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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

ARROZ DE PALMA

Leandro Lamas 

Já  publiquei neste blog  e  posto novamente ,
excertos de um livro que gosto muito , 
  "   Arroz de Palma " , do escritor
Francisco Azevedo  .
Trata-se da história de uma família portuguesa
que migrou para o Brasil .
Os 100 anos de lembranças são contados 
através da voz de Antonio , o primogênito
de quatro filhos ,  que ao comemorar 
seus 88 anos , prepara um almoço
que será servido à família , reunida após 
muito tempo .
Enquanto combina os ingredientes ,
vão se misturando em sua mente as histórias 
que tia Palma , irmã de seu pai , lhe contava .
Tudo sempre acompanhado pelo arroz jogado 
no casamento dos patriarcas , José Custódio e
Maria Romana ,  em 1908 .


" Família é prato difícil de preparar .
São muitos ingredientes.
Reunir todos é um problema ,
principalmente no Natal e no Ano Novo .
Pouco importa a qualidade da panela ,
fazer uma família exige coragem , 
devoção e  paciência .
Não é pra qualquer um . "

(...)

O tempo põe a mesa , determina
o número de cadeiras e os lugares .
Súbito , feito milagre a família está servida .

( ...)

Não existe família à Oswaldo Aranha ;
Família à Rossini ; 
Família à Belle Meunière :
Família ao Molho Pardo , em que o sangue 
 é fundamental para o preparo da iguaria . 
Família é afinidade é a moda da casa . 
E cada casa gosta  de preparar a 
família a seu jeito .
Há famílias doces .Outras ,  meio amargas .
Outras , apimentadíssimas .
Há também  as que não tem gosto de nada  , 
seria assim  um tipo de Família Dieta ,
que você suporta só para manter a linha .

(...)
O que este  veterano cozinheiro pode dizer 
é que  , por mais sem graça  , por pior que seja
o paladar , família é prato que você tem que 
experimentar  e comer .
Se puder saborear , saboreie.
Não ligue para etiquetas .
Passe o pão naquele molhinho que ficou 
na porcelana . na louça , no alumínio 
ou no barro .
Aproveite ao máximo !
Família é prato que quando se acaba ,
nunca mais se repete . "

( ...)

" Vida é caleidoscópio .
De nada adiante girarmos 
o cilindro devagar .
Tanto cuidado pra que ?
Quando menos esperamos 
os cacos de vidro desabam 
uns nos outros e formam
o imprevisível desenho . "

( ...)     

" Velho é criança  de fôlego  diferente .
Já não lhe interessam as correrias nos jardins ,
o sobe e desce das gangorras ,
o vaivém dos balanços .
É tudo muito pouco .
O que ele quer agora é desembestar no céu ,
soltar os bichos que colecionou a vida  inteira .
Os bichos todos -  domésticos , selvagens ,
úteis e nocivos .
Os pesados répteis que ainda guarda no coração 
e as borboletas , peixes e passarinhos , 
tudo solto lá em cima . "

Som  na  caixa ...



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

ENCONTROS ...

Jeff  Rowland
 
"  Há  encontros  fortuitos  que impressionam ,
mas  se  perdem .
Nunca descobriremos  o motivo da impressão .
Nada  mais  acontece  e esses encontros caem
no esquecimento . Ou ficam apenas emoldurados
naquele  momento como  lembrança  que
instiga  e  pronto .
Outros  encontros , entretanto , viram história
em capítulos , e por isso  o mistério
torna-se  ainda  maior ."
 
 
Francisco Azevedo ,
in " Arroz de Palma "
 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

FAMÍLIA É PRATO DIFÍCIL DE PREPARAR

(...)
 
" Família é prato difícil de preparar.
São muitos ingredientes.
Reunir todos é um problema, principalmente
no Natal e no Ano Novo.
Pouco importa a qualidade da panela,
fazer uma família exige coragem, devoção e paciência.
Não é para qualquer um.
Os truques, os segredos, o imprevisível.
Às vezes, dá até vontade de desistir.
Preferimos o desconforto do estômago vazio.
Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação
sobre o que se vai comer e aquele fastio.
Mas a vida, (azeitona verde no palito)
sempre arruma um jeito de nos entusiasmar
e abrir o apetite.
O tempo põe a mesa, determina o número de
cadeiras e os lugares.
Súbito, feito milagre, a família está servida.
Fulana sai a mais inteligente de todas.
Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão
e comunicativo, unanimidade.
Sicrano, quem diria? Solou, endureceu,
murchou antes do tempo.
Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante.
Aquele o que surpreendeu e foi morar longe.
Ela, a mais apaixonada.
A outra, a mais consistente.
E você? É, você mesmo, que me lê
os pensamentos e veio aqui me fazer companhia.
Como saiu no álbum de retratos?
O mais prático e objetivo? A mais sentimental?
A mais prestativa?
O que nunca quis nada com o trabalho?
Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero
e do grau comparativo.
Reúna essas tantas afinidades e antipatias que
fazem parte da sua vida.
Não há pressa. Eu espero. Já estão aí?
Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua,
a faca mais afiada e tome alguns cuidados.
Logo, logo, você também estará cheirando a
alho e cebola.
Não se envergonhe de chorar.
Família é prato que emociona.
E a gente chora mesmo.
De alegria, de raiva ou de tristeza.
Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor
do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza,
estas especiarias, que quase sempre vêm da África e
do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a
família muito mais colorida, interessante e saborosa.
Atenção também com os pesos e as medidas.
Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto,
é um verdadeiro desastre.
Família é prato extremamente sensível.
Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido.
Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional.
Principalmente na hora que se decide meter a colher.
Saber meter a colher é verdadeira arte.
Uma grande amiga minha desandou a receita de
toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.
O pior é que ainda tem gente que acredita na receita
da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão.
Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini;
Família à Belle Meunière; Família ao Molho Pardo,
em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria.
Família é afinidade, é ?à Moda da Casa?.
E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.
Há famílias doces. Outras, meio amargas.
Outras apimentadíssimas.
Há também as que não têm gosto de nada,
seriam assim um tipo de Família Dieta,
que você suporta só para manter a linha.
Seja como for, família é prato que deve ser servido
sempre quente, quentíssimo.
Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
Enfim, receita de família não se copia, se inventa.
A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e
transmitindo o que sabe no dia a dia.
A gente cata um registro ali,de alguém que sabe e conta,
e outro aqui, que ficou no pedaço de papel.
Muita coisa se perde na lembrança.
Principalmente na cabeça de um velho
já meio caduco como eu.
O que este veterano cozinheiro pode dizer é que,
por mais sem graça, por pior que seja o paladar,
família é prato que você tem que experimentar e comer.
Se puder saborear, saboreie.
Não ligue para etiquetas.
Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana,
na louça, no alumínio ou no barro.
Aproveite ao máximo!
Família é prato que, quando se acaba,
nunca mais se repete."




Francisco Azevedo , in " O Arroz de Palma "



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

VOAR ...

Marc  Chagall
 
"  Sempre quis  voar . Desde  menina.
Não de avião , não de asa-delta ,
 nenhuma dessas geringonças .
Queria  voar por mim mesma .
Abrir a janela  e alçar voo
com o atrevimento  dos pássaros .
Adolescente , ousei ainda mais no sonho .
 Quis , insana idade ! , voar acompanhada .
Imaginei  possível  o  voo de mãos dadas
com alguém- o voo lírico  das figuras de Chagall ,
noivos apaixonados nas alturas .
Lá  onde as roupas não pesam ,
 os sapatos  não pesam , nada pesa .
O  infinito à disposição  da curiosidade dos amantes ! "
 
 
Francisco Azevedo , in " Doce Gabito "  

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

FRANCISCO AZEVEDO

Marc Chagall
 
" Invejar  o  pássaro ? Claro que não .
Prefiro ser como sou . Não tenho asas , mas também
não tenho bico . Bem melhor ter boca para beijar ."
 
 
Francisco Azevedo , in " Doce Gabito " 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

GUARDADOS ...

 
 
imagem  da  " net "
 
" Coleciono  alguns  guardados  preciosos  que ,
quando  eu  morrer , serão jogados fora ,
porque só fazem sentido  para  mim .
A  memória  material  deles  começa e
acaba em mim .
Só  a  mim  eles  emocionam .
Só  eu  lhes  estimo  o  valor .
Mas  algo me  diz  que , em  qualquer  casebre ,
apartamento  ou  mansão ,
 haverá  sempre  uma  caixa  ,pasta 
 ou  gaveta   onde  se  esconde  aquele  papel de
bala - que foi desembrulhada no cinema  ao lado
de quem nos despertava paixão .
Ou  o   desenho  da  família  mal  colorido 
  por  fora ,os bonecos de olhos esbugalhados ,
 cabelos espetados de quem levou
 um choque elétrico  e os garranchos
" eu , papai  e  mamãe ."
Ou  a  rolha  do champanhe  de um Ano-Novo
especial , o convite de formatura da afilhada ,
o ingresso  para aquele musical com o número
da poltrona  03 .
Ou  o  santinho de papel com  a  imagem  de
Nossa  Senhora  de  Fátima 
 e que ninguém  entende
como foi parar  ali , porque o falecido era  ateu .
Fico  cismando :  o que aconteceria  se  nos  fosse
possível   somar  todo  o  amor  que há nessas
mínimas  memórias  guardadas  em  silêncio
nos fundos  das  gavetas  do  mundo ?  "
 
Francisco Azevedo ,
in  " O  Arroz de  Palma "


 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Encontros ...


" Há encontros fortuitos  que  impressionam ,
mas  se  perdem .
Nunca  descobriremos  o  motivo da impressão  .
 Nada  mais acontece e esses
encontros caem no esquecimento .
Ou ficam apenas emoldurados  naquele  momento
como lembrança que instiga e pronto .
Outros encontros , entretanto , viram história 
em capítulos  e ,  por isso o mistério
torna-se  ainda  maior ."


Francisco Azevedo , in "O arroz de Palma "

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Francisco Azevedo nos esclarece:



" Velho é criança de folêgo diferente.

Já não lhe interessam as correrias nos jardins ,

o sobe e desce das gangorras, o vaivém dos

balanços . É tudo muito pouco .

O que ele quer agora é desembestar no céu ,

soltar os bichos que colecionou a vida inteira.

Os bichos todos - domésticos , selvagens ,

úteis e nocivos . Os pesados répteis que ainda

guarda no coração e as borboletas, peixes e

passarinhos , tudo solto lá em cima !"


in, " O Arroz de Palma "

Definição do dia ...



" Vida é caleidoscópio .
De nada adianta girarmos o cilindro devagar .
Tanto cuidado para quê ?
Quando menos esperamos os cacos de vidro desabam
uns nos outros e formam o imprevisível desenho ."


Francisco Azevedo , in " O arroz de Palma "

terça-feira, 27 de março de 2012

Família é prato difícil de preparar



" Família é prato difícil de preparar.
São muitos ingredientes.
Reunir todos é um problema, principalmente
no Natal e no Ano Novo.
Pouco importa a qualidade da panela,
fazer uma família exige coragem, devoção e paciência.
Não é para qualquer um.
Os truques, os segredos, o imprevisível.
Às vezes, dá até vontade de desistir.
Preferimos o desconforto do estômago vazio.
Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação
sobre o que se vai comer e aquele fastio.
Mas a vida, (azeitona verde no palito)
sempre arruma um jeito de nos entusiasmar
e abrir o apetite.
O tempo põe a mesa, determina o número de
cadeiras e os lugares.
Súbito, feito milagre, a família está servida.
Fulana sai a mais inteligente de todas.
Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão
e comunicativo, unanimidade.
Sicrano, quem diria? Solou, endureceu,
murchou antes do tempo.
Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante.
Aquele o que surpreendeu e foi morar longe.
Ela, a mais apaixonada.
A outra, a mais consistente.
E você? É, você mesmo, que me lê
os pensamentos e veio aqui me fazer companhia.
Como saiu no álbum de retratos?
O mais prático e objetivo? A mais sentimental?
A mais prestativa?
O que nunca quis nada com o trabalho?
Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero
e do grau comparativo.
Reúna essas tantas afinidades e antipatias que
fazem parte da sua vida.
Não há pressa. Eu espero. Já estão aí?
Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua,
a faca mais afiada e tome alguns cuidados.
Logo, logo, você também estará cheirando a
alho e cebola.
Não se envergonhe de chorar.
Família é prato que emociona.
E a gente chora mesmo.
De alegria, de raiva ou de tristeza.
Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor
do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza,
estas especiarias, que quase sempre vêm da África e
do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a
família muito mais colorida, interessante e saborosa.
Atenção também com os pesos e as medidas.
Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto,
é um verdadeiro desastre.
Família é prato extremamente sensível.
Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido.
Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional.
Principalmente na hora que se decide meter a colher.
Saber meter a colher é verdadeira arte.
Uma grande amiga minha desandou a receita de
toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.
O pior é que ainda tem gente que acredita na receita
da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão.
Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini;
Família à Belle Meunière; Família ao Molho Pardo,
em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria.
Família é afinidade, é ?à Moda da Casa?.
E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.
Há famílias doces. Outras, meio amargas.
Outras apimentadíssimas.
Há também as que não têm gosto de nada,
seriam assim um tipo de Família Dieta,
que você suporta só para manter a linha.
Seja como for, família é prato que deve ser servido
sempre quente, quentíssimo.
Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
Enfim, receita de família não se copia, se inventa.
A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e
transmitindo o que sabe no dia a dia.
A gente cata um registro ali,de alguém que sabe e conta,
e outro aqui, que ficou no pedaço de papel.
Muita coisa se perde na lembrança.
Principalmente na cabeça de um velho
já meio caduco como eu.
O que este veterano cozinheiro pode dizer é que,
por mais sem graça, por pior que seja o paladar,
família é prato que você tem que experimentar e comer.
Se puder saborear, saboreie.
Não ligue para etiquetas.
Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana,
na louça, no alumínio ou no barro.
Aproveite ao máximo!
Família é prato que, quando se acaba,
nunca mais se repete."




Francisco Azevedo , in " O Arroz de Palma "