  se  sentou  na  areia
da  praia  e  disse :
 " Não há  mais que ver " , sabia  que  não
era  assim . 
 O  fim  duma  viajem é apenas  o  começo doutra .
É  preciso  ver  o   que não  foi  visto ,
ver  outra  vez  o que   se  viu já ,
ver  na  Primavera  o  que  se  vira  no  Verão ,
ver  de  dia  o  que  se  viu  de  noite ,
com  Sol onde  primeiramente  a  chuva  caía ,
ver  a  seara  verde , o fruto  maduro ,
a pedra  que  mudou   de  lugar, 
a sombra  que  aqui  não  estava .
 
É  preciso voltar  aos  passos  que  
foram  dados , para  os  repetir,  e para  
 traçar  caminhos  novos  ao lado deles  .
É  preciso  recomeçar  a  viagem . Sempre .
O  viajante  volta  já ."
 
in , " Viagem  a  Portugal " 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

AMANHECER

Nilgun  Akyol 
 
"  Morei  em um lugar
que ainda não existia .
Criamos as casas e as músicas
os pássaros  e os consensos .
Uma  velha de cem anos me contou
que com o tempo tudo mudaria ,
e como mudaria :
pois os extravios  e errros chegam logo
após o terceiro ou quarto amanhecer .
Desde  então , maquino todas as noites
um novo lugar  para  a  vida .
Ainda  ajudo a criar este lugar
onde o amanhecer não seja o fardo dos ombros
nem a condenação dos dias
e sim o presente do mundo ."
 
 
Kelsen Oliveira ,
in " para comover  borboletas "

OS OLHOS DA VÓ

Gaetano Bellei
 
"  Minha  avó  tinha  olhos  de  verão .
Ela  abria  a janela e com um olhar
transformava os rumos da tarde .
O terreiro  que ela varria  sentia-se
diferente dos outros
ele mesmo me contava .
Nesse  terrreiro a vó plantava
  botija de histórias
para que eu as procurasse
e esquecesse o mundo noutro lugar .
Quando não me esquecia ,
empoeirando-me  no terreiro 
 à procura  das  histórias ,
os olhos da vó outonavam.
Duas  folhas  escorriam .
As  folhas  não  eram  secas ,
eram  sentimentais ."
 
 
Kelson  Oliveira ,
in " para  comover  borboletas " 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mais , Caio Fernando

Isabele Cochereau 
 
"   Com  a  lucidez  dos embriagados ,
 haviam- se reconhecido
desde o primeiro momento .
 Ou  talvez estivessem realmente
 destinados um  ao   outro ,
 e mesmo  sem o álcool ,  numa  rua  repleta
saberiam  encontrar-se  .
 O  fulgor  nos  olhos  e a incerteza
intensificada  nos  passos  fora a pergunta  de  um
  e a  resposta  de   outro ." 
 
 
in , "  O  Inventário  do Ir-remediável "

CAIO FERNANDO ABREU

Al Saralis

"  As  pessoas  suportam  tudo , as  pessoas  às  vezes
procuram  exatamente  o  que  será  capaz  de doer
ainda mais fundo , o verso  justo , a música perfeita ,
o filme exato ,  punhaladas  revirando um talho quase
fechado , cada  palavra , cada  acorde , cada  cena ,
até  a  dor  esgotar-se  autofágica , consumida
em si mesma , transformada em outra  coisa  que
não saberia dizer  qual  era ."


in , " Triângulo  das  Águas "

OS AMIGOS

Irina Vitalievna Karkat
 
"   Os  amigos  amei despido de ternura
fatigada ;
uns  iam  , outros  vinham ,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava ;
era  pouco o que tinha
pouco  o que dava ,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais  amarga ."
 
 
Eugénio  de  Andrade
 

domingo, 21 de outubro de 2012

PALAVRAS AO VENTO

 
"  A primeira letra do alfabeto  é também a primeira
letra da palavra amor e  se acha importantíssima por isso .
Com   A  se escreve "  arrependimento  " que é uma
inútil vontade de pedir ao tempo  para  voltar atrás  
e com A  se dá o  tipo de  tchau  mais triste que
existe  :  adeus ... 
Ah  , é com  A  que  se  faz  " abracadabra " ,
palavra que se diz capaz  de transformar  sapo
 em príncipe  e vice-versa ... 
Com  B  se diz " belo " , que é tudo que faz  os olhos
pensarem  ser coração ;  e se dá a " benção " ,
um sim que pretende dar sorte .
Com   C  , "  calendário " , que é onde moram os
dias e o  " carnaval " , esta oportunidade
praticamente obrigatória de ser feliz  com data marcada .
" Civilizado " é quem já  aprendeu  a cantar
 " parabéns pra você " e sabe o que é " contrato" :
você isso , eu aquilo ,  com assinatura  embaixo .
Com  D  , se chega  a  " dedução " , o caminho entre
o " se" e  o " então " ...
Com  D ,  começa  defeito , que é cada pedacinho que
falta pra se chegar  a  perfeição  e se pede
" desculpa "  uma palavra  que pretende ser beijo .
E  tem  o  E  de  " efêmero" , quando  o  eterno
passa  logo ; de " escuridão "  que é o resto da
noite , se alguém recortar  as  estrelas  ;  e
  "  emoção "  um  tango que ainda  não foi feito .
E  também  de  "  eba ! " 
 uma forma  de agradecimento
muito utilizada  por quem ganhou  um
pirulito , por exemplo .
F é para  " fantasia " , qualquer tipo de
" já pensou se fosse  assim ?" ;
" fábula " , uma história  que poderia
ter acontecido  de verdade , se a verdade
fosse   um  pouco mais maluca  ; e
  " fé "  que é toda certeza  que  dispensa provas .
A  sétima  letra do alfabeto é  G  , que fica
irritadíssima quando a confundem com  J .
A  letra  G  é para " grade " , que serve para
prender todo mundo - uns  dentro ,
outros  fora ;  G  de  " goleiro " , alguém  que
se pode botar  a  culpa do gol  ;
G  de  "   gente " :  carne , osso  , alma  e
sentimento , tudo isso  ao  mesmo  tempo .
Depois  vem  o  H  de  " história " :  quando
todas  as  palavras  do  dicionário  ficam  à
disposição  de  quem  quiser  contar  qualquer
coisa que tenha acontecido ou sido  inventada .
 O  I  de  " idade " , aquilo que você 
 tem certezaque vai ganhar de aniversário ,
 queira ou  não queira .
 J  de  " janela " por onde  entra  tudo
que é lá fora  e de " jasmim  "  , que tem  a
sorte de ser flor e  ainda  tem  a  graça
  de  se chamar assim .
L  de  " lá "  onde  a gente fica pensando
se está melhor ou pior do que aqui ;
de " lágrima " , sumo  que  sai  pelos
olhos  quando se espreme um  coração,
 e de " loucura " , coisa   que  quem  não tem
só poder  ser  completamente louco .
M  de  " madrugada " , quando vivem os
sonhos ...
N  de " noiva " , moça que geralmente usa
branco  por  fora  e  vermelho  por  dentro .
O  de  " óbvio "  não precisa explicar ...
P  de  " pecado " , algo   que os homens
 inventaram e então  inventaram que
foi Deus  que  inventou.
Q ,  de tudo que tem um não sei quê
 de não sei quê .
E  R  de  " rebolar " o que se tem
para fazer  pra  chegar  lá .
S  de  " sagrado " , tudo que combina
com uma cantata de Bach ;
de  " segredo " , aquilo que você está
louco para contar ;  de " sexo " ,
quando o beijo é maior do que a boca .
T  é  de  " talvez " , resposta pior do
que não , uma vez que ainda deixa  ,
meio  bamba , uma  esperança ...
De  " tanto " um muito que até ficou tonto ...
de " testemunha " :  quem  por sorte ou
por azar , não estava  em  outro lugar .
U  de  "  ui ", " ai " que ainda é arrepio ;
de " último "  que anuncia o começo de
outra  coisa ;  e  de   " único "  :
tudo que  ,  pela facilidade de virar
nenhum , pede  cuidado .
Vem  o  V  de  " vazio ", um termo
injusto com a palavra  nada ;
de  " volúvel " , uma pessoa  que  ora
quer  o  que  quer , ora  quer  o que querem
que ela queira .
E  chegamos  ao  X  , uma  incógnita ...
X  de  " xingamento "  que é  uma palavra
ou  uma  frase  destinada  a acabar  com
a alegria  de alguém ;  e de " xô " ,
única  palavra  do dicionário  das  aves
traduzida para  o  português.
Z  é  a  última  letra  do  alfabeto  , que alcançou  
a  glória  quando  foi  usada  pelo  Zorro ...
Z  de   "zaga" , algo  que  serve  para  o
goleiro  não  se  sentir  o  único  culpado ;
de  " zebra " , quando você  esperava liso e
veio  listrado ; de " zíper " ,  fecho que precisa
de um bom motivo para ser aberto ; e de
" zureta " que é como a cabeça  fica
no final de um dicionário  inteiro ... "
 
 
Adriana  Falcão 
 

sábado, 20 de outubro de 2012

VERSOS DE HOJE ...

Angela Betta Casale
 
" É  tempo de meio silêncio,
de boca gelada e suspiro ,
de palavra indireta ,
aviso na esquina .
Tempo de cinco sentidos num só ."
 
 
Carlos Drummond de Andrade ,
no poema "  Nosso  Tempo  "

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

CLARICE LISPECTOR

 
" Ele  chorou um pouco . Era um  belo homem  com
barba por fazer  e abatidíssimo .
Via-se  que  havia  fracassado . Como  todos nós .
Ele  me  perguntou  se  podia  ler  para  mim
um  poema . Eu  disse  que queria  ouvir .
Ele  abriu  uma  sacola , tirou de dentro  um  caderno
grosso , pôs-se  a  rir  , ao  abrir  as  folhas .
Então  leu  o  poema . Era simplesmente  uma beleza .
Misturava  palavrões  com  as maiores delicadezas .
Oh Cláudio - tinha  eu vontade  de  gritar - 
 nós  todos  somos  fracassados , nós  todos  vamos
morrer  um  dia !  Quem ?
Mas  quem  pode  dizer  com  sinceridade  que
se  realizou  na  vida ?  O  sucesso  é  uma  mentira ."
 
 
in ,   " A via crucis   do corpo "


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

POEMA DE HOJE ...

 
"  Naquele  momento
o riso acabou
e veio o espanto
e do meu choro
 o desentendimento
e das mãos  unidas
veio o tremor  dos dedos
e da vontade de vida 
veio o medo .
Naquele momento
veio de ti o silêncio
e o pranto de todos os homens
brotou  nos teus  olhos translúcidos
e os meus se afastaram dos teus
e dos braços compridos
veio o curto adeus .
 
Naquele momento
 o mundo parou
e das distâncias
vieram águas
e o barulho do mar .
E  do amor
veio o grande sofrimento.
 
E  nada  restou
das infinitas coisas pressentidas
das promessas  em  chama .
Nada . "
 
 
Hilda Hilst , in " Baladas "
 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

PESSOA , SEMPRE ...

 
"    ( ...)
 
Saudades !  Tenho-as  até  do que me não foi
nada , por uma angústia  de fuga do tempo e
uma doença  do mistério da vida .
Caras que via habitualmente  nas minhas ruas
habituais- se deixo de vê-las  entristeço ; e não me 
foram nada  , a não ser o símbolo  de toda a vida .
O  velho  sem interesse das polainas  sujas  que
cruzava  frequentemente  comigo 
 às  nove  e meia  da manhã ?
 O cauteleiro coxo que me maçava
inutilmente ?   
  O velhote redondo e corado
do charuto à porta da tabacaria ?
O dono pálido  da tabacaria ?
O que é feito de todos eles , que , porque os vi
e os tornei a ver , foram parte da minha vida ?
Amanhã também eu me sumirei  da Rua da Prata ,
da Rua dos Douradores , da Rua dos Fanqueiros .
Amanhã  também eu - a alma que sente e pensa ,
o universo que sou para mim - sim , amanhã  eu
também  serei o que deixou de passar  nestas ruas ,
o que outros vagamente  evocarão com um
" o que será dele ?".
E  tudo quanto faço , tudo quanto sinto ,
tudo quanto vivo ,
 não será mais que um transeunte  a menos
 na  quotidianidade   de ruas de uma cidade qualquer . "
 
 
Bernardo Soares ,in " Livro do Desassossego "
Fragmento ,481

terça-feira, 16 de outubro de 2012

VERSOS DE HOJE ...

 
( ....)
 
 "  fica  comigo  peço mas tu não me ouves
e eu sei que vou voltar  a  esperar por ti
 na vida que me resta
e em todas as vidas e em todas as mortes
até o dia que definitivamente
despeças o teu corpo do meu
e eu repita  fica comigo e tu
desapareças ..."
 
Alice  Vieira

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A FOTO

 Soledad Fernández
 
"  Faz-me  uma  dessas  fotos  que  tu  fazes ,
embaça a objetiva , tira um pouco de foco
e  desregula   a  entrada de luz . Agora
que  está caindo o dia , não me é difícil
sair favorecida . Que os traços
se  suavizem , que todas as rugas
da alma e do contorno dos olhos
desapareçam e quem  me olhar
pense que eu possa valer  a pena .
E, sobretudo , que aquilo que emocione
nessa  foto  não seja eu que nela apareço,
mas os teus olhos  que a fizeram ."
 
 
Amalia  Bautista

domingo, 14 de outubro de 2012

APRENDIZADOS

 
"  Uns  aprendem  nadar
outros dançar , tocar piano ,
fazer tricô e a esperar .
 
Na  infância cai-se
  para  se aprender a andar ,
cai-se  do  cavalo e do emprego
aprendendo a viver e a cavalgar .
 
Em  alguns  aprendizados
chega-se  a  perfeição .
 
Em  alguns .
 
No  amor  ,  não  ."
 
 
Affonso Romano de Sant'Anna

sábado, 13 de outubro de 2012

PERGUNTA-ME

Irina Vitalievna Karkat
 
" Pergunta-me 
se ainda és o meu fogo
se  acendes  ainda
o minuto de cinza
se  despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore  do meu sangue
 
Pergunta-me
se o vento  não traz nada
se o vento  tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
 
Pergunta-me
se te voltei  a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
se  eras  tu que eu via
na infinita  dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
 a folha rasgada
na minha mão descrente
 
Qualquer  coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que quero dizer ."
 
Mia  Couto

A ADIADA ENCHENTE

imagem   da " net "
 
"  Velho  , não .
Entardecido , talvez .
Antigo , sim .
 
Me  tornei  antigo
porque a vida ,
tantas vezes , se demorou
E  eu a esperei
como  um  rio  aguarda  a  cheia ."
 
Mia  Couto
 
 
 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

AUSÊNCIA

Vladimir Dunjic
 
"  Quero  dizer-te  uma  coisa  simples :
 a tua  ausência  dói-me  .
Refiro-me  a  essa  dor que  não  magoa ,que  se  limita  à  alma ;
mas que não deixa , por  isso ,
de  deixar  alguns sinais -
um  peso  nos  olhos , no  lugar  da  tua  imagem , e um  vazio  nas  mãos .
Como  se as tuas   mãos  lhes  tivessem  roubado  o  tacto .
São  estas  as  formas  de  amor ,
podia  dizer-te ;  e acrescentar  que as coisas  simples
também  podem  ser  complicadas ,
quando  nos  damos  conta  da diferença  entre
o  sonho  e  a  realidade .
Porém  é  o  sonho  que  me  traz  a  tua  memória ;
e  a  realidade   aproxima-me  de  ti ,
agora que os dias correm  mais  depressa ,
e  as  palavras  ficam  presas  numa refracção  de instantes ,
quando a tua voz  me chama  de  dentro de mim  -
e me faz  responder-te  uma coisa  simples ,
como  dizer  que  a  tua  ausência  me  dói ."
 
Nuno  Júdice

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

SONETO

Eric Montoya 
 
"   Por que me  descobriste  no  abandono
Com  que  tortura  me arrancaste  um  beijo
Por  que  me  incendiaste  de  desejo
Quando  eu  estava  bem , morta de sono
 
Com  que  mentira  abriste  meu  segredo
De  que  romance  antigo me roubaste
Com  que  raio de luz  me  iluminaste
Quando  eu  estava  bem , morta de medo
 
Por que não me deixaste adormecida
E  me  indicaste  o  mar , com que navio
E  me  deixaste  só , com que saída
 
Por que  desceste  ao  meu  porão   sombrio
Com que direito me ensinaste  a  vida
Quando  eu  estava  bem , morta de frio ."
 
 
Chico  Buarque
 
 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

GUARDADOS ...

 
 
imagem  da  " net "
 
" Coleciono  alguns  guardados  preciosos  que ,
quando  eu  morrer , serão jogados fora ,
porque só fazem sentido  para  mim .
A  memória  material  deles  começa e
acaba em mim .
Só  a  mim  eles  emocionam .
Só  eu  lhes  estimo  o  valor .
Mas  algo me  diz  que , em  qualquer  casebre ,
apartamento  ou  mansão ,
 haverá  sempre  uma  caixa  ,pasta 
 ou  gaveta   onde  se  esconde  aquele  papel de
bala - que foi desembrulhada no cinema  ao lado
de quem nos despertava paixão .
Ou  o   desenho  da  família  mal  colorido 
  por  fora ,os bonecos de olhos esbugalhados ,
 cabelos espetados de quem levou
 um choque elétrico  e os garranchos
" eu , papai  e  mamãe ."
Ou  a  rolha  do champanhe  de um Ano-Novo
especial , o convite de formatura da afilhada ,
o ingresso  para aquele musical com o número
da poltrona  03 .
Ou  o  santinho de papel com  a  imagem  de
Nossa  Senhora  de  Fátima 
 e que ninguém  entende
como foi parar  ali , porque o falecido era  ateu .
Fico  cismando :  o que aconteceria  se  nos  fosse
possível   somar  todo  o  amor  que há nessas
mínimas  memórias  guardadas  em  silêncio
nos fundos  das  gavetas  do  mundo ?  "
 
Francisco Azevedo ,
in  " O  Arroz de  Palma "