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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

PABLO NERUDA

Lauri Blanc 


"  Talvez não ser é ser quem tu sejas ,
sem que vás cortando  o meio dia 
como uma flor azul , sem que caminhes 
mais tarde pela névoa e os ladrilhos 
sem essa luz que levas na mão 
que talvez outros não verão dourada ,
que talvez ninguém soube que crescia 
como a origem rubra  da rosa ,
sem que sejas  , enfim , sem que viesses 
brusca , incitante , conhecer minha vida ,
aragem de roseira , trigo do vento ,
e  desde então  sou porque tu és ,
e desde então és , sou e somos 
e por amor serei , serás , seremos ."

in , Cem sonetos de Amor ,
LXIX

Som  na  caixa ...

domingo, 5 de janeiro de 2014

ALGUMAS PERGUNTAS ...

La  Sebastiana ( imagem da net )

"  A quién  le puedo preguntar
qué vine  hacer en este mundo ?"

" Y por qué  el sol  es tan simpático 
en el jardín  del hospital ?"

" Fue adonde a mí  me perdieron 
que logré por fin encontrarme ? "

" No será  nuestra vida  un túnel 
entre dos vagas claridades ?"

" Sufre más el que espera siempre 
que aquel que nunca esperó  a nadie ? "

" Dónde  termina el arco iris ,
en tu alma o en el horizonte ? "      

Pablo Neruda 
in , " Libro de las preguntas "

A página de hoje , a primeira de 2014 ,
é para um grande e querido amigo ,
José Kalick .
Infelizmente , para nós: família ,  amigos ,
colegas de trabalho , onde também me incluo  ,
ele perdeu a guerra que travava para viver ,
nas vésperas do último Natal .
Homem cultíssimo . Leitor voraz .
Gostava de poesia e Neruda  era por ele citado 
amiúde .
Quando estive em Valparaíso   visitando 
a última  das casas do poeta , La Sebastiana ,
trouxe  para ele  , da lojinha de lá , o 
" Libro de las preguntas " que ainda não havia
sido publicado no Brasil .
Ficou contente .
Meses depois , várias das mais de cem perguntas
contidas no livro  faziam parte de seu extenso
vocabulário .
Ele nos fará muita  falta .
O que nos conforta é acreditar que um dia
estaremos todos juntos novamente . 
                 
Som  na  caixa ...


quinta-feira, 18 de abril de 2013

POEMA DE HOJE ...

Phillipe  Loubat
 
" Talvez  não ser ,
é ser quem tu sejas ,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul ,
sem que caminhes mais tarde ,
pela névoa e pelos tijolos ,
sem que esta luz que levas na mão
que , talvez , outros não verão dourada ,
que talvez ninguém
soube que crescia  
como a origem vermelha da rosa ,
sem que sejas , enfim ,
sem que viesses brusca , incitante ,
conhecer  a minha vida ,
rajada de roseira ,
trigo do vento ,
 
E desde então , sou porque tu és
E desde então és
sou e somos ...
E por amor
Serei ...Serás ...Seremos ..."
 
Pablo  Neruda
in , " Cem Sonetos de Amor "

                                                                     Som  na  caixa ...
                                                                      
                                                                      

sábado, 8 de setembro de 2012

CONFISSÕES DE NERUDA

 
" MATILDE  URRUTIA , MINHA MULHER
 
Minha  mulher é da província como eu .
Nasceu  numa  cidade  do  Sul , Chillán ,
 famosa de maneira feliz 
 por sua cerâmica  camponesa
e de maneira desgraçada
 pelos seus terríveis terremotos .
Ao  falar-lhe ,
 disse  tudo  em meus CEM SONETOS DE AMOR.
Talvez  estes  versos definam o que ela significa para  mim .
A terra e a vida nos reuniram .
Ainda que isto não interesse a ninguém ,
somos felizes .
( ... )
Matilde  canta  com  voz  poderosa  as minhas canções .
Dedico-lhe  tudo que escrevo  e tudo que tenho .
Não é muito , mas ela está contente .
Diviso-a  agora  como afunda os sapatos minúsculos
no barro do jardim e depois também afunda suas mãos
minúsculas  na profundidade da planta .
Da  terra , com pés e mãos e olhos e voz ,
 trouxe para mim todas as raízes , todas as flores ,
todos os frutos fragrantes de felicidade "
 
Pablo Neruda ,
in "  CONFESSO  QUE  VIVI " 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Versos de hoje ...

 
" Hoje  é  hoje  com  o  peso  de  todo o tempo ido ,
com  as  asas de tudo o que será amanhã ,
hoje é o Sul do mar , a velha idade da água
e a composição de um novo dia ."
 
 
Pablo Neruda , no soneto LXXVII , dos
" Cem  Sonetos de Amor "

domingo, 27 de maio de 2012

PABLO NERUDA


" Tu  eras  também  uma pequena  folha

que  tremia  no  meu  peito .

O  vento  da  vida  pôs-te  ali .

A  princípio  não  te  vi : não   soube

que  ias  comigo ,

até  que   tuas  raízes

atravessaram   o  meu  peito ,

se  uniram  aos  fios  do  meu  sangue  ,

falaram  pela   minha  boca  ,

floresceram  comigo . "
                     

domingo, 22 de abril de 2012

Pablo Neruda



" Meu primeiro livro !

Sempre sustentei que a tarefa do escritor não

é misteriosa nem mágica , mas que , pelo menos

a do poeta , é uma tarefa pessoal , de benefício

público . O que mais se parece com a poesia é

um pão ou um prato de cerâmica ou uma madeira

delicadamente lavrada , ainda que por mãos

rudes . No entanto creio que nenhum artesão

pode ter , como o poeta tem , por uma única

vez durante a vida , esta sensação embriagadora

do primeiro objeto criado por suas mãos , com a

desorientação ainda palpitante de seus sonhos .

É um momento que não volta mais .

Virão muitas edições mais cuidadas e belas .

Chegarão suas palavras vertidas na taça de

outros idiomas como um vinho que cante

perfume em outros lugares da terra .

Mas esse minuto em que o primeiro livro sai ,

com tinta fresca e papel novo ,

esse minuto de arrebatamento e embriaguez ,

com som de asas que revoluteiam e

de primeira flor que se abre na altura

conquistada ,esse minuto é único

na vida do poeta ."


in , " Confesso que vivi"

sábado, 31 de março de 2012

O TEU RISO



" Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria."


Pablo Neruda

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A PALAVRA



" ... SIM SENHOR , tudo o que queira ,

mas são as palavras as que cantam,

as que sobem e baixam ...

Prosterno-me diante delas ...

Amo-as , uno-me a elas , persigo-as ,

mordo-as , derreto-as ...

Amo tanto as palavras ...

As inesperadas ...

As que avidamente a gente espera ,

espreita até que de repente caem ...

Vocábulos amados ...

Brilham como pedras coloridas ,

saltam como peixes de prata , são espuma ,

fio , metal , orvalho ...

Persigo algumas palavras ...

São tão belas , que quero colocá-las

todas em meu poema ...

Agarro-as no voo , quando vão zumbindo ,

e capturo-as , limpo-as , aparo-as ,

preparo-me diante do prato , sinto-as

cristalinas , vibrantes , ebúrneas ,

vegetais,oleosas , como frutas ,

como algas , como ágatas ,como azeitonas ...

E então as revolvo , agito-as , bebo-as ,

sugo-as , trituro-as , adorno-as , liberto-as ...

Deixo-as como estalactites em meu poema,

como pedacinhos de madeira polida , como carvão,

como restos de naufrágio , presentes da onda ...

Tudo está na palavra ..."



Pablo Neruda , in " Confesso que vivi "



quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Confissão de Neruda ...



" Muitas vezes me perguntaram quando escrevi

meu primeiro poema , quando nasceu em mim

a poesia .

Tratarei de lembrar .

Muito longe na minha infância e tendo

apenas aprendido a escrever ,senti uma vez uma

intensa emoção e tracei algumas palavras

semirrimadas , mas estranhas a mim ,

diferentes da linguagem diária .

Passei a limpo num papel , preso de uma

ansiedade profunda , de um sentimento até

então desconhecido ,

espécie de angústia e tristeza .

Era um poema dedicado à minha mãe ,

isto é , a que conheci como tal ,

a madrasta angelical ,cuja sombra suave

protegeu toda a minha infância .

Completamente incapaz de julgar minha

primeira produção , levei-a a meus pais .

Eles estavam na sala de jantar , mergulhados

em uma dessas conversas em voz baixa

que dividem mais que um rio o mundo

dos meninos e dos adultos .

Desdobrei o papel com as linhas ,

trêmulo ainda com a primeira

visita da inspiração .

Meu pai , distraidamente ,

tomou-o em suas mãos ,

leu distraidamente e distraidamente

mo devolveu ,dizendo :

- De onde o copiaste ?

E continuou conversando em voz baixa

com minha mãe seus assuntos

importantes e remotos .

Parece-me recordar que assim

nasceu meu primeiro poema e que assim

recebi a primeira mostra distraída

da crítica literária ."



in , " Confesso que vivi "

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Pablo Neruda



" Não estejas longe de mim um só dia ,´porque como,

porque , não sei dizê-lo , é comprido o dia ,

e te estarei esperando como nas estações

quando em alguma parte dormitaram os trens .


Não te vás por uma hora porque então

nessa hora se juntam as gotas do desvelo

e talvez toda a fumaça que anda buscando casa

venha matar ainda meu coração perdido .


Ai que não se quebrante tua silhueta na areia ,

ai que não voem tuas pálpebras na ausência :

não te vás por um minuto , bem-amada ,


porque neste minuto terás ido tão longe

que eu cruzarei toda a terra perguntando

se voltarás ou se me deixarás morrendo ."



XLV dos " Cem Sonetos de Amor "

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Se cada dia cai



" Se cada dia cai ,

dentro de cada noite ,

há um poço

onde a claridade está presa .



há que sentar-se na beira

do poço da sombra

e pescar a luz caída

com paciência ."



Pablo Neruda ,

in " Últimos Poemas"

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Pablo Neruda



" Saberás que não te amo e que te amo

posto que de dois modos é a vida ,

a palavra é uma asa do silêncio ,

o fogo tem uma metade de frio .


Eu te amo para começar a amar-te ,

para recomeçar o infinito

e para não deixar de amar-te nunca :

por isso não te amo todavia .


Te amo e não te amo como se tivesse

em minhas mãos as chaves da fortuna

e um incerto destino desditoso .


Meu amor tem duas vidas para amar-te .

Por isso te amo quando não te amo

e por isso te amo quando te amo ."



XLIV , dos " Cem sonetos de amor "

terça-feira, 5 de julho de 2011

Pablo Neruda



“ De uma mulher que apenas conheci

guardo o nome fechado: é uma caixa

levanto de tarde em tarde as sílabas que tem

ferrugem e rangem como pianos desconjuntados :

vão saindo logo as árvores aquelas , da chuva ,

mais os jasmins e as tranças vitoriosas

de uma mulher sem corpo já , perdida ,

afogada no tempo como num lento lago :

seus olhos se apagaram ali como carvões .”



verso do poema “ Imagem "

quarta-feira, 23 de março de 2011

Perguntas ...



" As lágrimas que não se choram esperam

em pequenos lagos ?

Ou serão rios invisíveis que escorrem

até a tristeza ?"



Pablo Neruda , " Livro das perguntas"

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Neruda



" Quero apenas cinco coisas ...

Primeiro é o amor sem fim

A segunda é ver o outono

A terceira é o grave inverno

Em quarto lugar o verão

A quinta coisa são teus olhos

Não quero dormir sem teus olhos .

Não quero ser ... sem que me olhes .

Abro mão da primavera para que

continues me olhando ."


Pablo Neruda

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Soneto do dia ...



" Não te quero senão porque te quero

e de querer-te a não querer-te chego

e de esperar-te quando não te espero

passa meu coração do frio ao fogo .


Te quero só porque a ti te quero ,

te odeio sem fim , e odianto-te rogo ,

e a medida de meu amor viageiro

é não ver-te e amar-te como um cego .


Talvez consumirá a luz de janeiro

seu raio cruel , meu coração inteiro

roubando-me a chave do sossego .


Nesta história só eu morro

e morrereria de amor porque te quero ,

porque te quero , amor a sangue e fogo ."


Pablo Neruda , in " Cem Sonetos de Amor " , LXVI

domingo, 5 de setembro de 2010

Pablo Neruda , no domingo


" Não te amo como se fosses rosa de sal , topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo :
te amo como se amam certas coisas obscuras ,
secretamente , entre a sombra e a alma .


Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si , oculta , a luz daquelas flores ,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.



Te amo sem saber como , nem quando , nem onde ,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho :
assim te amo porque não sei amar de outra maneira ,


senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho ."


in, " Cem Sonetos de Amor " , XVII

segunda-feira, 7 de junho de 2010

PABLO NERUDA




" Talvez não ser é ser sem que tu sejas ,

sem que vás cortando o meio-dia

como uma flor azul , sem que caminhes

mais tarde pela névoa e os ladrilhos ,




sem essa luz que levas na mão

que talvez outros não verão dourada ,

que talvez ninguém soube que crescia

como a origem rubra da rosa ,



sem que sejas , enfim , sem que viesses

brusca , incitante , conhecer minha vida ,
aragem de roseira , trigo do vento ,


e desde então sou porque tu és ,

e desde então és , sou e somos

e por amor serei , serás , seremos ."




in , (LXIX) , CEM SONETOS DE AMOR