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sábado, 19 de maio de 2012

TÃO BONITO ...



"  Compreendi  esta  manhã  que  estou  a  deixar
para  trás a  juventude .
Foi  depois  que o meu pai telefonou , e  eu
me  olhei  no  espelho  e vi  o  rosto  de Filipa .

( ...)

Olhei-me , pois , ao espelho  e  ali  estava  minha  mãe ,
de  olhos bem  abertos , sorrindo  para  mim .
Fui   ao  quarto  dela  e abri   o  armário .
Tudo   permanecia  exatamente  como  há  cinco  anos ,
antes  do  desastre , os  vestidos  alegres ,  os lenços
de  caxemira , os chapéus  magnifícos , os casaquinhos 
em  croché .

( ...)
A  minha  mãe  era  um  ser  livre . 
 Uma  ave  à  solta  num  alto  céu  de  verão .
Costuma  dizer  que  os   homens  são  como  as  chuvas,
imprescindíveis  à  vida , revigorantes ,  mas  quando chegam ,
e  em  se  demorando um  pouco  mais , logo  sentimos  saudades
de  um  dia  de  sol .

( ...)

Se  fôsse  viva  Filipa  faria  hoje  55 anos .
Tenho  saudade  de  minha  mãe . Converso  com  ela
todos  os  dias  mas  não sei   se  me  ouve .

( ...)

Filipa  gostava  de  viajar . Viajou  a  vida  inteira .
Nunca  sabíamos  onde  estava .  Chegava  de  surpresa ,
abria  as  malas  e  punha-se  a  tirar  de  lá  de  dentro ,
como  um  mágico  dos abismos  insondáveis  da
sua  cartola , toda  a  sorte  de  prodígios .

( ...)

Gosto  de  pensar  que  Filipa  viajou .
Um  dia  voltará  com  as  suas  malas  enormes ,
cheias  de  memórias  e  de  maravilhas ,  e  tomaremos
chá  de  menta ,  e  comeremos  torradas ,
  como  antigamente  , enquanto ouvimos  Caetano  Veloso .
Tenho  tanta  coisa para  lhe  contar ."



Faíza  Hayat , in "  o  evangelho  segundo  a  serpente "  

AINDA FAÍZA ...


Arrumando minhas  estantes  achei  o  livro da

escritora portuguesa  Faíza  Hayat ,

"  o   evangelho  segundo  a  serpente " ,  e ,  ao abrí-lo ,

novamente , detive-me  no prefácio de Mia Couto :

"  Encontrei  Faíza  num  lugar  de desencontros :

na  cabine  de  um  avião . Viajávamos  ambos  de

 Maputo para  a  Ilha de Moçambique .

  Eu  seguia numa  das minhas 

 expedições  biológicas  cujo  fim  era  coletar

búzios , raízes , amostras de  fauna .

Ela  ia  coletar pedaços  da  sua  própria  vida ,

procurando por  vozes , ecos  de  uma  existência

infinitamente  repartida  e hibridizada .

Quando  o  avião  levantou ,  a sua mão  procurou 

o  meu  braço e  cravou  as  unhas  para  vencer

 o  medo de  voar .

Depois  , quando  narrou  partes  de  sua  história ,

fui  eu  que  levantei  vôos   a ponto  de  lhe

dizer  : " Você  devia  escrever  isto. "

Ela  sorriu  e  a  malícia  desse  riso  triste

me  fez  suspeitar  que  ela  fosse  escritora . 

A  meio  da  viagem  me  dei  conta :  Faíza Hayat

estava  desviando  o  avião .

 As  histórias  que  me  contava  faziam-me  voar

em  outra  direção ,  para  outros  encantados

destinos .  O  meu  destino  não  era  mais  a ilha .

Viajava , sim ,  pelos  relatos  de uma  mulher

extraordinária , repartida  entre  Goa ,  a  Europa

e  África ,  uma  costureira  de  lembranças  e  de

identidades ." 

FAÍZA HAYAT


( ...)

"  Os  bons  nadadores  distinguem-se  dos  principiantes

porque  enquanto  estes  últimos  espancam  a  água  ,

com assustado  furor ,  os  primeiros  fluem 

 elegantemente através  dela .

Os  principiantes  olham  para  a  água  como  um 

inimigo  perigoso . Têm  de  a  vencer - ou  morrem .

Nadar  , para  eles , confunde-se  com  lutar .

Um  bom  nadador , pelo  contrário ,  sabe  que

o  corpo  humano  é  composto  sobretudo por  água ,

e, assim , mergulha  nela  como   em  si  mesmo .

Nadar  torna-se  nesta  perspectiva  um  exercício

de  dissolução . Ao  pouco   que  em  nós  não   é  água

poderíamos  chamar  atrito .

O  bom nadador procura , ao   nadar , libertar-se

do  atrito .  Os  monges  budistas  têm  um  nome

para  este  estado  ideal -  nirvana .

Estou  ainda  longe de  poder  almejar  o nirvana .

Já  me  sentiria  feliz ,  confesso , se  conseguisse

sair   da  água  com  alguns  gramas a  menos

de  atrito .  

Medito  muito  enquanto  nado , isso  sim .

Nado  para  melhor  pensar ."



in , " o  evangelho   segundo  a  serpente " 




 

domingo, 12 de dezembro de 2010

Faíza Hayat



( ...)

" Estou hoje melancólica , bem sei .

Mas reparem , repara tu também , Filipa ,

onde quer que estejas , que assim como

há sol na palavra solidão , há mel na

palavra melancolia . Tanto mel .

Os homens , minha querida mãe , ao menos

aqueles que tenho conhecido , não cultivam

a memória .


Ao contrário , exercitam o esquecimento .

Há vantagens nisso , sabes ?

Os homens sempre me pareceram muito menos

rancorosos do que as mulheres .

O rancor exige uma boa memória .

Um homem que nunca sabe onde guardou a chave

de casa , os óculos , ou o telemóvel , e são quase todos ,


deve ter também alguma dificuldade em

guardar rancores .

Acho que é por isso que , de uma forma geral ,


os homens envelhecem menos rapidamente

do que nós .

O rancor provoca rugas .

Tira brilho ao cabelo.

Torna as unhas quebradiças .

A longo prazo mata .

Devíamos periodicamente recorrer

a uma espécie de cerimônia do

olvido, como quem vai à sauna ,

para limpar a alma das lembranças más .

O amor e o rancor são difíceis de

conciliar . Guardar ambos no coração

e esperar que tal acordo resulte é

como encerrar numa mesma jaula um leão

e um cordeiro , e esperar que o cordeiro

se submeta ao leão ."


Faíza Hayat , in " o evangelho segundo a serpente "

quinta-feira, 27 de maio de 2010

FAÍZA HAYAT




" ( ...) Medito muito enquanto nado .

Nado para melhor pensar .

Foi desta forma , nadando , que esta manhã

descobri a semelhança entre os livros e os homens .

Há livros que compro apenas porque me agrada a

arte gráfica e a qualidade do papel , mesmo sabendo ,

evidentemente , que o importante é o texto .

O texto pode ser fixado em vários tipos de suporte ,

em pedra , em papel , em fita magnética ou no

disco rígido de um computador .

O texto é , enfim , a alma de um livro .

Da mesma forma , há homens que seduzem

pelo esplendor da capa , a elegância

da tipografia - e depois o texto não corresponde .

São maus romances bem encadernados .

Outros , pelo contrário , tiveram pouca sorte

com a editora , quase não reparamos neles ,

e depois surpreendem-nos com a qualidade do texto ,

a originalidade do enredo , o vigor das metáforas ."

in , " O evangelho segundo a serpente ."