sábado, 19 de abril de 2014

PÁSCOA

imagem   da net 

"  Feliz Páscoa  aos que desdobram  a subjetividade ,
 rompendo a casca do ego  para deixar renascer 
 a mulher  ou  o  homem novo ,
e a quem se nutre de TV  sem enxergar 
 as maravilhas encerradas no próprio peito .
Feliz Páscoa  aos artífices da paz  que , 
entre conflitos , exalam suavidade ,
 não achibatam com a língua a fama alheia ,
 nem naufragam  nas próprias feridas .
 E aos emotivos que deixam escapar  das mãos
 as rédeas da paciência  e nunca abandonam
as esporas da ansiedade .
Feliz Páscoa  aos que tecem com o olhar
 o perfil da alma  e , no silêncio  dos toques ,
 curam a pele de toda  aspereza . 
 E aos amantes  tragados pelo  ritmo
 incessante de trabalho ,carentes de carícias ,
 que postergam para o futuro  o presente
que nunca se dão .
Feliz Páscoa a quem acredita 
 ser o ovo  portador de vida ,
sem que a fé exija que o quebre ,
 e aos incrédulos  e a todos que jamais dobraram
 os joelhos  diante do mistério  divino .
Feliz Páscoa  aos que identificam as trilhas
 aventurosas da vida mapeadas  na geografia
  de suas rugas e não se envergonham 
da topografia disforme  de seus corpos . 
E  a todos aqueles que, robotizados pela moda ,
 se revestem de estátuas gregas 
 carcomidas pela anorexia , sem se dar conta 
de que a mente  mente .
Feliz Páscoa aos que ousam ser gentis  e doces , 
sem pudor de abraçar o menino 
 que carregam dentro de si .
E aos afoitos , competitivos , turbinados e sarados ,
enamorados da própria vaidade ,
 incapazes de suportar 
uma fila de espera .
Feliz Páscoa  aos que sabem amarrar o seu
 burrico à sombra da sabedoria 
 e jamais negociam  a felicidade
 em troca  de uma arroba de milho que ,
 vista à distância , parece pepita de ouro .
E aos idólatras do dinheiro ,
 fiéis devotos dos oráculos do mercado ,
reféns de pobres desejos  que ,
 saciados de supérfluos , 
nunca alcançam o essencial .
Feliz Páscoa  a quem abre caminhos
 com os próprios passos 
e cultiva em seus jardins  a rosa dos ventos .
E aos que colhem borboletas 
 ao alvorecer e sabem 
que a beleza é filha do silêncio .
Feliz Páscoa aos que garimpam utopias
 nos campos da miséria 
e trazem seus corações  prenhes de indignação ,
sem jamais   olvidar  o próximo como seu semelhante .
E aos que montados na indiferença , 
atropelam delicadezas ,
até que a dor lhes abra  a porta  do amor .
Feliz Páscoa aos que nunca fecham
 a janela ao horizonte ,
regam  suas raízes
  e não temem pisar descalços a terra
em que nasceram .
  E aos que se embriagam de chuvas  ,
ofertam luas à namorada  e fazem da poesia sua lógica .
Feliz Páscoa aos colecionadores de araucárias ,
 que enfeitam
de sonhos suas florestas  e , na primavera , 
colhem frutos de plenitude .
 E aos que brincam de amarelinha
ao entardecer e desconfiam
 dos adultos exilados da alegria .
Feliz Páscoa aos que se repartem nas esquinas ,
 distribuem aos passantes  moedas de sol  e ,
 nada tendo , nada temem .
E aos que , ao desjejum ,  abrem sua caixa de mágoas 
e recontam uma a uma ,
 gravando nos cadernos do afeto ,
dívidas  e juros .
Feliz Páscoa  aos que caminham sobre tatames  e ,
 por terem  muita pressa  de chegar , jamais correm .
E aos navegadores solitários , 
pilotos cegos e peregrinos mancos , 
que se arrastam  pelas trilhas da desesperança .
Feliz Páscoa  aos políticos  obrigados a inventar ,
 para os outros , o futuro que não se deram no passado ,
e estendem sorrisos  para mendigar votos .
E aos que não se deixam iludir  
pela insipidez  da política
 e nem atiram seus votos na lixeira do desinteresse ,
alimentando ratos .
Feliz Páscoa  aos trovadores de esperanças ,
 aos fazendeiros do ar
 e aos banqueiros  da generosidade ,
 que sabem tirar água do próprio  poço .
E aos que mantêm  em cada  esquina  oficinas de
concerto do mundo ,
 mas desconhecem as ferramentas
que arrancam  as dobradiças do egoísmo .
Feliz Páscoa a quem sequestra  o melhor de si ,
escondendo-o  nas cavernas
 de suas  mesquinhas ambições ,
sem coragem  de pagar o resgate da humildade .
E aos que nunca banem  do espírito a presença de Deus 
e fazem da vida uma or/ação .
Feliz Páscoa às bailarinas fantasiadas de anjos 
que sobem , na ponta dos pés , a  curva policrômica  
do arco-íris , e aos palhaços ovacionados  que ,
no camarim , se miram  tristes  no  espelho ,
vazios da euforia que provocam .
Feliz Páscoa  aos que descobrem Deus  escondido
numa compota de figos  em calda  ou no vaga-lume 
que risca um ponto de luz  na noite desestrelada .
E aos que aprendem  a morrer , todos os dias ,
para os apegos  de desimportância  e , livres  e leves ,
alçam  vôo  rumo ao oceano da  transcendência ."

Frei Betto ,
 escritor e religioso dominicano   

Desejo a todos vocês  , amigos queridos ,
FELIZ PÁSCOA !  

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sábado, 12 de abril de 2014

AMOR , SEMPRE ...

Jim  Chul  Kim 

" Não  importa  o  que  se  ama .
 Importa  a matéria desse  amor .
 As  sucessivas  camadas  de  vida  que 
se atiram para dentro desse  amor .
As  palavras  são  só  um  princípio -
 nem sequer o princípio .
Porque  no  amor os  princípios , os meios , os fins ,
são apenas fragmentos  de uma história que continua 
para  lá  dela , antes  e  depois do sangue breve  de
uma vida . Tudo serve  a essa obsessão de  verdade
a que chamamos  amor .  O sujo , a luz , o áspero ,
o macio , a falha , a   persistência . "

in ,  "Fazes-me  falta" 
da jornalista e escritora portuguesa
Inês  Pedrosa  

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quinta-feira, 3 de abril de 2014

SOL POR DENTRO

Trisha  Lambi

" Há  um  sol
que brilha por dentro.

( Pelos ossos , pelo
 sangue , pelos músculos ,
 pelos nervos )

Ele  arde  na  carne ,
ferve  na  pele ,
reverbera  em  pensamento .

Há  um  sol
no  fundo  do  corpo,
lúcido , noite adentro ."


Marcelo  Sandmann ,
nascido em Curitiba , 
Paraná , em 1963.
Poeta , músico ,
professor de Literatura Portuguesa ,
na  Universidade Federal  do Paraná .

O poema  está republicado  para
uma amiga que  anda  triste  .
É preciso lembrá-la  do brilho do sol .

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quarta-feira, 26 de março de 2014

ESQUECER COMO

Roman   Velichko

" Esquecer como :
rosa 
vinho
orgasmo

Esquecer  como :
grito
ferida 
raiva 

Esquecer como :
pele
faca
 lágrima

Esquecer  como :
morte
dor 
viagem  "


Maria Teresa Horta ,
nascida em Lisboa  ,
aos 20 de maio de 1937 ,
escritora , jornalista , poeta ,
co-autora  das " Novas Cartas
Portuguesas " 

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sábado, 22 de março de 2014

PAULO LEMINSKI

Jean Paul Nacivet 

" Amar  você  é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo 
Tão bom ser teu que sou
Eu  a teus pés derramado 
Pouco resta do que fui 
De  ti depende  ser bom ou ruim 
Serei o que achares conveniente 
Serei para ti mais que um cão
Uma  sombra  que te aquece 
Um deus que não esquece 
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres 
Esquecerei todas as mulheres 
Serei tanto e tudo e todos 
Vais  ter nojo de eu ser isso 
E estarei a teu serviço 
Enquanto  durar meu corp
Enquanto me correr nas veias 
O rio vermelho que se inflama 
Ao ver teu rosto  feito  tocha 
Serei teu rei  teu peão  tua rocha 
Sim , eu estarei  aqui ."


in , "Toda Poesia "
 livro que reúne
no dizer de Alice Ruiz ,
 que foi casada  com Leminski , 
" Uma vida inteira de poesia .
Uma vida totalmente dedicada  ao 
fazer poético . Curta , é verdade ,
mas  intensa , profícua  e original ."  

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sexta-feira, 14 de março de 2014

O ÁUGURE

Gail  Harmer 

" Sou  um  prisma  às  avessas 
as  cores  em  mim   se  confundem
sou  um  tapete  de  ecos 
uma  cachoeira  de  gritos 
uma  cordoalha  de muitos tempos 

A esfera  de  lantejoulas 
- passado  presente  futuro -
roda refletindo  mil sóis 

Sou  essa  colméia  de incêndios 
essa  assembléia  de sinais 
esse  rumor  insone ."


Hélio Pellegrino ,
 nasceu em Belo Horizonte 
 aos 5 de janeiro de  1924 
 e morreu no Rio de Janeiro  ,
 em 23  de março  de  1988 .
Foi  médico psiquiatra , psicanalista ,
escritor , jornalista , poeta .
Conhecido por sua amizade com os
 também  escritores  ,
 Fernando Sabino ,  Paulo Mendes Campos 
e Otto Lara Rezende , formando com eles
o  grupo conhecido como " Os  4 mineiros ".  
Sua poesia só foi publicada  cinco  anos após
sua morte ,   no livro " Minérios  Domados ",
organizado por  Humberto Werneck .


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sexta-feira, 7 de março de 2014

CARTA DE CAIO FERNANDO ABREU

Victor  Bregeda 

Escrever  era  algo fundamental para
 Caio Fernando Abreu .
Ele  dizia que se expressava  melhor  " por escrito" ,
 por isso escreveu  tantas  e tão belas  cartas .
Aqui , coloco alguns trechos de uma carta  que ele enviou
ao amigo jornalista  José Márcio Penido , em 1979 .
Nela , estimula o amigo a escrever , fala do processo
de criação e de sua admiração por Clarice Lispector .


"   Porto , 22 de dezembro de  1979

 Zézim ,

cheguei  hoje  de tardezinha  da praia , fiquei lá 
uns  cinco dias , completamente só ( ótimo !),
e encontrei  tua carta .
( ...)
Das poucas  linhas  da  tua carta , 12 frases 
 terminam  com ponto de interrogação .
 São , portanto , perguntas .
( ...)
Você  quer  escrever .
 Certo , mas você quer escrever ?
Ou  todo mundo  te  cobra  e você acha que tem 
que escrever ? 
( ...)
Isolando as cobranças  você continua querendo ?
Então vai , remexe fundo , como diz um poeta
gaúcho  Gabriel  de Britto Velho ,
" apaga o cigarro no peito / diz pra ti 
o que não gostas de ouvir /diz tudo ".
Isso é escrever .
 Tira  sangue com as unhas .
E não importa  a forma .
Mas tem que sangrar    a- bun-dan-te-men-te .
Você  não está com medo desta entrega ?
Porque dó , dói , dói .
É de uma solidão assustadora .
( ...)
Eu conheci razoavelmente  bem Clarice Lispector .
Ela era infelicíssima, Zézim .
A primeira vez que conversamos  eu chorei
depois a noite inteira , porque ela inteirinha
me doía, porque parecia se doer também ,
de tanta compreensão  sangrada  de tudo .
Te  falo nela porque Clarice , pra mim ,
é o que mais conheço de GRANDIOSO , 
literariamente  falando .
Ela se entregou  completamente  ao
seu trabalho de criar .
Mergulhou na sua própria   trip  e foi
inventando caminhos  na maior solidão .
Como Joyce . Como Kafka , louco e só
em Praga . Como Van Gogh .
 Como Artaud,ou  Rimbaud .
É  esse  tipo de criador que você quer ser ?
Então  entregue-se  e pague o preço
do pato . Que , frequentemente , é 
muito  caro .
( ...)
Zézim , remexa  na memória , na infância , 
nos sonhos , no poço sem fundo do inconsciente :
é  lá que esta o seu texto .
Sobretudo , não se angustie  procurando-o :
ele vem até você ,
 quando você e ele estiverem prontos .
Cada um tem seus processos , 
você precisa  entender os seus .
( ...)
E  ler , ler é alimento de quem escreve .
Várias vezes  você me disse que não
conseguia mais ler .
Que não gostava mais de ler .
Senão gosta de ler ,
como vai gostar de escrever ?
Ou escreva  então para destruir o texto 
( ...)
Quanto  a  mim , te falava desses dias na praia .
Pois olha , acordava às seis , sete da manhã ,
ia  pra praia , corria uns quatro quilômetros,
fazia exercícios, lá pelas dez voltava , 
ia cozinhar  meu arroz . Comia , descansava 
um pouco , depois  sentava e escrevia .
Ficava  exausto . Fiquei exausto .
Passei os dias falando sozinho , mergulhado 
num texto, consegui arrancá-lo .
Era  um farrapo que tinha nascido em setembro ,
em Sampa . Aí , nasceu , sem que eu planejasse .
Estava  pronto  na minha cabeça .
Chama-se  Morangos Mofados ,
vai  levar  uma epígrafe de
 Lennon& McCartney, tô aqui com a letra 
de Strawberry fields  forever  pra traduzir .
Zézim , eu acho que tá tão bom .
( ...)
Quando  terminei Morangos Mofados ,
escrevi em baixo , sem querer ,
"criação é coisa  sagrada ."
Zézim , me dê notícias , muitas ,
e rápido .
E te cuida , por favor , te cuida bem .
Qualquer poço  mais escuro ,
disque 0512-33-41-97.
Eu  posso  pelo menos  ouvir .
Não leve a mal alguma dureza  dita.
É porque  te quero claro .
Citando Guilherme Arantes , pra terminar :
" Eu quero te ver com saúde / 
sempre de bom humor / e de boa vontade ."
Um  beijo do Caio  "


in , Morangos  Mofados 

Som   na  caixa ...

.