segunda-feira, 20 de julho de 2015

ALMA ...

Jean  Paul  Avisse 

" Há  um  olhar que sabe discernir o certo
do errado  e o errado do certo .
Há  um  olhar que enxerga quando a obediência 
significa desrespeito e a desobediência 
representa respeito .
Há  um  olhar  que reconhece os curtos caminhos
longos e os longos caminhos curtos .
Há  um  olhar que desnuda , que não hesita  em
afirmar  que existem fidelidades  perversas   e
traições  de grande lealdade .
Este  olhar  é o da alma ."

Nilton Bonder ,
rabino e escritor  brasileiro ,
nascido em Porto Alegre , aos
27.12.1957

in , " A  Alma  Imoral "  

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sábado, 11 de julho de 2015

EPIFANIA

Caroline  Zimmermann

" todo o dia 
no meu quintal
surge uma gia
e um girassol 

algum  acaso 
dá uma rasteira 
afunda o raso
transborda  a beira 

toda a noite 
no meu quintal
vejo o horizonte
horizontal 

apenas água
dentro da pia 
café no fogo
epifania  "

Arnaldo Antunes 
poeta , compositor  , músico 
e artista visual , nascido em São Paulo , 1960.
in , " agora aqui ninguém precisa  de si "

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quinta-feira, 2 de julho de 2015

PAI , dizem -me que ainda te chamo ...

Johana  Harmon 


" Pai , dizem-me que ainda te chamo , às vezes ,
durante o sono - a ausência não te apaga  como
a bruma sossega , ao entardecer , o gume das
esquinas .
Há  nos meus sonhos  um território suspenso de
toda a dor , um país  de verão aonde não chegam
as guinadas da morte e todas as conchas  da praia
trazem pérolas .
Aí  nos encontramos , para dizermos um ao outro
aquilo que pensamos  ter , afinal , a vida toda 
para dizer ; aí te chamo , quando a luz  me cega
na lâmina  do mar , com lábios que se movem como
serpentes , mas sem nenhum ruído que envenene
as palavras : pai , pai .
Contam-me  depois que é deste  lado da noite 
que me ouvem gritar e que por isso me libertam
bruscamente  do cativeiro escuro desse sonho .
Não sabem  que o pesadelo  é a vida onde já não 
posso dizer o teu nome - porque a memória é uma
fogueira dentro das mãos e tu onde estás 
não me respondes ."

Maria do Rosário Pedreira 
in , " Nenhum Nome Depois "

A página de hoje é para o meu pai .
  São  três anos de ausência .
Minha saudade é  enorme . 

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sábado, 20 de junho de 2015

CLARICEANDO ...


No  belo livro " O TEMPO"  , encontramos
frases e citações de Clarice Lispector  em parte
de suas obras , " Minhas queridas , Cartas perto
do Coração / Fernando Sabino , Clarice na cabeceira ,
Laços de família , Felicidade clandestina , O Lustre ,
A cidade sitiada , A maçã  no escuro ."
 O Tempo  dá prosseguimento ao volume 
" As Palavras " , livro de semelhante natureza ,
 abrangendo  as demais obras de Clarice .
A curadoria  é de Roberto Corrêa dos Santos ,
semiólogo , teórico de arte , escritor e artista visual .
Cortar  por amor como ato de leitura , disse o curador ,
a norteá-lo , mantendo-se leal  à delicadeza de alma 
 que Clarice firma  em sua diferida  e ardente escritura . 

Partilho com vocês  alguns excertos . 

Minhas  Queridas   

" Cheguei mesmo à conclusão  de que escrever 
é a coisa  que mais desejo no mundo , mais que amor ."

" Não posso ver um cão na rua , nem gosto de olhar .
Você não sabe que revelação foi para mim ter um cão ,
ver e sentir a matéria de que é feito um cão .
É a coisa mais doce que eu já vi , o cão é de uma
paciência  para com a natureza impotente dele
 e para com a natureza incompreensível dos outros ."

" Farei o possível  para não amar demais as pessoas ,
sobretudo por causa das pessoas . Às vezes o amor 
que se dá pesa , quase como responsabilidade  na
pessoa que o recebe . Eu tenho essa tendência geral
para exagerar , e resolvi tentar não exigir dos outros
senão o mínimo . É uma forma de ter paz ."



LAÇOS  DE FAMÍLIA  

" Uma  coisa bonita era para se dar  ou para
se receber , não apenas para se ter .
E , sobretudo , nunca para se " ser" .
Sobretudo  nunca se deveria ser a coisa bonita .
A uma coisa bonita faltava o gesto de dar .
Nunca se devia ficar com uma coisa bonita ,
assim , como que guardada  dentro do silêncio 
perfeito do coração ."

FELICIDADE CLANDESTINA 

" Esperança  é coisa secreta e costuma pousar 
diretamente em mim , sem ninguém saber ."

" Uma vez , aliás , agora é que me lembro ,
uma esperança  bem  menor  que esta  pousara
no meu braço .
 Não senti nada , de tão leve que era , 
 foi só visualmente  que tomei consciência de 
sua presença . Encabulei  com a delicadeza .
Eu não mexia o braço e pensei : " e essa agora ?
que devo fazer ?" 
Em verdade nada fiz . 
Fiquei extremamente  quieta como se  uma
flor tivesse nascido em mim ."   


CLARICE NA CABECEIRA - JORNALISMO 

" Abri  as janelas do quarto e olhei  o jardim fresco e 
calmo  aos primeiros fios de sol , tive a certeza 
de que não há mesmo nada a fazer  senão viver ."

" Escrever é saber respirar dentro da frase .
É pôr algum silêncio  tanto nas linhas como
nas entrelinhas para que o leitor possa respirar 
comigo , sem pressa , adaptando-se  não só ao
seu ritmo  como ao meu , numa espécie de
contraponto  indispensável ."

A MAÇÃ  NO ESCURO 

" Um  dos indiretos modos de entender 
é achar bonito . Do lugar onde estou
de pé , a vida é muito bonita .
Entender é um modo de olhar .
Porque entender , aliás , é uma atitude .

O que a gente não entende , se resolve com amor ." 

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sábado, 13 de junho de 2015

VAMOS BRINCAR DE GANGORRA ?

Andrei  Balint 

" Quando  um  está mal ,
 o outro deve estar bem .
Quando um está irritado ,
o outro deve ser paciente .
Quando um está cansado ,
o outro deve encontrar disposição .
Quando um adoece ,
o outro deve mostrar saúde .
Quando um se envaidece de razão ,
o outro deve ser humilde no cuidado .
No casal , as fraquezas não podem convergir .
Não podem ocorrer simultaneamente .
( ...)
Quando os dois decidem  ser a parte mais
fraca do relacionamento , os laços sucumbem .
Não podem ocupar o mesmo papel ,
 o mesmo script .
Só há vaga para um protagonista 
em cada crise .
Alguém terá que ser coadjuvante .
Dois vilões no mesmo filme  geram divórcio .
 A alternância é o segredo da convivência .
Mudar de lugar sempre , analisar quem mais
precisa e ceder .
O que traz a estabilidade é a gangorra :
quando a mulher cai , o homem estende 
o braço ; quando o homem vacila ,
a mulher acode .
A separação acontece quando duas chagas
conversam procurando mostrar qual é a 
mais funda . É quando duas feridas  travam
uma guerra buscando sangrar mais , e 
nenhum dos lados estanca a própria carência .
( ...)
Um  tem que ser adulto na hora do pânico .
Um tem que ser responsável .
Um  ter que ser forte o suficiente para
preservar as fraquezas  do amor ."

Fabrício Carpinejar
poeta , cronista , jornalista e professor ,
nascido  em 1972 , na cidade de Caxias  do 
Sul ( RS )  , Brasil 
in " Me ajude a chorar "   

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domingo, 31 de maio de 2015

ENCONTRO

Aldo  Balding 

" Ele  não  apareceu .
Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo
de um eléctrico .
Talvez  outra pessoa se pusesse na conversa com ele .
Talvez  se tenha esquecido do relógio , ou o relógio 
 se tenha esquecido  de lhe dar o tempo certo .
Talvez  o carro não pegasse , ou tenha ficado 
avariado  a meio do caminho .
Talvez alguém lhe telefonasse  quando ia sair de casa ,
dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral ou que
a mãe dele  tinha  morrido .
Talvez  tenha encontrado  um antigo conhecido .
Talvez tenha tido uma discussão no emprego ,
tenha sido despedido  e esteja a esconder  a
cabeça  debaixo de uma almofada .
Talvez a ponte tivesse  fechada e a seguinte também .
Talvez o semáforo  permanecesse  vermelho .
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão  ou
a meio do caminho  tenha reparado que esquecera
o porta-moedas .
Talvez tenha perdido os óculos , não conseguisse
deixar de ler , houvesse um programa  que ele
queria acabar de ver , não conseguisse  dar 
a volta à fechadura da porta , não encontrasse
as chaves em sítio  nenhum  e o cão dele começasse
a vomitar .    
Talvez não houvesse um telefone por perto , 
não encontrasse o restaurante  ou esteja à espera
em outro sítio , por engano .
Talvez - a última possibilidade ,
incompreensível  e inesperada -
ele tenha  deixado de me amar ."

Hagar Peeters ,
 poeta holandesa , nascida em 
Amsterdã-1972

Tradução  de 
Maria Leonor Raven-Gomes 

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sábado, 23 de maio de 2015

A SAIA ALMARROTADA

Madalina  Iordoche -Levay

( ...)

"Na  minha vila , a única do mundo , as mulheres 
sonhavam com vestidos  novos  para saírem .
Para  serem abraçadas  pela felicidade .
A mim , quando deram a saia de rodar , 
eu  me tranquei  em casa .
mais que fechada , me apurei invisível ,
eternamente noturna .
Nasci para cozinha ,  pano e pranto .
Ensinaram-me tanta vergonha  em sentir
prazer , que acabei sentindo prazer em
ter vergonha .
Por  isso , perante a oferta do vestido , 
fiquei  dentro , no meu ninho ensombrado .
No dia seguinte , as outras chegariam e me
falariam do baile , das lembranças cheias
de riso matreiro .
E nem  inveja  sentiria .

( ...)

Na  minha  vila  as  mulheres  cantavam .
Eu  pranteava .
Apenas quando chorava me sobrevinham belezas .
Só  a lágrima  me desnudava , só ela me enfeitava .

( ...)

Chega-me ainda a voz de meu velho pai como se
ele  estivesse  vivo .
Era  essa  voz que fazia Deus  existir .
Que  me  ordenava que ficasse feia ,
 desviçosa a vida  inteira .
Eu  acreditava que nada era mais antigo 
que meu pai .
Sempre  ceguei em obediência ,
 enxotando  tentações  que piripilampejavam
a minha meninice .
Obedeci mesmo quando ele ordenou :
Vá  lá fora e pegue fogo neste vestido !
Eu  fui ao pátio com  a prenda que meu tio 
secretamente  me havia oferecido .
Não  cumpri .
Guiaram-me  os mandos do diabo  e ,
numa cova  ocultei esse enfeite .

( ...)

E  pergunto : posso agora , meu pai ,
agora que já tenho mais rugas que pregas tem
esse vestido , posso agora me embelezar de vaidades ?
Fico  à  espera de sua autorização  enquanto vou ao
pátio  desenterrar o vestido do baile que não houve .
E visto-me  com ele , me resplandeço ante o espelho ,
rodopio  para enfunar a roupa .
Uma diáfana música me embala pelos corredores 
da  casa .
Agora , estou sentada , olhando a saia rodada ,
a saia amarfanhosa , almarrotada    .
E parece  que me sento  sobre minha própria vida . "

Mia  Couto ,
in , "  O  Fio das Missangas "

Conheci  o premiado escritor Mia Couto ,
há alguns anos ,  lendo   
" O Fio das Missangas ".
A  cada  conto , a poeticidade  com que ele manejava
as palavras  e colocava as metáforas , fazia toda
diferença  na configuração do texto  trazendo um
colorido único que me encantou .
 Foi  paixão  à primeira leitura .
Desde então ,  seus livros sempre me fazem companhia .
Divido com vocês excertos do conto ", " A saia almarrotada "
que já havia publicado em setembro de 2010 .

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