Madalina Iordoche -Levay
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"Na minha vila , a única do mundo , as mulheres
sonhavam com vestidos novos para saírem .
Para serem abraçadas pela felicidade .
A mim , quando deram a saia de rodar ,
eu me tranquei em casa .
mais que fechada , me apurei invisível ,
eternamente noturna .
Nasci para cozinha , pano e pranto .
Ensinaram-me tanta vergonha em sentir
prazer , que acabei sentindo prazer em
ter vergonha .
Por isso , perante a oferta do vestido ,
fiquei dentro , no meu ninho ensombrado .
No dia seguinte , as outras chegariam e me
falariam do baile , das lembranças cheias
de riso matreiro .
E nem inveja sentiria .
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Na minha vila as mulheres cantavam .
Eu pranteava .
Apenas quando chorava me sobrevinham belezas .
Só a lágrima me desnudava , só ela me enfeitava .
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Chega-me ainda a voz de meu velho pai como se
ele estivesse vivo .
Era essa voz que fazia Deus existir .
Que me ordenava que ficasse feia ,
desviçosa a vida inteira .
Eu acreditava que nada era mais antigo
que meu pai .
Sempre ceguei em obediência ,
enxotando tentações que piripilampejavam
a minha meninice .
Obedeci mesmo quando ele ordenou :
Vá lá fora e pegue fogo neste vestido !
Eu fui ao pátio com a prenda que meu tio
secretamente me havia oferecido .
Não cumpri .
Guiaram-me os mandos do diabo e ,
numa cova ocultei esse enfeite .
( ...)
E pergunto : posso agora , meu pai ,
agora que já tenho mais rugas que pregas tem
esse vestido , posso agora me embelezar de vaidades ?
Fico à espera de sua autorização enquanto vou ao
pátio desenterrar o vestido do baile que não houve .
E visto-me com ele , me resplandeço ante o espelho ,
rodopio para enfunar a roupa .
Uma diáfana música me embala pelos corredores
da casa .
Agora , estou sentada , olhando a saia rodada ,
a saia amarfanhosa , almarrotada .
E parece que me sento sobre minha própria vida . "
Mia Couto ,
in , " O Fio das Missangas "
Conheci o premiado escritor Mia Couto ,
há alguns anos , lendo
" O Fio das Missangas ".
A cada conto , a poeticidade com que ele manejava
as palavras e colocava as metáforas , fazia toda
diferença na configuração do texto trazendo um
colorido único que me encantou .
Foi paixão à primeira leitura .
Desde então , seus livros sempre me fazem companhia .
Divido com vocês excertos do conto ", " A saia almarrotada "
que já havia publicado em setembro de 2010 .
Som na caixa ...







