sábado, 20 de junho de 2015

CLARICEANDO ...


No  belo livro " O TEMPO"  , encontramos
frases e citações de Clarice Lispector  em parte
de suas obras , " Minhas queridas , Cartas perto
do Coração / Fernando Sabino , Clarice na cabeceira ,
Laços de família , Felicidade clandestina , O Lustre ,
A cidade sitiada , A maçã  no escuro ."
 O Tempo  dá prosseguimento ao volume 
" As Palavras " , livro de semelhante natureza ,
 abrangendo  as demais obras de Clarice .
A curadoria  é de Roberto Corrêa dos Santos ,
semiólogo , teórico de arte , escritor e artista visual .
Cortar  por amor como ato de leitura , disse o curador ,
a norteá-lo , mantendo-se leal  à delicadeza de alma 
 que Clarice firma  em sua diferida  e ardente escritura . 

Partilho com vocês  alguns excertos . 

Minhas  Queridas   

" Cheguei mesmo à conclusão  de que escrever 
é a coisa  que mais desejo no mundo , mais que amor ."

" Não posso ver um cão na rua , nem gosto de olhar .
Você não sabe que revelação foi para mim ter um cão ,
ver e sentir a matéria de que é feito um cão .
É a coisa mais doce que eu já vi , o cão é de uma
paciência  para com a natureza impotente dele
 e para com a natureza incompreensível dos outros ."

" Farei o possível  para não amar demais as pessoas ,
sobretudo por causa das pessoas . Às vezes o amor 
que se dá pesa , quase como responsabilidade  na
pessoa que o recebe . Eu tenho essa tendência geral
para exagerar , e resolvi tentar não exigir dos outros
senão o mínimo . É uma forma de ter paz ."



LAÇOS  DE FAMÍLIA  

" Uma  coisa bonita era para se dar  ou para
se receber , não apenas para se ter .
E , sobretudo , nunca para se " ser" .
Sobretudo  nunca se deveria ser a coisa bonita .
A uma coisa bonita faltava o gesto de dar .
Nunca se devia ficar com uma coisa bonita ,
assim , como que guardada  dentro do silêncio 
perfeito do coração ."

FELICIDADE CLANDESTINA 

" Esperança  é coisa secreta e costuma pousar 
diretamente em mim , sem ninguém saber ."

" Uma vez , aliás , agora é que me lembro ,
uma esperança  bem  menor  que esta  pousara
no meu braço .
 Não senti nada , de tão leve que era , 
 foi só visualmente  que tomei consciência de 
sua presença . Encabulei  com a delicadeza .
Eu não mexia o braço e pensei : " e essa agora ?
que devo fazer ?" 
Em verdade nada fiz . 
Fiquei extremamente  quieta como se  uma
flor tivesse nascido em mim ."   


CLARICE NA CABECEIRA - JORNALISMO 

" Abri  as janelas do quarto e olhei  o jardim fresco e 
calmo  aos primeiros fios de sol , tive a certeza 
de que não há mesmo nada a fazer  senão viver ."

" Escrever é saber respirar dentro da frase .
É pôr algum silêncio  tanto nas linhas como
nas entrelinhas para que o leitor possa respirar 
comigo , sem pressa , adaptando-se  não só ao
seu ritmo  como ao meu , numa espécie de
contraponto  indispensável ."

A MAÇÃ  NO ESCURO 

" Um  dos indiretos modos de entender 
é achar bonito . Do lugar onde estou
de pé , a vida é muito bonita .
Entender é um modo de olhar .
Porque entender , aliás , é uma atitude .

O que a gente não entende , se resolve com amor ." 

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sábado, 13 de junho de 2015

VAMOS BRINCAR DE GANGORRA ?

Andrei  Balint 

" Quando  um  está mal ,
 o outro deve estar bem .
Quando um está irritado ,
o outro deve ser paciente .
Quando um está cansado ,
o outro deve encontrar disposição .
Quando um adoece ,
o outro deve mostrar saúde .
Quando um se envaidece de razão ,
o outro deve ser humilde no cuidado .
No casal , as fraquezas não podem convergir .
Não podem ocorrer simultaneamente .
( ...)
Quando os dois decidem  ser a parte mais
fraca do relacionamento , os laços sucumbem .
Não podem ocupar o mesmo papel ,
 o mesmo script .
Só há vaga para um protagonista 
em cada crise .
Alguém terá que ser coadjuvante .
Dois vilões no mesmo filme  geram divórcio .
 A alternância é o segredo da convivência .
Mudar de lugar sempre , analisar quem mais
precisa e ceder .
O que traz a estabilidade é a gangorra :
quando a mulher cai , o homem estende 
o braço ; quando o homem vacila ,
a mulher acode .
A separação acontece quando duas chagas
conversam procurando mostrar qual é a 
mais funda . É quando duas feridas  travam
uma guerra buscando sangrar mais , e 
nenhum dos lados estanca a própria carência .
( ...)
Um  tem que ser adulto na hora do pânico .
Um tem que ser responsável .
Um  ter que ser forte o suficiente para
preservar as fraquezas  do amor ."

Fabrício Carpinejar
poeta , cronista , jornalista e professor ,
nascido  em 1972 , na cidade de Caxias  do 
Sul ( RS )  , Brasil 
in " Me ajude a chorar "   

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domingo, 31 de maio de 2015

ENCONTRO

Aldo  Balding 

" Ele  não  apareceu .
Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo
de um eléctrico .
Talvez  outra pessoa se pusesse na conversa com ele .
Talvez  se tenha esquecido do relógio , ou o relógio 
 se tenha esquecido  de lhe dar o tempo certo .
Talvez  o carro não pegasse , ou tenha ficado 
avariado  a meio do caminho .
Talvez alguém lhe telefonasse  quando ia sair de casa ,
dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral ou que
a mãe dele  tinha  morrido .
Talvez  tenha encontrado  um antigo conhecido .
Talvez tenha tido uma discussão no emprego ,
tenha sido despedido  e esteja a esconder  a
cabeça  debaixo de uma almofada .
Talvez a ponte tivesse  fechada e a seguinte também .
Talvez o semáforo  permanecesse  vermelho .
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão  ou
a meio do caminho  tenha reparado que esquecera
o porta-moedas .
Talvez tenha perdido os óculos , não conseguisse
deixar de ler , houvesse um programa  que ele
queria acabar de ver , não conseguisse  dar 
a volta à fechadura da porta , não encontrasse
as chaves em sítio  nenhum  e o cão dele começasse
a vomitar .    
Talvez não houvesse um telefone por perto , 
não encontrasse o restaurante  ou esteja à espera
em outro sítio , por engano .
Talvez - a última possibilidade ,
incompreensível  e inesperada -
ele tenha  deixado de me amar ."

Hagar Peeters ,
 poeta holandesa , nascida em 
Amsterdã-1972

Tradução  de 
Maria Leonor Raven-Gomes 

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sábado, 23 de maio de 2015

A SAIA ALMARROTADA

Madalina  Iordoche -Levay

( ...)

"Na  minha vila , a única do mundo , as mulheres 
sonhavam com vestidos  novos  para saírem .
Para  serem abraçadas  pela felicidade .
A mim , quando deram a saia de rodar , 
eu  me tranquei  em casa .
mais que fechada , me apurei invisível ,
eternamente noturna .
Nasci para cozinha ,  pano e pranto .
Ensinaram-me tanta vergonha  em sentir
prazer , que acabei sentindo prazer em
ter vergonha .
Por  isso , perante a oferta do vestido , 
fiquei  dentro , no meu ninho ensombrado .
No dia seguinte , as outras chegariam e me
falariam do baile , das lembranças cheias
de riso matreiro .
E nem  inveja  sentiria .

( ...)

Na  minha  vila  as  mulheres  cantavam .
Eu  pranteava .
Apenas quando chorava me sobrevinham belezas .
Só  a lágrima  me desnudava , só ela me enfeitava .

( ...)

Chega-me ainda a voz de meu velho pai como se
ele  estivesse  vivo .
Era  essa  voz que fazia Deus  existir .
Que  me  ordenava que ficasse feia ,
 desviçosa a vida  inteira .
Eu  acreditava que nada era mais antigo 
que meu pai .
Sempre  ceguei em obediência ,
 enxotando  tentações  que piripilampejavam
a minha meninice .
Obedeci mesmo quando ele ordenou :
Vá  lá fora e pegue fogo neste vestido !
Eu  fui ao pátio com  a prenda que meu tio 
secretamente  me havia oferecido .
Não  cumpri .
Guiaram-me  os mandos do diabo  e ,
numa cova  ocultei esse enfeite .

( ...)

E  pergunto : posso agora , meu pai ,
agora que já tenho mais rugas que pregas tem
esse vestido , posso agora me embelezar de vaidades ?
Fico  à  espera de sua autorização  enquanto vou ao
pátio  desenterrar o vestido do baile que não houve .
E visto-me  com ele , me resplandeço ante o espelho ,
rodopio  para enfunar a roupa .
Uma diáfana música me embala pelos corredores 
da  casa .
Agora , estou sentada , olhando a saia rodada ,
a saia amarfanhosa , almarrotada    .
E parece  que me sento  sobre minha própria vida . "

Mia  Couto ,
in , "  O  Fio das Missangas "

Conheci  o premiado escritor Mia Couto ,
há alguns anos ,  lendo   
" O Fio das Missangas ".
A  cada  conto , a poeticidade  com que ele manejava
as palavras  e colocava as metáforas , fazia toda
diferença  na configuração do texto  trazendo um
colorido único que me encantou .
 Foi  paixão  à primeira leitura .
Desde então ,  seus livros sempre me fazem companhia .
Divido com vocês excertos do conto ", " A saia almarrotada "
que já havia publicado em setembro de 2010 .

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segunda-feira, 18 de maio de 2015

VIESTE

Ilse Kleyn 

" Vieste  na hora exata 
Com ares de festa  e luas de prata
Vieste com encantos , vieste
Com beijos silvestres  colhidos pra mim 

Vieste com a natureza 
Com as mãos camponesas  plantadas em mim 
Vieste com a cara e a coragem 
Com malas , viagens  pra dentro de mim 
Meu  amor 

Vieste a hora e a tempo
Soltando meus barcos e velas ao vento
Vieste me dando alento
Me olhando por dentro, velando por mim

Vieste de olhos fechados , num dia marcado
Sagrado pra mim 
Vieste com a cara e a coragem
Com malas ,viagens pra dentro de mim
Meu  amor "

Ivan Lins  e Vitor Martins 

A página de hoje é para o Felipe , meu filho .
Ele nasceu num 18 de maio , fazendo este dia
" sagrado pra mim " .

Parabéns !
Saúde , Paz , Sucesso e Amor ,
com as bençãos de Deus .
Beijos de todos nós .

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sábado, 9 de maio de 2015

COMEMORAÇÃO

Sandra Bierman

" A  maternidade , à semelhança da arte ,
 é como encostar  o ouvido na porta  fechada 
sobre o mistério .
Sentimos  ternura e medo quando esta nova
criatura  domina nossa vida , inunda os espaços,
tolhe a liberdade , colhe os frutos do tempo  e
da paciência  e no entanto não poderíamos 
viver  sem ela .
Passaremos o resto da vida aprendendo  como
não ser tão dependente  desse novo ser , 
aprendendo a torná-lo  livre  de nós : 
único , senhor de seu caminho , 
e dono de suas escolhas .
Porque só assim poderemos inventar um amor ,
que , por não sujeitar , nos reafirma ."

Lya  Luft 

Amanhã , segundo domingo de maio ,
 comemora-se, no Brasil ,  o Dia das Mães .
Desejo a todas mães do mundo ,
 muita saúde e amor .
Amanhã , dia 10 de maio , comemoro os 
5 anos deste blog , que nasceu para partilhar
o prazer  da leitura .
E , como nos aniversários anteriores ,
preciso agradecer a vocês , meus amigos ,
que me dão a conhecer seus espaços repletos
de arte  e me acompanham  na paixão pelos livros .   
Um grande abraço onde caibam todos .
Beijos de gratidão .

Marisa 

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sábado, 2 de maio de 2015

POEMA DE HOJE ...

René  Magritte 

" Uma  viagem  a  descoberto :
ave,  aventura 
e  seus  voos  cegos !
Sem  espelhos retrovisores 
só  assim 
me visto , somente 
com paisagem
e sem assinar meu nome 
em  nenhuma parte 
eu  passo 
e me assassino :
sol  assim ."

Armando Freitas Filho 

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