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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

CELEBRAÇÃO

Fernanda 

" Eu quero um punhado de estrelas maduras 
eu quero a doçura do verbo viver . "
( Caio Fernando Abreu ) 

Hoje é aniversário de minha filha  Fernanda .
Desejamos  muita doçura em sua vida ,
  que seja repleta de saúde , sucesso e amor 
com as bençãos de Deus .
Viva  ela !!!
Beijos de nós todos .

O som na caixa será com música que 
a aniversariante gosta bastante 


segunda-feira, 17 de junho de 2019

CAIO FERNANDO ABREU

Leonid Afremov 

" Que coisas são essas que me dizes sem dizer ,
escondidas  atrás do que realmente quer dizer ?
Tenho me confundido na  tentativa  de te 
 decifrar , todos os dias .  
Mas confuso , perdido , sozinho ,
minha única certeza é que de cada vez  aumenta 
ainda mais minha necessidade de ti .
Torna-se desesperada , urgente .
Eu já não sei o que faço .
Não sinto outra alegria  além de ti ,
Como pude cair assim nesse fundo poço?
Quando foi que me desequilibrei ?
Não quero me afogar :
Quero beber tua água .
Não te negues , minha sede é clara . "

Caio Fernando Abreu 
in , " O essencial da década de 1980 "

Som  na  caixa ... 



domingo, 5 de novembro de 2017

CAIO FERNANDO ABREU

Jinchul  Kim 

" Com  a lucidez dos embriagados  haviam-se
reconhecido  desde o primeiro momento .
Ou talvez estivessem realmente destinados 
um ao outro , e mesmo sem álcool , numa  rua
repleta  saberiam encontrar-se .
O fulgor nos olhos e a incerteza intensificada
nos passos fora a pergunta  de um 
e  a resposta do outro "

in , O inventário do Ir-remediável 

Som  na  Caixa ...  



sábado, 9 de abril de 2016

AMIGOS TELEFÔNICOS

Waleska  Nomura 

Duas décadas depois da morte de Caio  Fernando Abreu , 
suas crônicas continuam atuais .
Transcrevo fragmentos desta que foi publicada 
no jornal " O Estado de São Paulo ", em 27/05/1986 , para
apreciação de vocês  .

"  Amigos telefônicos são preciosos .
E , por isso mesmo , raros .
Eu tenho três ou quatro , e bastam .
Amigo telefônico  é assim : você só fala com ele por 
telefone. Ou fala pessoalmente também , mas é
completamente diferente . 
Quando você encontra muito seguido um amigo telefônico,
a amizade se divide  em duas amizades paralelas :
a que acontece cara a cara  e a que  acontece telefonicamente .
Esta , sempre mais funda .
Há coisas que só se diz por telefone : telefone  elimina rosto ,
gesto , movimento : a voz fica absoluta .

( ...)

A gente recorre    a amigo  telefônico quando  alguma coisa
não cabe por dentro . Não apenas dor .
A gente recorre a ele também  quando alguma coisa boa 
não cabe  dentro sozinha : tem que ser dita .
Você liga pra dizer que está feliz . Teve uma iluminação , 
pressentimento , uma fantasia , desejo .
As pautas desenvolvidas  na amizade telefônica podem ser
muito abstratas , entende ?
E essa é outra  das grandes diferenças
 entre a amizade telefônica e a outra :
 poder falar de coisas que quase aconteceram .
Ou que deviam acontecer .
Um pouco como em carta .
 Antigamente , a carta era o equivalente do telefone . 
Porque na carta , também você diz coisas que ,cara a cara , 
não seriam dizíveis .

( ...)

Com amigo telefônico , toda a obrigação de parecer lúcido ,
consciente e equilibrado  é inteiramente desnecessária .
Se uma terceira pessoa  ouvisse um papo  entre dois velhos
amigos telefônicos , provavelmente , acharia completamente
louco .  
Na amizade telefônica , a lógica é tão sutil  que parece
não existir . Mas existe .     
Há também os silêncios .
Silêncio  de amizade cara a cara quase
 sempre soa constrangedor .
Em amizade  telefônica , nunca :
 um fica ouvindo a respiração 
do outro  durante muito tempo .
E não precisa dizer nada .
 A respiração do  outro  fala :
Olha , estou aqui , está tudo bem , seja o que for ,
vai dar certo , estou atento ao seu coração , você está atento
ao meu , e, por estarmos atentos ao coração um do outro ,
só por  isso -  ele fica mais leve o coração .
Agora  são sete horas da manhã , estou pensando em meus
amigos telefônicos .
Mas não telefono . 
Amigo telefônico costuma dormir até tarde ,
principalmente , às segundas-feiras - 
porque as noites de domingo -
ah , essas são particularmente telefônicas .
E eles  são solitários , esses amigos  meio estranhos :
ouvem vozes . 
Por isto mesmo , ponho um disco do João Gilberto
bem baixinho  e dou um beijo a distância
  na testa de cada um  deles .
Envio pelo espaço a voz de João  para embalá-los  nesse sono
da manhã feriada  e chuvosa .
Que nem canção de ninar - me liga , tá ? "

Som  na  caixa ...


terça-feira, 18 de agosto de 2015

CAIO FERNANDO ABREU

David  Lee Thompson

"  Como  se eu estivesse por fora do movimento da vida .
A vida rolando por aí  feito roda-gigante , com todo
mundo dentro , e eu aqui parada , pateta , sentada
no bar .  Sem  fazer  nada , como se tivesse desaprendido
a linguagem dos  outros . A linguagem que eles usam para
se comunicar quando rodam assim e assim por diante 
nessa roda-gigante . Você tem um passe para a roda-gigante ,
uma senha , um código , sei lá . Você fala qualquer coisa
tipo bá , por exemplo , então o cara deixa você entrar ,
sentar  e rodar junto com os outros . Mas eu fico sempre 
do lado de fora . Aqui parada , sem saber  a palavra
certa , sem conseguir adivinhar ."

in , " Os Dragões não conhecem o paraíso " , 
 IX , Dama da Noite   

Som  na  caixa ...


domingo, 22 de março de 2015

ONÍRICO

Josephine  Wall

Escrito em 1991 , por Caio Fernando Abreu , este conto ,
 pretendia ser  uma reescritura  de 
" A pequena sereia " de Andersen .
A jovem de " Onírico " encontra com seu amado  em sonho , 
e passa , evidentemente sem sucesso , a procurá-lo nas ruas .
Partilho com vocês alguns trechos .

" Viu  os frutos do pomar amadurecerem e serem
colhidos , viu a neve derreter-se  nas montanhas .
Mas  nunca  mais viu o  príncipe ."

Andersen  , " A pequena  sereia " 

" Veio num sonho , certa  noite . 
Ela  o  amava . Ele  a  amava  também .
E  ainda  que  essa  coisa , o amor , fosse
complicada  demais para  compreender e detalhar 
nas  maneiras  tortuosas  como acontece ,
naquele momento em que acontecia  dentro do sonho ,
era  simples . Boa , fácil , assim  era.
Ela  gostava  de  estar  com ele ,
ele gostava  de estar  com ela .  Isso  era  tudo .
Dormiam  juntos , no sonho , porque  era bom 
para  um  e  para  o outro  estarem  assim  juntos ,
naquele  outro espaço .

(...)

Deitada  no  ombro dele , ela via seu rosto 
muito próximo . Esse  era  o  sonho , nada  mais .
E  isso , mais tarde  saberia , era  o  único fato 
do sonho  inteiro : via o rosto dele muito próximo .

(...)

Talvez ele tivesse passado um dos braços em 
torno da cintura  dela , quem sabe ela houvesse
deitado uma das mãos sobre o ombro dele ,
erguendo os dedos até que tocassem no 
lóbulo de sua orelha .
Em todos os dias que se seguiram à noite daquele
sonho , e foram muitos , honestamente não 
saberia  localizar outros detalhes .

(...)

Sem  artifícios , acordou na manhã seguinte .
Vazias , ela e a manhã . E procurou o telefone 
para  contar  às  amigas . " Premonição " , 
disse uma , " você  vai encontrar  alguém "; 
" transporte  astral " , disse  outra ,
"você  deve  tê-lo  realmente encontrado numa
outra dimensão "; " ah , mera projeção  de carências 
atávicas " , disse  mais  uma , " no fundo pura
falta de sexo " .

(...)

Nos  dias  seguintes , mesmo aceitando todos
os jantares e cedendo a todos os cinemas 
e shoppings e pizzarias , pois ele poderia estar
também no real - ele também não estava lá .
Nem aqui .  Em nenhum lugar que fosse , 
de fora ou de dentro , nos dias seguintes ao dia
 em que estivera deitada no ombro dele  tão
proximamente nu também , no fundo de um
sonho , conseguia reencontrá-lo .

( ...)

Passaram-se  meses , ela não o esquecia .
Toda  noite , acompanhada ou não -
pois ao fim e ao cabo achava , digamos ,
saudável manter uma vida real-objetiva 
enquanto ele continuava a acontecer dentro
de si , noutro espaço .

( ...)

Então  voltava a deitar em horas absurdas 
e a dormir para tentar encontrá-lo  no país 
onde habitava , e nem sabia que reino mais ,
tão diverso do dela .
Todas  as  noites , um segundo antes de afundar ,
pensava - onde quer que você esteja , meu príncipe ,
em qualquer região da minha mente , no mínimo 
interstício , na fímbria do pensamento , frincha da 
memória , dobra da fantasia , faixa vibratória 
passada  presente  futura , aqui vou eu ao seu encontro,
meu bem amado . E nada . Mesmo que alimentasse
o hábito de materializar anjos e fadas sentados 
à beira  de sua cama , a perguntarem gentis 
o que desejava mais profunda e loucamente  entre
todas as coisas da vida inteira , o que mais queria 
de tudo que existe  no universo infinito -,
 nunca mais voltou  a vê-lo .
Nem  no  sonho . Nem na vida .

(...)

Talvez  se  morresse .
 O problema  é que a vida era agora e aqui .
E além de não  estar nem no aqui 
nem no agora , ele não partia .
Não  se matou . Não seria capaz , resistia
sempre  a ilusão de encontrá-lo  um dia .
Por isso houve  outros , claro .
Algumas  iluminações , encontros  quase agradáveis .  
Mas  aprendeu a ir dormir sempre o mais cedo
que pode , pois é nessa faixa que ele habita , ela sabe
a contemplá-la mesmo de olhos fechados .
E de tudo que foi restando nestes anos todos ,
continua sabendo que sabe que fica lá o lugar 
onde  poderia encontrá-lo  outra  vez .

( ...)
Arfam levemente os dois .
 Ela dorme segura protegida  no ombro dele
que a protege seguro . Mesmo dormindo ,
mesmo do lado de cá . E  isso é para sempre ,
por mais que o tempo passe e a afaste cada vez
mais dele , que continua eterno naquele segundo
que o viu .
E isso ninguém roubará , repete-se ,
 mesmo levando em conta todos aqueles meses 
de enganos vis que continuam e continuarão a vir
depois daquele sonho .
Eu  te  amo , repete sozinha  para o escuro 
da noite , pouco antes de seu corpo dissolver-se 
na espuma do sono , eu te amo .
E se pudessem saber , os  outros , 
todos saberiam que isso não deixa de ser 
uma vitória . Certa espécie de vitória .
Mas tão dúbia que parece também
 uma completa  derrota ."

Caio Fernando Abreu 
in , " O essencial da década de 1990 "

Som   na  caixa ...


sexta-feira, 7 de março de 2014

CARTA DE CAIO FERNANDO ABREU

Victor  Bregeda 

Escrever  era  algo fundamental para
 Caio Fernando Abreu .
Ele  dizia que se expressava  melhor  " por escrito" ,
 por isso escreveu  tantas  e tão belas  cartas .
Aqui , coloco alguns trechos de uma carta  que ele enviou
ao amigo jornalista  José Márcio Penido , em 1979 .
Nela , estimula o amigo a escrever , fala do processo
de criação e de sua admiração por Clarice Lispector .


"   Porto , 22 de dezembro de  1979

 Zézim ,

cheguei  hoje  de tardezinha  da praia , fiquei lá 
uns  cinco dias , completamente só ( ótimo !),
e encontrei  tua carta .
( ...)
Das poucas  linhas  da  tua carta , 12 frases 
 terminam  com ponto de interrogação .
 São , portanto , perguntas .
( ...)
Você  quer  escrever .
 Certo , mas você quer escrever ?
Ou  todo mundo  te  cobra  e você acha que tem 
que escrever ? 
( ...)
Isolando as cobranças  você continua querendo ?
Então vai , remexe fundo , como diz um poeta
gaúcho  Gabriel  de Britto Velho ,
" apaga o cigarro no peito / diz pra ti 
o que não gostas de ouvir /diz tudo ".
Isso é escrever .
 Tira  sangue com as unhas .
E não importa  a forma .
Mas tem que sangrar    a- bun-dan-te-men-te .
Você  não está com medo desta entrega ?
Porque dó , dói , dói .
É de uma solidão assustadora .
( ...)
Eu conheci razoavelmente  bem Clarice Lispector .
Ela era infelicíssima, Zézim .
A primeira vez que conversamos  eu chorei
depois a noite inteira , porque ela inteirinha
me doía, porque parecia se doer também ,
de tanta compreensão  sangrada  de tudo .
Te  falo nela porque Clarice , pra mim ,
é o que mais conheço de GRANDIOSO , 
literariamente  falando .
Ela se entregou  completamente  ao
seu trabalho de criar .
Mergulhou na sua própria   trip  e foi
inventando caminhos  na maior solidão .
Como Joyce . Como Kafka , louco e só
em Praga . Como Van Gogh .
 Como Artaud,ou  Rimbaud .
É  esse  tipo de criador que você quer ser ?
Então  entregue-se  e pague o preço
do pato . Que , frequentemente , é 
muito  caro .
( ...)
Zézim , remexa  na memória , na infância , 
nos sonhos , no poço sem fundo do inconsciente :
é  lá que esta o seu texto .
Sobretudo , não se angustie  procurando-o :
ele vem até você ,
 quando você e ele estiverem prontos .
Cada um tem seus processos , 
você precisa  entender os seus .
( ...)
E  ler , ler é alimento de quem escreve .
Várias vezes  você me disse que não
conseguia mais ler .
Que não gostava mais de ler .
Senão gosta de ler ,
como vai gostar de escrever ?
Ou escreva  então para destruir o texto 
( ...)
Quanto  a  mim , te falava desses dias na praia .
Pois olha , acordava às seis , sete da manhã ,
ia  pra praia , corria uns quatro quilômetros,
fazia exercícios, lá pelas dez voltava , 
ia cozinhar  meu arroz . Comia , descansava 
um pouco , depois  sentava e escrevia .
Ficava  exausto . Fiquei exausto .
Passei os dias falando sozinho , mergulhado 
num texto, consegui arrancá-lo .
Era  um farrapo que tinha nascido em setembro ,
em Sampa . Aí , nasceu , sem que eu planejasse .
Estava  pronto  na minha cabeça .
Chama-se  Morangos Mofados ,
vai  levar  uma epígrafe de
 Lennon& McCartney, tô aqui com a letra 
de Strawberry fields  forever  pra traduzir .
Zézim , eu acho que tá tão bom .
( ...)
Quando  terminei Morangos Mofados ,
escrevi em baixo , sem querer ,
"criação é coisa  sagrada ."
Zézim , me dê notícias , muitas ,
e rápido .
E te cuida , por favor , te cuida bem .
Qualquer poço  mais escuro ,
disque 0512-33-41-97.
Eu  posso  pelo menos  ouvir .
Não leve a mal alguma dureza  dita.
É porque  te quero claro .
Citando Guilherme Arantes , pra terminar :
" Eu quero te ver com saúde / 
sempre de bom humor / e de boa vontade ."
Um  beijo do Caio  "


in , Morangos  Mofados 

Som   na  caixa ...

.







domingo, 29 de dezembro de 2013

VEM , 2014 !

photo  by Rarinda Prakarsa 

" Eu quero 
um punhado de estrelas maduras 
eu quero 
a doçura do verbo viver ."

Caio  Fernando Abreu 

Um  Novo Ano com muita Saúde , Alegria e Paz .

Beijos  a todos 

Som  na  caixa ...



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

FRAGMENTOS DE CAIO FERNANDO ABREU

Nick  Helbing
 
" Quando teu pensamento me chamou  foi bonito ."
 
 
" Sem platonismos , nem zen-budismos : quero
que pinte o amor-Bethânia , dançar de rosto colado ,
pegar  na mão , à meia-luz , desenhar com a ponta
dos dedos  cada  um dos teus traços , ficar de olho
molhado só de te ver , de repente , e, se for preciso ,
também virar  a mesa , dar tapa na cara ,
escândalo na esquina , encher a cara de gim ,
te expulsar de casa  e te pedir pra voltar ."
 
 
" Recito Fernando Pessoa : 
" Tudo  vale a pena/ se a alma não
é pequena " - dez vezes ao dia ,
gasto toneladas de incenso , sacas de sal grosso .
E vamos levando .
Se ficar heavy metal demais , dou o fora ."
 
 
in , " Caio Fernando Abreu de A a Z "  
 
Som  na  caixa ...
 

sábado, 7 de setembro de 2013

CAIO FERNANDO ABREU

Iris  Scott

" Ontem  chorei . Por tudo que  fomos .
Por tudo que não conseguimos ser .
Por tudo que se perdeu .
Por termos nos perdido .
Pelo que queríamos que fosse e que não foi .
Pela renúncia .
Por valores não dados .
Por erros cometidos .
Acertos não comemorados .
Palavras dissipadas .
Versos brancos .
Chorei pela guerra cotidiana .
Pelas tentativas de sobrevivência .
Pelos apelos de paz não atendidos .
Pelo amor  derramado .
Pelo amor ofendido e aprisionado .
Pelo amor perdido .
Pelo respeito empoeirado  em cima da estante .
Pelo carinho esquecido junto
 das cartas  envelhecidas  no  guarda-roupa .
Pelos sonhos desafinados , estremecidos e  adiados .
Pela culpa .Toda culpa .
Minha . Sua .Nossa culpa .
Por tudo que foi e voou . E não volta mais ,
pois que hoje já é outro dia .
Chorei .
Apronto agora meus pés na estrada .
Ponho-me a caminhar  sob sol  e vento .
 Vou ali ser feliz e já volto ."

Som  na  caixa ... 
 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

CARTA ANÔNIMA

JPM/olhares.com
 
"  Tenho  trabalhado tanto , mas penso sempre em você .
Mais  de tardezinha  que de manhã , mais naqueles dias
que parecem poeira  assentada  aos poucos , e com mais
força  enquanto a noite avança .
Não são pensamentos  escuros , embora noturnos .
Tão  transparentes que parecem de vidro , vidro tão
fino que , quando penso mais forte , parece que vai
ficar assim clack ! e quebrar  em cacos , o pensamento
que penso de você . Se não dormisse cedo  nem
estivesse  quase sempre cansado , acho que estes
pensamentos  quase doeriam e fariam clack !
de madrugada  e eu me veria catando  cacos
de vidro entre os lençóis .
 ( ....)
Durmo cedo , nunca quebra .
(...) 
 Boas e bobas , são as coisas todas  que
penso quando penso em você .
 Assim : de repente  ao dobrar uma esquina  dou
de cara com você  que me prega um susto de
mentirinha  como aqueles  que as crianças
pregam nas outras .
(...)
Assim : estou pensando em você  e o telefone
toca  e corta meu pensamento  e do outro lado
do fio  você me diz : estou pensando tanto em você .
( ...)
Tenho trabalhado tanto , por isso mesmo talvez
ando pensando assim em você . Brotam espaços azuis
quando penso . No meu pensamento , você  nunca
me critica  por eu ser um pouco tolo ,
 meio melodramático  , e penso  então tule nuvem
castelo seda perfume brisa turquesa  vime .
(...)
Não tenho tido muito tempo ultimamente  mas
penso  tanto em você que na hora de dormir
vezenquando  até sorrio  e fico passando
 a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e
repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos .
Mas  depois sou eu quem dorme  e sonha ,
sonho com os anjos .  Nuvens , espaços azuis ,
pérolas  no fundo do mar .
Clack ! como se fosse verdade , um beijo ."
 
 
Caio Fernando Abreu ,
in " Pequenas Epifanias "
 
Som  na  caixa ...
 
 

terça-feira, 5 de março de 2013

EXTREMOS DA PAIXÃO

Brita  Seifert 
 
( ...)
 
Andei  pensando  sobre o amor , essa palavra sagrada .
O que mais me deteve , do que pensei , era  assim:
a perda  do  amor é igual à perda  da morte .
Só  que  dói  mais .
Quando  morre  alguém  que você   ama , você  se dói
inteiro(a) - mas  a  morte  é  inevitável , e  portanto  normal .
Quando  você  perde  alguém que você  ama , e  esse  amor -
essa  pessoa - continua  vivo (a) , há  então  uma  morte
anormal .  O NUNCA  MAIS  de não ter  quem se ama
torna-se  tão  irremediável 
 quanto  não  ter  NUNCA  MAIS quem  morreu .
E   dói  mais  fundo - porque  se  poderia ter ,
 já  que  está vivo(a).
Mas  não  se  tem , nem  se  terá , quando  o  fim  do
amor  é : NEVER  .
 
(  ...  )
Andei  pensando  nesses  extremos  da     paixão ,
quando  te  amo tanto e tão  além do meu ego que -
se  você  não  me  ama :  eu  enloqueço , eu me suicido
com  heroína  ou  eu  mato o presidente .
Me   veio  um  fundo desprezo pela minha/nossa dor
mediana , pela minha/nossa rejeição  amorosa 
 desempenhando papéis 
 tipo sou-forte-seguro-essa - sou-mais -eu .
Que   imensa  miséria o grande amor- depois do não ,
depois do fim- reduzir-se  a  duas  ou três  frases frias
ou  sarcásticas . Num  bar qualquer , numa esquina da vida .
Aí  que  dor : que dor sentida e portuguesa  de
Fernando Pessoa - muito mais sábio- que nunca caiu 
 nessas  ciladas .
Pois  como  já  dizia Drummond , "  o amor car(o,a) colega
esse  não  consola  nunca  de  núncaras ".
E  apesar  de  tudo eu penso sim , eu digo sim,
eu quero Sins . "
 
Caio Fernando Abreu,
in " Pequenas  Epifanias "
 
 
Som  na  caixa ...
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Yuri  Kuznetsov
 
" Te  desejo  uma fé enorme  , em qualquer coisa ,
não importa o quê  , como aquela fé que a gente
teve um dia , me deseja também uma coisa bem
bonita , uma coisa qualquer maravilhosa ,
que me faça acreditar em tudo de novo ,
 que nos faça acreditar em tudo outra vez ."
 
 
Caio Fernando Abreu ,
in  " Morangos Mofados "  

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

MAIS UM POUCO DE CAIO FERNANDO ...

Alberto Seveso
 
" Enumero proposições  como :
 a ser  uma pessoa menos banal ,a ser mais forte ,
 mais seguro , mais sereno , mais feliz ,
a navegar  com um mínimo de dor .
Essas  coisas  todas  que decidimos fazer 
 ou nos tornar  quando algo que supúnhamos
grande  acaba , e não há  nada a ser feito  a não ser
continuar  vivendo ."
 
Caio Fernando Abreu ,
in " Os Dragões  não conhecem o Paraíso "

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

CITAÇÃO DE HOJE ...

Francine  Von  Home
 
" Tive  vontade  de  sentar  na calçada  da Rua Augusta
e chorar ,  mas  preferi  entrar  numa  livraria  ,
comprar  um  caderno  lindo  e  anotar  sonhos ."
 
 
Caio  Fernando Abreu
 
 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Momento de queda ...

Christine Peloquin
 
" É porque todos nós temos nosso momento de
queda . E  este  é  o  meu .
No vácuo  de mim  eu  me  despenco .
Porque seria preciso também abdicar  de mim
mesmo  para novamente reconstruir-me .
Tornar  a escolher os gestos , as palavras , em
cada momento decidir   qual dos meus  eus
assumir . Já esfacelei  meu ser , já escolhi  as
porções que me são convenientes , esquecendo
deliberado  as outras .  E são elas -
serão elas ? - que agora se movimentam
 revoltadas , pedindo passagem em gritos
mudos , na ânsia de transcender  limites ,
violentar  fronteiras , arrebentando  para
a manhã de sol . O tremular  da chama
é um aceno , convite para chegar à verdade
última  e íntima de cada coisa ."
 
Caio Fernando Abreu ,
in " O inventário do Ir-remediável "

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

PEDIDO ...

Benjamin  Friess
 
" Sobre  todos  aqueles  que ainda continuam
tentanto ,  Deus , derrama  teu Sol  mais luminoso ."
 
 
Caio Fernando Abreu ,
in " Pequenas Epifanias "