domingo, 22 de maio de 2011

Vou-me embora pra Pasárgada



“ Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Terei a mulher que quero

Na cama que escolherei



Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau- de- sebo

Tomarei banhos de mar !

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada


Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

- Lá sou amigo do rei –

Terei a mulher que quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada ."



Manuel   Bandeira

sábado, 21 de maio de 2011

Formigas



“ Não precisei   de ler São Paulo , Santo Agostinho,
São Jerônimo , nem Tomás de Aquino ,
nem São Francisco de Assis –
Para chegar  a    Deus .
Formigas me mostraram Ele .”


(  Eu  tenho  doutorado  em formigas .)



Manoel de Barros ,

in "  Poesia  Completa "

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Riobaldo dizia :



“ Contar é muito dificultoso .

Não pelos anos que já se passaram.

Mas pela astúcia que tem certas coisas

passadas de fazer balancê ,

de se remexerem dos lugares .

A lembrança da vida da gente se guarda

em trechos diversos ; uns com os outros

acho que nem não se misturam .

Contar seguido , alinhavado , só

mesmo sendo coisas de rasa importância .

Tem horas antigas que ficaram perto da gente

do que outras de recente data .

Toda saudade é uma espécie de velhice .

Talvez , então , a melhor coisa seria contar

a infância não como um filme em que a

vida acontece no tempo , uma coisa depois

da outra , na ordem certa , sendo essa conexão

que lhe dá sentido , princípio , meio e fim ,

mas como um álbum de retratos , cada um completo

em si mesmo , cada um contendo o sentido inteiro .

Talvez seja esse o jeito de escrever sobre

a alma em cuja memória se encontram as coisas

eternas , que permanecem ...”


Guimarães Rosa , in " Grande Sertão Veredas "

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Mais Lygia Fagundes Telles ...



“ Enriqueço na solidão : fico inteligente graciosa

e não esta feia ressentida que me olha do fundo

do espelho .

Ouço duzentas e noventa e nove vezes

o mesmo disco , lembro poesias , dou

piruetas , sonho , invento , abro todos

os portões e quando vejo a alegria

está instalada em mim .”

Citação de hoje ...



“ A beleza não está nem na luz da manhã

nem na sombra da noite , está no crepúsculo ,

nesse meio tom , nessa incerteza .”



Lygia Fagundes Telles

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Nascimento


(...) “ O nascimento é uma felicidade coletiva ,

somos de fato todos irmãos , tão parecidos uns

com outros .”

(...) “

Se fosse homem seria Felipe .

Felipe . Um belo nome .

Nítido como um cavaleiro recortado contra o horizonte.

Um nome com contornos definidos .

Uma dignidade simples , auto-evidente .

Repete o nome várias vezes , quase em voz alta ,

para conferir se ele não se desgasta pelo uso ,

se não se esfarela no próprio som , esvaziado pelo

eco : Felipe , Felipe ,Felipe , Felipe .

Não : mantém-se intacto no horizonte, firme sobre

o cavalo , a lança na mão direita .”




Cristóvão Tezza , in “ O filho eterno “



Hoje a página é para meu filho , Felipe ,

que comemora conosco mais um ano de vida.

Parabéns !!!

Beijos .

Saúde , sucesso , alegria e muito amor ,

com as bênçãos de Deus .

terça-feira, 17 de maio de 2011

Poesia , sempre ...



“ Na primeira noite

eles se aproximam

e colhem uma flor

de nosso jardim.

E não dizemos nada .

Na segunda noite ,


Já não se escondem :

pisam as flores ,

matam nosso cão ,

e não dizemos nada .

Até que um dia

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa ,

rouba-nos a lua e ,

conhecendo nosso medo ,

arranca-nos a voz da garganta .

E porque não dissemos nada ,

Já não podemos dizer nada .”



Eduardo Alves da Costa