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“ Criança , era outro ...
Naquele em que me tornei
Cresci e esqueci .
Tenho de meu , agora , um silêncio , uma lei .
Ganhei ou perdi ? "
Fernando Pessoa
“ Foi longo o itinerário que segui .
Minha infância foi uma infância feliz .
Vivi anos de pobreza , morando numa
casa de pau-a-pique ,fogão de lenha ,
noites iluminadas pela luz das lamparinas
e das estrelas , minha mãe trazendo
água da mina numa lata , meu pai
trabalhando com a enxada e o machado.
Mas não tenho desses anos nenhuma
memória triste . As crianças ficam felizes
com pouca coisa ( ...)
O sagrado aparecia , sem nome , no capim,
nos pássaros , nos riachos , na chuva ,
nas árvores , nas nuvens , nos animais .
Isso me dava alegria .”
Rubem Alves ,na crônica
“ A beleza dos pássaros em vôo ...”
“ Meu filho Sérgio tinha três anos quando viu
o mar pela primeira vez .
Em silêncio , ficou a contemplar o mar ,
as ondas se quebrando sem cessar .
E me perguntou : “ O que é que o mar faz
quando a gente vai dormir ?”
Era-lhe incompreensível a eternidade do mar.
Também me espanto e me pergunto , sem resposta :
“ Há quanto tempo o mar se quebra alisando a areia ? “
O mar , a praia , as conchas , o céu , os peixes
invisíveis nas profundezas , as gaivotas em vôo
me falam da eternidade .
Senti-me retornado ao início do mundo ( ...) “
Rubem Alves ,
na crônica “ Por que não me mudo pra Bahia “
( ...)
“ A ética não é um código , mas uma perspectiva
para a reflexão prática sobre nossas ações .
A ética consiste em pôr nossa liberdade a serviço
da camaradagem vital que nos aparenta com
nossos semelhantes em desespero e alegria ...
Sustentar-se na alegria é o equilibrismo mais árduo ,
mas o único capaz de conseguir com que todas
as penas humanas valham de fato a pena .
A isto chamamos ética : penar alegremente .”
Fernando Savater , in” Desperta e Lê “
“ Quero Deus como um artista que cata os cacos
do meu vitral , partido por pedradas ao acaso ,
e os coloca de novo na janela da catedral, para que
os raios de Sol de novo por ele passem .”
Rubem Alves , in “ Na morada das palavras”
“ O amor me fere é debaixo do braço ,
de um vão entre as costelas .
Atinge o meu coração é por esta via inclinada .
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco . Macero ele ,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida .”
Adélia Prado
“ A vida se retrata no tempo
formando um vitral ,
de desenho sempre incompleto ,
de cores variadas ,
brilhantes ,
quando passa o Sol .
Pedradas ao acaso
acontece de partir pedaços
ficando buracos ,
irreversíveis .
Os cacos se perdem
por aí .
Às vezes eu encontro
cacos de vida
que foram meus ,
que foram vivos .
Examino-os atentamente tentando lembrar
de que resto faziam parte .
Já achei caco pequeno e amarelinho
que ressuscitou
de mentira , um velho amigo .
Achei outro pontudo e azul ,
que trouxe em nuvens
um beijo antigo .
Houve um caco vermelho
que muito me fez chorar ,
sem que eu lembrasse
de onde me pertencera .”
Maria Antônia de Oliveira