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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

É NESSE

photo by John Nell

" Há  sempre  um  ponto 
fora
um ponto além da tela 
da moldura 
da  armação  dos óculos 
um ponto além da linha do horizonte 
na quina alheia ao campo visual .
 E é  nesse ponto 
nesse ponto ausente 
que se atam os nós 
e traçam rumos das
coisas  por nascer 
ditas
destino ."

Marina  Colasanti 
in , "Fino  Sangue "

Som  na  caixa ...


terça-feira, 18 de setembro de 2012

PONTOS DE VISTA

 
"  Quando  Nero  queria ver
o mundo  melhor
olhava-o  através  de
uma esmeralda .
 
Quando  quero  ver  melhor
o  mundo
eu  o  olho através
das palavras ."
 
 
Marina Colasanti,
in "  Fino  Sangue "

OUTRAS PALAVRAS

 
" Para  dizer  certas  coisas
são precisas
palavras outras
novas palavras
nunca ditas antes
ou nunca
antes
postas lado  a lado.
São  precisas
palavras que nascem com
aquilo que dizem
palavras que inventaram
seu percurso
e cantam sobre a língua .
Para dizer certas coisas
são precisas palavras
que amanhecem ."
 
Marina Colasanti ,
in  "  Fino  Sangue "

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

LITERATURA


" A literatura nada mais é , afinal ,do que um longo ,
um interminável discurso  sobre a vida , um artifício
em que , através de narrativas , os seres humanos
elaboram suas paixões , suas angústias , seus medos ,
e se aproximam  do grande enigma do ser .
Lendo , aprendemos não só colocar em palavras
os nossos próprios sentimentos , como , graças  a
representações simbólicas , aprendemos a vida ."


Marina Colasanti, in " Fragatas  para Terras  Distantes "

quinta-feira, 28 de junho de 2012

DE CABEÇA PENSADA


"  Tinha 30  anos  quando  decidiu : 
 a  partir  de  hoje , nunca  mais  lavarei  a  cabeça . 
Passou  o  pente  devagar  nos  cabelos , pela  última  vez
molhados . E  começou  a  construir  sua  maturidade .


Tinha  50  anos , e o marido  já  não  pedia , os filhos
haviam  deixado  de  suplicar .
Asseada , limpa , perfumada , só a cabeça  preservada ,
intacta  com seus  humores , seus humanos óleos .
Nem  jamais  se  deixou   tentar  por  penteados  novos
ou  anúncios  de xampu .
Preso  na  nuca  o cabelo crescia  quase  intocado  ,
sem que nada  além  do  volume  do  coque  acusasse  o
crescente  brotar .


Aos  80  ,  a velhice  a  deixou  entregue   a uma  enfermeira .
A  qual ,  a  bem  da  higiene , levou-a  um  dia  para  debaixo
do  chuveiro , abrindo  o  jato  sobre  a  cabeça  branca .


E  tudo  o   que  ela  mais  havia  temido  aconteceu .


Levadas  pela  água ,  escorrendo  liquefeitas  ao  longo
dos  fios   para  perderem-se  no  ralo  sem  que  nada
pudesse  retê-las ,  lá  se  foram ,  uma  a  uma ,
suas  lembranças  ."


Marina  Colassanti , in  "  Contos  de  Amor  Rasgado "



 


domingo, 11 de março de 2012

FINO SANGUE




" Gosto de poema

que fala de ovo frito

latido de cão

e cheiro de queimado .

Poema que com pequenos cortes

vara as coisas pequenas

fura a casca

o odre

rasga a placenta

e deixa gotejar

o fino

sangue ."


Marina Colasanti ,

in " Fino Sangue "

TIVE UM ROSTO



" Tive um rosto

e o perdi

penso diante do espelho

que não me entrega aquela

que eu esperava

mas outra

mais velha .

Mais uma vez me engano .

Certo seria dizer :

pensei ter tido um rosto

e o que perdi foi

a ilusão de um rosto .

Caminhei até um rosto

longamente ,

um rosto que alcançado

serio o meu .

E quando enfim cheguei

àquele rosto

ele não era aquele

era um rosto

muitos rostos adiante .

Cheguei sempre atrasada

nesse encontro

porque quis alcançar meu rosto

como a um porto

e não soube entender

que rosto

é só percurso ."


Marina Colasanti ,

in " Fino Sangue "

É NESSE



" Há sempre um ponto

fora

um ponto além da tela

da moldura

da armação dos óculos

um ponto além da linha do horizonte

na quina alheia ao campo visual .

É nesse ponto

nesse ponto ausente

que se atam os nós

e traçam rumos das

coisas por nascer

ditas

destino ."



Marina Colasanti ,

in " Fino Sangue "

sábado, 24 de setembro de 2011

Ainda Marina Colasanti



Constatação metafísica


" Jogo o tempo

na água

E ele

nada ."




Se Ele Apenas



" Diz a lenda que o poeta

Li Po

afogou-se na noite em que

embriagado

quis agarrar a lua

sobre o lago .

É lenda , bem se vê .

Pois a verdade é que

a Lua

teria seguido o poeta

a qualquer canto

se ele apenas a tivesse chamado ."



Marina Colasanti , in " Rota de Colisão "

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Como uma libélula negra



" Era uma mulher

que apagava os espelhos .

Bastava ela chegar

e a lâmina de prata

ensombrecia

punha-se escura e verde

como um lago .

Ela se debruçava

indiferente

assoprava de leve .

Nada se percebia na superfície

nem encrespar

nem onda .

Mas no fundo do fundo

além do olhar

onde as folhas secretas apodrecem

na densa lama

a vida se mexia .


Marina Colasanti


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Marina Colasanti - Prêmio Jabuti 2010




No dia 04 de novembro , próximo passado,

a escritora , ensaísta , contista e poeta ,

Marina Colasanti , ganhou , pela quarta vez ,

o Prêmio Jabuti , na categoria Poesia,

com seu livro , " Passageira em trânsito ".


Transcrevo um dos poemas do livro :


Entre ferro e fio


" Como punhal

sem sangue

e sem ruído

a agulha vara a carne do tecido .

Ouvem-se apenas

do metal vencido

a queixa do dedal

e um leve sibilar

ferindo as fibras .

A linha se insinua

serpente que

entre trama e urdidura

de outros fios se defende

e ponto a ponto

impõe

nova estrutura .

A essa falsa fronteira

que sem ser cicatriz

o corte emenda escondida na beira

a essa semovente arquitetura

batizamos

costura ."

sábado, 9 de outubro de 2010

Marina Colasanti : No reverso da palavra


( ...)

" É a metáfora que nos alça ao imaginário .

Como no sonho , só através de signos e

metáforas o imaginário se expressa e se deixa

penetrar. Pois o imaginário não é a palavra .

É o que está atrás da palavra.

(...)


Por trás de todas as histórias de casas assombradas

com ventos que uivam e portas que rangem , há uma

única e grandiosa história , a do pequeno ser humano

enfrentando corajosamente sua finitude .

( ... )
As palavras nos contam de uma casa e de um fantasma ,

um ser vindo do além . Mas por trás das palavras a

casa é um corpo humano , e a presença do além é a

morte que o assombra desde o momento em que nasceu .

E onde as palavras contam que a casa está vazia porque

ninguém se atreve a enfrentar o fantasma , o reverso

das palavras nos diz que quem não enfrenta seus medos

não é dono de si , não se habita .

E quando as palavras relatam como a personagem

decide assumir a casa , enfrentar o fantasma e

derrotá-lo ao fim da história ,lemos por trás delas

que a coragem é possível ,que nossa vida nos pertence

na medida que enfrentamos a morte , até o fim daquela

breve história que é a nossa ."


Marina Colasanti , in " Fragatas para Terras Distantes " , ensaios



sábado, 11 de setembro de 2010

ANTES QUE


" Preciso ler um bom poema antes

de dormir

antes que a noite encerre o

diário inventário das lembranças

antes que o sono cale a boca e o olhar , antes

que o prumo caia

horizontal .

Preciso ler um bom poema antes

que seja tarde

que fique escuro

que chegue o frio .

Ler um bom poema antes que a morte venha

e escreva o seu ."


Marina Colasanti , in "Passageira em trânsito"


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Segunda-feira, com poesia


Canção para um Homem e um Rio

Porque era um homem sincero

eu o levei ao rio entre junquilhos .

Mas sincero não era

era só homem

e deixei nos junquilhos a esperança

de dar à minha espera serventia .



Porque era um homem forte

eu o levei ao rio entre junquilhos.

Mas forte ele não era

era só homem

e entre pedras deixei o meu desejo

de abondonar o arado , a forja , e a lança .



Porque podia me amar

eu o levei ao rio entre junquilhos .

Mas amante não era

era só homem

e na água afoguei a minha sede

de palavras mais doces que ambrosia .



Porque era um homem

só homem

eu o levei ao rio entre junquilhos ."



Marina Colasanti , in " Rota de colisão"

sábado, 26 de junho de 2010

Marina Colassanti


Preciso , para

" Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter
olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas .

Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar. "