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" Não devia ter-te deixado entrar
assim na minha vida ,
não devia .
Mas não pude .
Entraste em mim num assalto e foi doce resistir .
Agora quero expulsar-te , e não consigo .
Perdi-me em ti , por descuido .
Agora não me encontro sem ti .
De tudo nada ficou como prova :
nem uma linha com a tua caligrafia ,
nem uma fotografia em que estivéssemos
os dois , nem um dos teus lenços favoritos .
Por vezes julgo , enlouquecida ,
que nem sequer exististe .
Fecho os olhos e faço por fixar uma só imagem
na memória , um só movimento curto dos teus braços ,
um sorriso na tua cara , uma única palavra ,
boa ou má , e não consigo .
A imagem escorrega , desfaz-se no centro
ou nos cantos .
Quanto mais tento , mais me escapa .
Volto atrás e recomeço .
O que me vem não é o mesmo .
Não quero abrir os olhos para não ter
que não te encontrar .
(...)
Telefono-te e tu não atendes . Sei que estás lá .
Sei ainda que sabes que sou eu .
E não atendes .
Telefono a meio da noite para te acordar ,
para te obrigar a pensar em mim .
(...)
Deixaste-me de uma maneira tão cobarde .
Na véspera , depois de uma discussão horrível ,
voltaste a prometer-me tudo .
Sabia que mentias .
( ...)
Quando voltei soube que tinhas dito a verdade
quando repetias que não me merecias .
Sobre a cama um postal com uma frase
escrita à máquina :
" Fica querida com um beijo que não passe ."
Só te vou perdoar quando te esquecer .
( ...)
Onde estiveres não penses em mim .
Deixa-me de todas as maneiras,
as mais subtis .
Tem muito cuidado com os cigarros ,
sobretudo não adormeças a fumar .
Sinto uma paz grande que me vem
pouco a pouco agarrar .
Estou cansada .
Vou dormir e quando acordar
tu já não existirás em sítio algum
dentro de mim .
Juro ."
Pedro Paixão
in , " A Noiva Judia "
Som na caixa ...




