sábado, 25 de outubro de 2014

DOS AFETOS

Alex  Alemany 

" Como  fazer-te  saber  que há  sempre  tempo ?

Que  temos  que buscá-lo  e dá-lo ...
Que ninguém  estabelece normas , senão a vida ...
Que  a  vida  sem  certas  normas  perde  formas ...
Que  a  forma não se perde com abrirmo-nos ...
Que  abrirmo-nos  não é amar
indiscriminadamente ...
Que  não é proibido amar ..
Que  também  se  pode  odiar ...
Que  a  agressão porque  sim , fere  muito ...
Que  as  feridas  fecham-se ...
Que  as  portas  não devem  fechar-se ...
Que  a  maior  porta  é  o  afeto ...
Que  os  afetos  definem-nos ...
Que  definir-se  não é remar contra a
 corrente ...
Que  não quanto mais se carrega 
no traço  mais se desenha ...
Que  negar  palavras é abrir distâncias ...
Que  encontrar-se  é  lindo ...
Que  o  sexo  faz  parte  da lindeza  da  vida ...
Que  a  vida  parte  do sexo ...
Que o  porquê  das  crianças 
 tem o seu porquê ...
Que  querer  saber  de alguém 
não é só  curiosidade  malsã ...
Que  nunca  é  demais  agradecer ...
Que autodeterminação  não é 
fazer  as  coisas  sozinho ...
Que  ninguém  quer  estar  só ...
Que  para  não estar  só  há que dar ...
Que  para  dar  devemos  antes  receber ...
Que  para  nos  darem  há também
que saber  pedir ...
Que  saber  pedir  não é  oferecer-se ...
Que  oferecer-se , em definitivo ,
não é  querer-se ...
Que  para  nos  quererem  devemos 
mostrar  quem  somos ...
Que  para alguém  ser é preciso
dar-lhe  ajuda ...
Que  ajudar é  poder  dar  ânimo 
e apoiar ...
Que  adular não é apoiar ..
Que  adular é tão pernicioso  como
virar  a  cara ...
Que  as  coisas  cara  a cara  são honestas ...
Que  ninguém  é  honesto por não roubar ...
Que  quando não se tira prazer  das  coisas 
não se vive ...
Que  para sentir  a vida  temos  de esquecer 
que existe  a morte ...
Que  se  pode  estar morto em vida ...
Que  sentimos  com o corpo e a mente ...
Que  com  os  ouvidos  se  escuta ...
Que  custa  ser  sensível e não se ferir ...
Que  ferir-se  não é sangrar ...
Que  para  não  nos  ferirmos 
levantamos  muros ...
Que  melhor  seria  fazer  pontes ...
Que  por  elas  se  vai à  outra  margem
e ninguém volta ...
Que  voltar  não implica  retroceder ...
Que  retroceder  também pode ser
avançar...
Que  não é por muito avançar 
que se amanhece  perto do sol ...

Como  fazer-te  saber  que ninguém 
estabelece normas , senão  a  vida ?  "

Mario Benedetti 

Som  na  caixa ...

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

FERREIRA GULLAR




Ontem ,  09 de outubro de 2014,
 a  Academia Brasileira de Letras ,
anunciou o mais novo ocupante 
da cadeira  37 , vaga desde a morte 
do poeta Ivan Junqueira 
em julho deste ano .
Trata-se do  escritor , poeta e tradutor  
maranhense de 84 anos ,
Ferreira Gullar , que é o mais 
novo " imortal " da Literatura Brasileira .

Partilho , com vocês , " Extravio ",
 um dos 54  poemas , 
do Livro " Muitas Vozes " ,
que  tece considerações 
 sobre a fluidez do ser .  


Derek  Gores 

"  Onde  começo , onde  acabo ,
se o que está fora  está dentro
como num círculo  cuja
periferia  é  o centro ?

Estou disperso  nas coisas ,
nas pessoas , nas gavetas :
de repente  encontro  ali
partes  de mim : risos , vértebras .

Estou  desfeito  nas nuvens :
vejo do alto  a cidade 
 e em cada  esquina um menino ,
que sou eu mesmo a chamar-me  .

Extraviei-me  no tempo .
Onde  estarão meus pedaços ?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem  nem falam .

Estou disperso  nos vivos ,
em  seu corpo , em seu olfato,
onde  durmo feito aroma 
ou voz que também não fala .

Ah, ser somente o presente :
esta manhã , esta  sala ."

Ferreira  Gullar 

Som  na  caixa ...


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

imagem  da net 

" Havia   a levíssima embriaguez de andarem juntos ,
a alegria como quando  se  sente a garganta um pouco
seca  e se vê  que , por admiração , se estava de boca
entreaberta : eles  respiravam  de antemão  o ar que
estava à frente  , e ter esta sede  era a própria água 
deles . Andavam por ruas  e ruas  falando e rindo ,
falavam e riam para dar matéria  peso à levíssima
embriaguez  que era a alegria  da sede deles .
Por causa de carros e pessoas , às  vezes  eles se tocavam ,
e  ao toque -  a sede  é  a  graça , mas  as  águas  são
uma beleza  de  escuras - e  ao toque  brilhava o 
brilho  da  água  deles , a boca ficando  um pouco
mais  seca  de admiração .
Como  eles admiravam estarem juntos !
Até  que  tudo  se  transformou  em não .
Tudo  se  transformou  em  não  quando eles quiseram 
essa mesma  alegria  deles .
Então  a grande  dança  dos  erros .
O cerimonial das palavras desconcertadas .
Ele  procurava  e  não  via  ,
ela não via  que ele não vira ,
ela  que , estava  ali ,  no entanto .
No  entanto  ele que estava  ali .
Tudo  errou ,  e havia  a grande poeira  das ruas ,
e quanto  mais  erravam , 
mais com aspereza queriam ,  sem  um sorriso .
Tudo só porque tinham prestado atenção ,
só porque não estavam bastante distraídos .
Só  porque , de súbito exigentes  e duros ,
quiseram  ter  o  que  já  tinham .
Tudo porque quiseram dar um  nome ;
porque quiseram  ser , eles que eram .
Foram  então  aprender que , 
não se estando distraído ,
o telefone  não toca ,
 e é preciso sair de casa 
para  que a carta chegue , 
e quando o telefone  finalmente toca ,
o deserto da espera já cortou os fios .
Tudo , tudo por não estarem mais distraídos ."

Clarice Lispector 
in , " A Descoberta do Mundo "

Som  na  caixa ...
 

sábado, 27 de setembro de 2014

O SEMPRE AMOR

Fernanda  e Guilherme 

" Amor é a coisa  mais  alegre 
 amor é a coisa  mais triste 
amor  é  coisa  que  mais quero.
Por  causa  dele falo palavras  como  lanças .
Amor  é a coisa  mais alegre 
 amor é a coisa mais triste 
amor é coisa que mais quero .
Por  causa dele podem entalhar-me ,
sou de pedra-sabão .
Alegre  ou  triste ,
amor é coisa  que  mais quero ."

Adélia Prado 
in , " Reunião de poesia "

Hoje é aniversário da Fernanda , minha filha ,
e a página é para ela .
No som da caixa , está uma música tocada 
em seu casamento com Guilherme , há cinco anos .

Parabéns  , Fê !
Saúde e muito amor, sempre ,
com as bençãos de Deus .

Beijos de todos 

Som  na  caixa ...

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

POEMA DE HOJE ...

fine  art  photography 


" Tira-me  a luz  dos olhos : continuarei a ver-te ...
Tapa-me  os ouvidos : continuarei a ouvir-te ...
E embora sem pés  caminharei  para  ti ...
E já sem boca  poderei ainda convocar-te .
Arranca-me  os braços : continuarei  abraçando-te 
com  meu coração  como com a mão ...
Arranca-me  o coração : ficará o cérebro ,
E se o cérebro me incendiares  também por fim ,
Hei-de  então levar- te no meu sangue ."


Rainer Maria Rilke 
in , " O Livro de Horas " 


Som  na  caixa ...

sábado, 13 de setembro de 2014

FICOU VAZIO ...

Alexei  Antonov 

" Ficou vazio o teu lugar à mesa . 
Alguém veio dizer-nos 
que não regressarias ,
que ninguém regressa de tão longe .
E , desde  então , 
 as nossas  feridas  têm a espessura  
do teu silêncio , as visitas são desejadas 
apenas  a  outras  mesas .
Sob  a tua cadeira , o tapete continua 
engelhado , como  à tua ida .
Provavelmente ficará  assim  para sempre .

No  outro Natal , quando a casa se encheu 
por  causa das crianças  e um de nós 
ocupou a cabeceira ,
não cheguei  a saber 
se  era  para  tornar  a festa menos dolorosa ,
se  para voltar   a sentir o quente do teu colo ."    

Maria do Rosário Pedreira , 
que me encanta com seu lirismo ,
dedicou o poema à  Avó ,
no livro Poesia Reunida , 2012 .
Todos nós , com certeza , temos
aqueles que nos fazem falta à mesa .
É  para eles , também , o poema .

Som  na  caixa ....






domingo, 7 de setembro de 2014

A PAIXÃO GREGA

Elena  Taras 

" Li  algures  que os gregos antigos não escreviam necrológicos ,
quando  alguém  morria  perguntavam  apenas :
tinha  paixão ?
quando  alguém  morre também  eu  quero saber 
da qualidade  da  sua  paixão :
se  tinha  paixão  pelas coisas  gerais ,
água ,
música ,
 pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos ,
pelo corpo salvo  dos seus próprios precipícios
  em  destino à glória ,
paixão pela paixão ,
tinha ?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão ,
se  posso morrer gregamente ,
que paixão ?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra ,
os grandes poemas  desaparecem nas grandes línguas 
que desaparecem ,
homens e mulheres  perdem  a  aura 
na usura ,
na política , 
no comércio ,
na indústria ,
dedos conexos ,
 há dedos que se inspiram  nos objetos à espera , 
trêmulos objetos  entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos  para tantos 
objetos  do mundo 
e o que há  assim no mundo 
que responda à pergunta grega ,
poder  manter-se  a paixão  com fruta comida 
ainda  viva ,
e fazer  depois com sal grosso  uma canção curtida 
pelas cicatrizes ,
palavra soprada  a que forno com que fôlego ,
que alguém perguntasse : tinha paixão ?
afastem de mim  a pimenta do reino ,
 o gengibre ,  o cravo da índia ,
ponham  muito  alto  a música  e que eu dance ,
fluido , infindável ,
apanhado por toda a luz antiga e moderna ,
os cegos , os temperados , ah não ,
que ao menos me encontrasse a paixão 
e eu me perdesse nela 
a  paixão grega ."

Herberto Helder 
in , " A Faca Não Corta  o Fogo "

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