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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

CENTENÁRIO DE CLARICE LISPECTOR


Hoje , 10 de dezembro , se a grande  e sensível 
escritora estivesse viva completaria 100 anos .
Parabéns !

Partilho com vocês  a crônica " Doar  a si próprio " ,
contida num dos  meus preferidos livros dela , 
" A Descoberta  do Mundo ".

"  Tenho lidado  com problemas de enxerto de pele ,
fiquei sabendo  que um banco de doação de pele não é 
viável , pois esta sendo alheia , não adere por muito tempo
à pele do enxertado .
É necessário que a pele do paciente  seja tirada de outra
parte  de seu corpo , e em seguida  enxertada  no lugar
necessário . Isto quer dizer que no enxerto  há uma
doação de si para si mesmo .
Esse caso me fez devanear um pouco sobre o número
de outros  em que a própria pessoa tem que doar a
si própria . O que traz  solidão , e riqueza e luta .
Cheguei a pensar na bondade que é tipicamente  o 
que se quer receber dos outros - e no entanto  às vezes
só a bondade que doamos a nós mesmos  nos livra
da culpa e nos perdoa .
E  é também, por exemplo ,  inútil receber a aceitação
dos outros , enquanto nós mesmos  não nos doarmos
a auto aceitação  do que somos .
Quanto à nossa fraqueza , a parte mais forte nossa
é que tem de nos doar ânimo e complacência .
E há certas dores  que só a nossa própria dor ,
se for aprofundada ,  paradoxalmente  chega a amenizar .
No amor felizmente  a riqueza está na doação mútua .
O que não  significa que não haja  luta : 
é preciso se doar o direito de receber amor .
Mas lutar é bom .
Há dificuldades que só por serem dificuldades 
já esquentam o nosso sangue , que este felizmente 
pode ser doado .
Lembrei-me de outra doação a si mesmo :
o da criação  artística . Pois em primeiro lugar 
por assim dizer tenta-se tirar a  própria pele 
para enxertá-la onde é necessário .
Só depois de pegado o enxerto  é que  vem 
a doação aos outros .
Ou é tudo já misturado , não sei bem ,  a criação 
artística  é um mistério que me escapa , felizmente .
Não quero saber muito ." 

Som na Caixa ...



 

 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

CLARICE , mais uma vez

Jean Paul Avisse 

Benjamin Moser , na sua obra " CLARICE ," 
nos conta : 
À medida que se aproximava do
fim da vida , suas lembranças de um tempo
mais feliz , a infância , assomavam à consciência 
com crescente insistência . 
Num esboço de  Água Viva  ela escreveu : 
" Estou agora na corda bamba por não estar
escrevendo direito .
 É porque estou escondendo uma coisa .
 Contarei : comprei uma boneca para  mim .
Para dormir comigo .
Não tenho senão um pouco de vergonha .
Mas em menina eu queria tanto uma
boneca bonita . 
Só tinha aquelas  pequenas e feitas
de trapos. 
Recheadas de macela ou palha .
Eu tinha tanto amor para dar .
E agora meu amor foi tão grande 
que se tornou compulsivo .
Ela é linda .
Já a beijei e abracei .
Durmo agarrada com ela .
Eu animo os objetos .
Ela fecha os olhos azuis quando fica
em estado horizontal .
Só não herdou meus cabelos  que são
macios de fazer aflição : os dela são
brilhantes e ásperos .
Chama-se Laura .
E estou tendo menina -
pois só tive filho homem .
É tão doce .
Dei agora Laura para uma menina pobre 
porque queria ver uma menina feliz . "

In , " CLARICE , " , páginas 477-478

Som  na  caixa ...

quinta-feira, 7 de maio de 2020

MAIO ...

Lauri Blank 

Nestes tempos de quarentena tenho feito várias
releituras e uma delas  sobre Clarice Lispector ,
 no livro " Clarice , " de Benjamin  Moser . 
Lembrei-me então , que no próximo dia 10 de
maio este blog  completará  10 anos , e que na
primeira publicação   a escrita de Clarice  estava
presente . 
Assim , republico suas palavras e aproveito
para desejar a todas as mães  que terão ,
 no próximo domingo seu dia  comemorado ,
 saúde , amor , paz e fé em dias melhores .
Beijo e abraço cada um de vocês , 
queridos amigos .

" Há três coisas para as quais eu nasci 
e para as quais eu  dou  minha vida .
Nasci para amar  os outros , nasci para
escrever e nasci para criar meus filhos .
O " amar os outros " é tão vasto que
inclui até  perdão para mim mesma ,
com o que sobra .
As três coisas são tão importantes 
que minha vida é curta para tanto .
Tenho que me apressar , o tempo urge .
Não posso perder um minuto do 
tempo que faz minha vida .
Amar os outros é a única salvação
individual que conheço : 
ninguém estará perdido  se  der amor 
e às vezes receber amor em troca . "

Clarice Lispector 
na crônica " As três experiências " 

Som  na  caixa ...


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

99 º ANIVERSÁRIO DE CLARICE LISPECTOR


Neste aniversário de Clarice partilho  com vocês
o belíssimo  final  do romance Água Viva .
Livro que  é  considerado por  alguns  críticos
 como um " denso  e fluente poema  em prosa . " 

 ... 

" E eis que depois de uma tarde  de " quem sou eu "?
e de acordar à uma hora da madrugada 
ainda em desespero - eis que às três horas da madrugada 
acordei e me encontrei . Fui ao encontro de mim .
Calma , alegre , plenitude sem fulminação .
Simplesmente eu sou eu . E você é você .
É vasto , vai durar .
O que te escrevo é um " isto ".
Não vai parar  : continua . 
Olha para mim e me ama .
Não : tu olhas para ti e te amas .
É o que está certo .
O que te escrevo continua e estou enfeitiçada . "

in , Água  Viva "

Som  na  caixa ...


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

98º ANIVERSÁRIO DE CLARICE LISPECTOR

Barbara Issa Wagnerovà 

" Minhas  queridas ,
( ...)

Cheguei mesmo à conclusão de que escrever 
é a coisa que mais desejo no mundo , mesmo
mais que amor .

( ...)

Durante um só dia tudo fica claro e tudo fica escuro
e de novo tudo claro . O que é preciso é não ir demais 
contra a onda . A gente faz como quando toma banho 
de mar : procura  subir e descer com a onda .
Isso é uma forma de lutar : esperar , ter paciência ,
perdoar , amar os outros .
E cada dia aperfeiçoar o dia . 

( ...) 

Farei o possível para não amar demais as pessoas ,
sobretudo por causa das pessoas. Às vezes  o amor 
que se dá pesa , quase como responsabilidade  na
pessoa que o recebe .Eu tenho esta tendência geral
 para exagerar ,e resolvi  tentar não exigir
 dos outros senão o mínimo . É uma forma de paz . 

( ...)

Queridas , que a paz esteja convosco .
Essas palavras mágicas que dão alguma coisa .
Que a paz esteja convosco , a saúde , a serenidade,
a alegria . E meu amor também .
Até breve , escrevam sempre . "  


excertos de cartas que Clarice enviava às irmãs ,
quando morava no exterior , contidos no livro ,
" O TEMPO " 

Som  na  caixa ...

domingo, 10 de dezembro de 2017

97 º ANIVERSÁRIO DE CLARICE LISPECTOR

Duy Huynh

" Sendo este um jornal por excelência , e
por excelência dos precisa-se  e oferece-se ,
vou pôr um anúncio em negrito :
precisa-se  de alguém  homem ou mulher 
que ajude uma pessoa a ficar contente porque 
esta está tão contente que não pode ficar sozinha
com a alegria , e precisa reparti-la .
Paga-se extraordinariamente  bem :
minuto por minuto paga-se com a própria
alegria . É urgente pois a alegria dessa pessoa 
é fugaz como estrelas cadentes , que  até parece
que só se as viu depois que tombaram ;
precisa-se urgente antes da noite cair porque 
a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é 
possível e fica tarde demais . Essa pessoa que 
atende ao anúncio só tem folga depois que passa 
o horror do domingo que fere . Não faz mal que
venha uma pessoa triste porque a alegria que se
dá é tão grande que se tem que a repartir antes
que se transforme em drama . Implora-se também 
que venha , implora-se com a humildade da 
alegria -sem- motivo .
 Em troca oferece-se também uma casa 
 com todas as luzes acesas como numa festa
de bailarinos . Dá-se o direito de dispor da copa e da
cozinha , e da sala de estar.
PS . Não  se precisa de prática . E se pede desculpa
por estar num anúncio  a dilacerar os outros .
Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria
até mesmo divina para dar ."

Clarice Lispector , 
 na crônica " Precisa-se  ",
encontrada no livro ,
 " A descoberta do mundo "  .    

Som  na  caixa ...

domingo, 12 de março de 2017

CLARICE LISPECTOR , SEMPRE

Anna  &  Elena  Balbusso 

Leio e releio Clarice .
Assim , partilho com vocês , uma vez mais ,
a crônica  "POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS" ,
contida  no livro  ,
 " A DESCOBERTA DO MUNDO"
que publiquei em outubro de 2014 .

" Havia a levíssima embriaguez  de andarem juntos ,
a alegria  como quando se sente  a garganta  um
pouco seca  e se vê que , por admiração , 
se estava de boca  entreaberta :
eles respiravam de antemão  o ar que estava
à frente  , e ter esta sede  era a própria água deles .
Andavam por ruas  e ruas falando e rindo, 
falavam e riam  para dar matéria e  peso à levíssima
embriaguez  que era a alegria da sede deles .
Por causa  de carros e pessoas , às vezes eles
se tocavam , e ao toque - a sede é a graça ,
mas as águas  são uma beleza de escuras - e ao
toque  brilhava o brilho da água deles , 
a boca ficando um pouco mais seca de admiração .
Como eles admiravam estarem juntos !
Até que tudo se transformou  em não .
Tudo se transformou em não quando eles quiseram
a mesma alegria deles .
Então a grande dança dos erros .
O cerimonial das palavras desconcertadas .
Ele procurava e não via, ela não via 
que ele não vira , ela que ,
estava ali , no entanto .
No entanto ele que estava ali .
Tudo errou , e havia a grande poeira das ruas ,
e quanto mais erravam , mais com aspereza queriam ,
sem um sorriso .
Tudo só porque  tinham prestado atenção ,
só porque  não  estavam bastante distraídos .
Só porque , de súbito exigentes e duros  ,
quiseram ter o que já tinham .
Tudo porque quiseram dar um nome ;
porque quiseram ser , eles que já eram .
Foram então aprender que , 
não se estando distraído ,
o telefone não toca ,
e é preciso sair de casa 
para que a carta chegue ,
e quando o telefone toca ,
o deserto da espera já cortou os fios .
Tudo , tudo por não estarem mais distraídos ."

Clarice Lispector 

Som  na  caixa ...
 
  

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

95º ANIVERSÁRIO DE CLARICE LISPECTOR

Cristine  Peloquin

" Quem  já conheceu o estado de graça  reconhecerá 
o que vou dizer . 
Não me refiro à inspiração , que é uma graça especial
que tantas vezes acontece  aos que lidam com arte .
O estado de graça de que falo não é usado para nada .
É como se viesse apenas para que se soubesse que
realmente existe .
Nesse estado , além da tranquila felicidade que se irradia
de pessoas  e coisas , há  uma lucidez  que só chamo de
leve  porque na graça tudo é tão , tão  leve .
É uma lucidez de quem não adivinha mais :
sem esforço , sabe . Apenas isto : sabe .
Não perguntem o que , porque só posso responder 
do mesmo modo infantil : sem esforço , sabe-se .
E há uma bem aventurança  física que a nada se compara .
O corpo se transforma num dom .
E se sente que é um dom  porque se está experimentando,
numa forma direta a dádiva  indubitável
 de existir  materialmente .
No estado de graça  vê-se às vezes  a profunda beleza,
antes inatingível , de outra pessoa .
Tudo , aliás , ganha uma espécie de nimbo que não é
imaginário : vem do esplendor  da irradiação  quase
matemática  das  coisas e das pessoas .
Passa-se  a sentir que tudo  que existe -pessoa ou coisa -
respira e exala  uma espécie de finíssimo resplendor 
de energia .     A verdade do mundo é impalpável .

( ...)

Depois , lentamente  se  sai .

( ...)

Sai-se   do estado de graça  com o rosto liso ,
 os olhos abertos   e pensativos   e , embora 
não se tenha sorrido , é como se o corpo  todo
viesse  de um sorriso  suave .
E sai-se melhor criatura do que se entrou .
Experimentou-se alguma coisa  que parece redimir
a condição humana , embora ao mesmo tempo  fiquem
acentuados  os estreitos limites desta condição .
E exatamente  porque depois da graça  a condição humana
se revela na sua pobreza implorante ,
 aprende-se  a amar mais, a esperar  mais .
Passa-se  a ter uma espécie de confiança  no sofrimento
e em seus caminhos  tantas vezes intoleráveis .
Há dias que são tão áridos e desérticos  que eu daria
anos de minha vida  em troca de uns minutos de graça ."

Clarice Lispector ,
na crônica " Estado de graça ".

Som   na  caixa ...

.

sábado, 20 de junho de 2015

CLARICEANDO ...


No  belo livro " O TEMPO"  , encontramos
frases e citações de Clarice Lispector  em parte
de suas obras , " Minhas queridas , Cartas perto
do Coração / Fernando Sabino , Clarice na cabeceira ,
Laços de família , Felicidade clandestina , O Lustre ,
A cidade sitiada , A maçã  no escuro ."
 O Tempo  dá prosseguimento ao volume 
" As Palavras " , livro de semelhante natureza ,
 abrangendo  as demais obras de Clarice .
A curadoria  é de Roberto Corrêa dos Santos ,
semiólogo , teórico de arte , escritor e artista visual .
Cortar  por amor como ato de leitura , disse o curador ,
a norteá-lo , mantendo-se leal  à delicadeza de alma 
 que Clarice firma  em sua diferida  e ardente escritura . 

Partilho com vocês  alguns excertos . 

Minhas  Queridas   

" Cheguei mesmo à conclusão  de que escrever 
é a coisa  que mais desejo no mundo , mais que amor ."

" Não posso ver um cão na rua , nem gosto de olhar .
Você não sabe que revelação foi para mim ter um cão ,
ver e sentir a matéria de que é feito um cão .
É a coisa mais doce que eu já vi , o cão é de uma
paciência  para com a natureza impotente dele
 e para com a natureza incompreensível dos outros ."

" Farei o possível  para não amar demais as pessoas ,
sobretudo por causa das pessoas . Às vezes o amor 
que se dá pesa , quase como responsabilidade  na
pessoa que o recebe . Eu tenho essa tendência geral
para exagerar , e resolvi tentar não exigir dos outros
senão o mínimo . É uma forma de ter paz ."



LAÇOS  DE FAMÍLIA  

" Uma  coisa bonita era para se dar  ou para
se receber , não apenas para se ter .
E , sobretudo , nunca para se " ser" .
Sobretudo  nunca se deveria ser a coisa bonita .
A uma coisa bonita faltava o gesto de dar .
Nunca se devia ficar com uma coisa bonita ,
assim , como que guardada  dentro do silêncio 
perfeito do coração ."

FELICIDADE CLANDESTINA 

" Esperança  é coisa secreta e costuma pousar 
diretamente em mim , sem ninguém saber ."

" Uma vez , aliás , agora é que me lembro ,
uma esperança  bem  menor  que esta  pousara
no meu braço .
 Não senti nada , de tão leve que era , 
 foi só visualmente  que tomei consciência de 
sua presença . Encabulei  com a delicadeza .
Eu não mexia o braço e pensei : " e essa agora ?
que devo fazer ?" 
Em verdade nada fiz . 
Fiquei extremamente  quieta como se  uma
flor tivesse nascido em mim ."   


CLARICE NA CABECEIRA - JORNALISMO 

" Abri  as janelas do quarto e olhei  o jardim fresco e 
calmo  aos primeiros fios de sol , tive a certeza 
de que não há mesmo nada a fazer  senão viver ."

" Escrever é saber respirar dentro da frase .
É pôr algum silêncio  tanto nas linhas como
nas entrelinhas para que o leitor possa respirar 
comigo , sem pressa , adaptando-se  não só ao
seu ritmo  como ao meu , numa espécie de
contraponto  indispensável ."

A MAÇÃ  NO ESCURO 

" Um  dos indiretos modos de entender 
é achar bonito . Do lugar onde estou
de pé , a vida é muito bonita .
Entender é um modo de olhar .
Porque entender , aliás , é uma atitude .

O que a gente não entende , se resolve com amor ." 

Som  na  caixa ...


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

94º ANIVERSÁRIO DE CLARICE LISPECTOR



( ...)

"  Para me  refazer  e te refazer  volto ao meu estado
de jardim e sombra , fresca realidade , mal existo e 
se existo  é com delicado cuidado . Em redor da sombra
faz  calor de suor abundante . Estou viva mas sinto que 
ainda não alcancei meus limites , fronteiras com o que ?
Sem fronteiras , a aventura da liberdade perigosa.
Mas  arrisco, vivo  arriscando . 
Estou cheia de acácias balançando amarelas ,
 e eu que mal  e mal comecei 
a minha jornada , começo-a  com um senso de tragédia,
adivinhando  para que oceano perdido vão os meus 
passos de vida . E doidamente me apodero  dos
desvãos de mim , meus desvarios me sufocam de 
tanta beleza .
Eu sou antes , eu sou quase , eu sou nunca .
E tudo isso ganhei ao deixar de te amar ".

Clarice Lispector ,
in " Água Viva "


Som  na  caixa ...



sexta-feira, 3 de outubro de 2014

POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

imagem  da net 

" Havia   a levíssima embriaguez de andarem juntos ,
a alegria como quando  se  sente a garganta um pouco
seca  e se vê  que , por admiração , se estava de boca
entreaberta : eles  respiravam  de antemão  o ar que
estava à frente  , e ter esta sede  era a própria água 
deles . Andavam por ruas  e ruas  falando e rindo ,
falavam e riam para dar matéria  peso à levíssima
embriaguez  que era a alegria  da sede deles .
Por causa de carros e pessoas , às  vezes  eles se tocavam ,
e  ao toque -  a sede  é  a  graça , mas  as  águas  são
uma beleza  de  escuras - e  ao toque  brilhava o 
brilho  da  água  deles , a boca ficando  um pouco
mais  seca  de admiração .
Como  eles admiravam estarem juntos !
Até  que  tudo  se  transformou  em não .
Tudo  se  transformou  em  não  quando eles quiseram 
essa mesma  alegria  deles .
Então  a grande  dança  dos  erros .
O cerimonial das palavras desconcertadas .
Ele  procurava  e  não  via  ,
ela não via  que ele não vira ,
ela  que , estava  ali ,  no entanto .
No  entanto  ele que estava  ali .
Tudo  errou ,  e havia  a grande poeira  das ruas ,
e quanto  mais  erravam , 
mais com aspereza queriam ,  sem  um sorriso .
Tudo só porque tinham prestado atenção ,
só porque não estavam bastante distraídos .
Só  porque , de súbito exigentes  e duros ,
quiseram  ter  o  que  já  tinham .
Tudo porque quiseram dar um  nome ;
porque quiseram  ser , eles que eram .
Foram  então  aprender que , 
não se estando distraído ,
o telefone  não toca ,
 e é preciso sair de casa 
para  que a carta chegue , 
e quando o telefone  finalmente toca ,
o deserto da espera já cortou os fios .
Tudo , tudo por não estarem mais distraídos ."

Clarice Lispector 
in , " A Descoberta do Mundo "

Som  na  caixa ...
 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

93º ANIVERSÁRIO DE CLARICE LISPECTOR

 
" ( ...)
 Olharam-se  sem palavras , desalento contra desalento .
Que foi que se disseram ?
Não se sabe .
 Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente,
pois não havia tempo . 
Sabe-se também que sem falar eles se pediam .
Pediam-se com urgência ,
 com encabulamento , surpreendidos .
Mas  ambos  eram comprometidos .
 Ela  com  sua infância impossível .
 ( ...) Ele com sua natureza aprisionada .
Ela ficou espantada , com o acontecimento nas mãos .
Acompanhou-o com os olhos pretos
que mal acreditavam ,
até  vê-lo  dobrar  a outra  esquina .
Mas  ele foi mais forte que ela .
Nenhuma só vez olhou para trás ."
 
 
Clarice Lispector ,
no conto " Tentação "
 
Som  na  caixa ...

sexta-feira, 5 de julho de 2013

CLARICE LISPECTOR

Tatiana  Deriy
 
" Você  não sabe  que  revelação  foi para mim  ter um cão ,
ver  e  sentir  a  matéria  de que é feito um cão .
É  a  coisa  mais doce que eu já vi , o cão  é de uma
paciência  para  com a natureza impotente  dele  e  para
com a natureza  incompreensível dos outros ...
E com os pequenos  meios que ele tem , com uma
burrice  cheia de doçura , ele  arranja  modo   de
compreender   a gente  de  um  modo  direto ."
 
in ,  "  Minhas  queridas "
 
Som  na  caixa ...
  

quinta-feira, 25 de abril de 2013

CLARICE , SEMPRE ...

Daniel   F Gerhatz
 
" Olhe  para todos ao seu redor  e veja o que
temos feito de nós  e  a  isso considerado
vitória nossa de cada dia  .
Não temos amado , acima de todas as coisas .
Não temos aceito o que não se entende  porque
não queremos passar por tolos .
Temos amontoado coisas e seguranças  por não
nos termos um ao outro .
Não temos nenhuma alegria que não tenha sido
catalogada . Temos construido catedrais ,   e
ficado do lado de fora  pois as catedrais que nós
mesmos construimos , tememos que sejam
armadilhas . Não nos temos entregues
 a nós mesmos  , pois isso seria o começo  de
uma vida larga  e nós a tememos .  
 
Temos  evitado cair de joelhos  diante do
primeiro de nós  que por amor diga :
tens medo .
Temos organizado  associações  e clubes
sorridentes  onde se serve com ou sem soda .
Temos procurado nos salvar mas sem usar
a palavra salvação para não nos
envergonharmos  de ser inocentes .
Não temos usado a palavra amor
 para não termos de reconhecer a sua
contextura de ódio , de amor , de ciúme e
 de tantos outros contraditórios .
Temos mantido em segredo a nossa morte
para tornar a nossa vida possível .
Muitos de nós fazem arte por não saber
como é a outra coisa .
Temos disfarçado com falso amor a
nossa indiferença , sabendo que nossa
indiferença  é angústia disfarçada .
Temos disfarçado com o pequeno medo
 o medo maior  e por isso nunca falamos
o que realmente importa .
Falar do que realmente importa é considerado
uma gafe .
 
Não temos adorado  por termos a sensata
mesquinhez  de nos lembrarmos a tempo
dos falsos deuses .
Não temos sido puros e ingênuos  para não
rirmos de nós mesmos  e que para no fim
do dia possamos dizer  " pelo menos não
fui tolo " e assim não ficarmos perplexos
antes de apagar a luz .
Temos sorrido em público  do que não
sorriríamos  quando ficássemos sozinhos .
Temos chamado de fraqueza  a nossa candura .
Temo-nos temido um ao outro , acima de tudo .
E a tudo isso consideramos
a vitória nossa de cada dia ."
 
Clarice Lispector ,
in " Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres "
 
Som  na  caixa ...
 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Hoje , Clarice

Louis  P
 
"  Sou  o  que  se  chama  de pessoa  impulsiva .
Como  descrever ?  acho  que  assim : vem-me
uma idéia  ou  um  sentimento  e  eu ,  em vez
de refletir  sobre  o  que  me  veio , ajo  quase que
imediatamente . O  resultado tem sido meio a
meio:  às   vezes  acontece  que agi  sob  uma
intuição dessas  que  não  falham , às  vezes
erro  completamente , o que prova que não se
trata de intuição , mas  de simples infantilidade .
Trata-se  de  saber  se  devo prosseguir  nos
meus  impulsos . E  até  que ponto  posso
controlá-los. ( ...)  Deverei continuar  a
acertar  e  a  errar , aceitando  os  resultados
resignadamente ? Ou  devo  lutar  e  me  tornar
uma  pessoa  mais  adulta ?
Eu  também  tenho  medo de tornar-me
adulta  demais :  eu perderia  um dos prazeres
do que é um jogo infantil , do que tantas
vezes  é  uma  alegria pura .
 Vou  pensar  no   assunto .
E  certamente  o  resultado ainda virá
sob a forma de um  impulso .
Não  sou  madura  bastante  ainda .
Ou  nunca  serei. "
 
Clarice  Lispector ,
in " Aprendendo  a Viver "
 
Som  na Caixa ...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

TRANQUILA ALEGRIA

Helene  Beland
 
"  Estou um pouco desnorteada 
 como se um coração  me tivesse sido tirado ,
 e em lugar dele  estivesse  agora  a  súbita ausência ,
uma ausência  quase palpável  do que era antes
 um órgão banhado da escuridão  da  dor .
 Não  estou  sentindo  nada .
Mas  é  o  contrário  de  um  torpor .
 É um  modo mais leve   e mais  silencioso de existir .
Mas  estou  também inquieta .
Eu  estava  organizada para me consolar 
da angústia da dor . 
Mas  como é que me arrumo
  com essa  simples e tranquila alegria .
É  que  não  estou  habituada 
 a não precisar  do  meu próprio consolo ."
 
 
Clarice Lispector , in " Onde Estivestes  de Noite  "