segunda-feira, 30 de novembro de 2015

PABLO NERUDA

Lauri Blanc 


"  Talvez não ser é ser quem tu sejas ,
sem que vás cortando  o meio dia 
como uma flor azul , sem que caminhes 
mais tarde pela névoa e os ladrilhos 
sem essa luz que levas na mão 
que talvez outros não verão dourada ,
que talvez ninguém soube que crescia 
como a origem rubra  da rosa ,
sem que sejas  , enfim , sem que viesses 
brusca , incitante , conhecer minha vida ,
aragem de roseira , trigo do vento ,
e  desde então  sou porque tu és ,
e desde então és , sou e somos 
e por amor serei , serás , seremos ."

in , Cem sonetos de Amor ,
LXIX

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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

QUEM ENTRARÁ NO PARAÍSO ?

Jean -Paul Nacivet

 " Alguns não sabem brincar . Ao invés de brincar ,
abrem  seu baú  de ferramentas de trabalho .
Mas  a Criança  não se interessa pela mala .
Os chegantes se sentem ofendidos .
 Dizem que foram à  escola para deixar de ser 
crianças e se tornar adultos . 
Suas ferramentas são sua prova.
A Criança lhes sorri e lhes diz que , naquela escola,
eles não passaram . Não podem entrar no Paraíso .
Ficaram de D.P.
" Voltem quando tiverem deixado  de ser adultos .
Voltem quando tiverem voltado a ser crianças ."

Rubem Alves ,
in "  Do Universo à Jabuticaba "

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sábado, 7 de novembro de 2015

MÚSICA DE HOJE : CAETANO VELOSO

Jean-Paul Nacivet

" Não vejo mais você faz tanto tempo 
Que vontade que eu sinto
De olhar  em seus olhos  ganhar seus
abraços ,
É verdade , eu não minto 

E nesse desespero em que me vejo 
Já cheguei a tal ponto 
De me trocar diversas vezes por você  
Só pra ver  se te encontro 

Você bem que podia perdoar 
E só mais uma vez me aceitar 
Prometo agora vou fazer por onde 
nunca mais perdê-la 

Agora , que faço eu da vida sem você ?
Você não me ensinou a te esquecer 
Você só me ensinou a te querer
E te querendo  eu vou tentando  te
encontrar 
Vou me perdendo 
Buscando em outros braços seus
 abraços 
Perdido no vazio de outros passos 
Do abismo em que você se retirou 
E me atirou  e me deixou aqui sozinho

Agora , que faço eu da vida sem você ?
Você não me ensinou a te esquecer  
Você  só me ensinou a te querer
E te querendo vou tentando me 
encontrar 

E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto 
De me trocar diversas vezes por você 
Só pra ver se te encontro 

Você bem que podia perdoar  
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde 
nunca mais perdê-la 

Agora , que faço eu da vida sem você ?
Você  não me ensinou a te esquecer 
Você  só me ensinou a te querer
E te querendo  eu vou tentando te
encontrar 
Vou me perdendo 
Buscando em outros braços  seus
abraços 
Perdido no vazio de outros passos 
Do abismo em que  você se retirou 
E me atirou  e me deixou aqui sozinho

Agora , que faço eu da vida sem você ?
Você  não me ensinou a te esquecer 
Você só me ensinou  a te querer
E te querendo  eu vou tentando  me
encontrar ." 

 in , Você não me  ensinou a te esquecer 

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sábado, 31 de outubro de 2015

113 º ANIVERSÁRIO DE DRUMMOND

Pascal  Roy

" Desejo  a  você 
Fruto do mato
Cheiro de jardim 
Namoro no portão
Domingo sem chuva 
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme de Carlitos 
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos 
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver  a Banda passar
Noite de Lua Cheia 
Rever uma velha amizade 
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca , nem jamais e adeus .
Rir como criança 
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal 
Tomar banho de cachoeira 
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Queijo com goiabada
Pôr do Sol na roça 
Uma festa
Um violão 
Uma seresta 
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria 
Uma tarde amena 
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona 
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu ."

Carlos Drummond de Andrade,
no poema " Desejos "

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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO

Anna  & Elena  Balbusso 

II

"  Ama-me  . É tempo ainda . Interroga-me .
E  eu  te  direi  que o nosso tempo é agora .
Esplêndida altivez , vasta  ventura 
Porque é mais vasto o sonho que elabora 
Há tanto tempo sua própria tessitura .
Ama-me  embora eu te pareça 
Demasiado  intensa . E de aspereza .
E transitória  se tu me repensas ."

Hilda  Hilst 
in , " Júbilo , memória , noviciado da paixão "

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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

PESSOA , sempre ...

Jean  Paul  Nacivet 

"  O amor  é  uma  companhia .
Já  não sei andar só pelos caminhos , 
Porque já não posso andar  só .
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa .
E  ver  menos , e ao mesmo tempo  ,
gostar bem de ir vendo tudo ,
E  eu gosto tanto dela  que não sei como a desejar .
Se não a vejo , imagino-a  e sou forte como as 
árvores  altas .
Mas  se  a vejo  tremo , não sei o que é feito 
 do que sinto na ausência dela   . 

Todo  eu sou qualquer força que me abandona .
Toda  a  realidade  olha para mim  como 
um girassol com a cara dela no meio ."

Alberto Caeiro , no poema 
O amor é uma  companhia 

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terça-feira, 6 de outubro de 2015

PEDRO CHAGAS FREITAS

Jinchul  Kim 


" Comecei  a amar-te  no dia em que te abandonei .
Foram  as  palavras  dele  quando , dez anos depois,
a encontrou  por mero acaso no café .
Ela  sorriu , disse-lhe " olá , amo-te " mas os lábios 
só disseram " olá , tudo bem ?".
Ficaram horas a conversar , até que ele , nestas coisas 
era  sempre ele  a perder a vergonha por mais vergonha
que tivesse naquilo que tinha feito
 ( como é que fui deixar-te ? como fui tão imbecil  ao ponto
  de não perceber  que estava em ti tudo o que queria ?) ,
lhe disse com toda a naturalidade do mundo  que queria
levá-la  para a cama .
Ela primeiro pensou em esbofeteá-lo  e depois amá-lo 
a tarde  toda e a noite toda ,  de seguida pensou em fugir 
dali  e depois amá-lo  a tarde toda e a noite toda ,
 e finalmente  resolveu   não dizer nada , e , lentamente ,
a esconder as lágrimas  por dentro dos olhos ,
abandonou-o  da mesma maneira que ele a abandonara 
uma década  antes . Não era uma vingança  nem sequer
um castigo - apenas percebeu que estava tão perdida 
dentro do que sentia  que tinha de ir para longe dali 
para ir para dentro de si .
Pensou que provavelmente  foi isto que lhe aconteceu 
naquele dia longínquo  em que a deixara ,
sozinha e esparramada  de dor , no chão ,
para nunca mais voltar .
De tudo o que amo és tu o que mais me apaixona .
Foram as palavras dela , poucos  minutos depois , 
quando ele , teimoso , a seguiu  até ao fundo da rua 
em hora de ponta . 
Estavam  frente  a frente ,  toda a gente a passar 
sem perceber  que ali se decidia o futuro do mundo .
Ele disse :
 " casei-me com outra para te poder amar em paz ."
Ela  disse :
" casei-me  com outro para que houvesse um ruído
que te calasse em mim ."
Na  verdade nenhum nem outro disseram nada
disso  porque nenhum nem outro eram poetas .
Mas o que as palavras de um 
( amo-te como um louco ) e as palavras de outro
( amo-te como uma louca ) disseram foi  isso  mesmo .
A rua parou , então ,  diante do abraço deles  ."

in , "  Prometo falhar "


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