segunda-feira, 16 de maio de 2011

Poema de hoje ...



“ Criança , era outro ...

Naquele em que me tornei

Cresci e esqueci .

Tenho de meu , agora , um silêncio , uma lei .

Ganhei ou perdi ? "


Fernando Pessoa

domingo, 15 de maio de 2011

Rubem Alves , ainda...


“ Foi longo o itinerário que segui .

Minha infância foi uma infância feliz .

Vivi anos de pobreza , morando numa

casa de pau-a-pique ,fogão de lenha ,

noites iluminadas pela luz das lamparinas

e das estrelas , minha mãe trazendo

água da mina numa lata , meu pai

trabalhando com a enxada e o machado.

Mas não tenho desses anos nenhuma

memória triste . As crianças ficam felizes

com pouca coisa ( ...)

O sagrado aparecia , sem nome , no capim,

nos pássaros , nos riachos , na chuva ,

nas árvores , nas nuvens , nos animais .

Isso me dava alegria .”



Rubem Alves ,na crônica

“ A beleza dos pássaros em vôo ...”

Outras confissões de Rubem Alves


“ Meu filho Sérgio tinha três anos quando viu

o mar pela primeira vez .

Em silêncio , ficou a contemplar o mar ,

as ondas se quebrando sem cessar .

E me perguntou : “ O que é que o mar faz

quando a gente vai dormir ?”

Era-lhe incompreensível a eternidade do mar.

Também me espanto e me pergunto , sem resposta :

“ Há quanto tempo o mar se quebra alisando a areia ? “

O mar , a praia , as conchas , o céu , os peixes

invisíveis nas profundezas , as gaivotas em vôo

me falam da eternidade .

Senti-me retornado ao início do mundo ( ...) “




Rubem Alves ,

na crônica “ Por que não me mudo pra Bahia “

sábado, 14 de maio de 2011

ÉTICA DA ALEGRIA



( ...)

“ A ética não é um código , mas uma perspectiva

para a reflexão prática sobre nossas ações .

A ética consiste em pôr nossa liberdade a serviço

da camaradagem vital que nos aparenta com

nossos semelhantes em desespero e alegria ...

Sustentar-se na alegria é o equilibrismo mais árduo ,

mas o único capaz de conseguir com que todas

as penas humanas valham de fato a pena .

A isto chamamos ética : penar alegremente .”


Fernando Savater , in” Desperta e Lê “

Confissões de Rubem Alves



“ Quero Deus como um artista que cata os cacos

do meu vitral , partido por pedradas ao acaso ,

e os coloca de novo na janela da catedral, para que

os raios de Sol de novo por ele passem .”




Rubem Alves , in “ Na morada das palavras”

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Amor Violeta



“ O amor me fere é debaixo do braço ,

de um vão entre as costelas .

Atinge o meu coração é por esta via inclinada .

Eu ponho o amor no pilão com cinza

e grão de roxo e soco . Macero ele ,

faço dele cataplasma

e ponho sobre a ferida .”




Adélia Prado

Vitral ...


“ A vida se retrata no tempo

formando um vitral ,

de desenho sempre incompleto ,

de cores variadas ,

brilhantes ,

quando passa o Sol .

Pedradas ao acaso

acontece de partir pedaços

ficando buracos ,

irreversíveis .

Os cacos se perdem

por aí .

Às vezes eu encontro

cacos de vida

que foram meus ,

que foram vivos .

Examino-os atentamente tentando lembrar

de que resto faziam parte .

Já achei caco pequeno e amarelinho

que ressuscitou

de mentira , um velho amigo .

Achei outro pontudo e azul ,

que trouxe em nuvens

um beijo antigo .

Houve um caco vermelho

que muito me fez chorar ,

sem que eu lembrasse

de onde me pertencera .”


Maria Antônia de Oliveira