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“ Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau- de- sebo
Tomarei banhos de mar !
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada ."
Manuel Bandeira
“ Não precisei de ler São Paulo , Santo Agostinho,
São Jerônimo , nem Tomás de Aquino ,
nem São Francisco de Assis –
Para chegar a Deus .
Formigas me mostraram Ele .”
( Eu tenho doutorado em formigas .)
Manoel de Barros ,
in " Poesia Completa "
“ Contar é muito dificultoso .
Não pelos anos que já se passaram.
Mas pela astúcia que tem certas coisas
passadas de fazer balancê ,
de se remexerem dos lugares .
A lembrança da vida da gente se guarda
em trechos diversos ; uns com os outros
acho que nem não se misturam .
Contar seguido , alinhavado , só
mesmo sendo coisas de rasa importância .
Tem horas antigas que ficaram perto da gente
do que outras de recente data .
Toda saudade é uma espécie de velhice .
Talvez , então , a melhor coisa seria contar
a infância não como um filme em que a
vida acontece no tempo , uma coisa depois
da outra , na ordem certa , sendo essa conexão
que lhe dá sentido , princípio , meio e fim ,
mas como um álbum de retratos , cada um completo
em si mesmo , cada um contendo o sentido inteiro .
Talvez seja esse o jeito de escrever sobre
a alma em cuja memória se encontram as coisas
eternas , que permanecem ...”
Guimarães Rosa , in " Grande Sertão Veredas "
“ Enriqueço na solidão : fico inteligente graciosa
e não esta feia ressentida que me olha do fundo
do espelho .
Ouço duzentas e noventa e nove vezes
o mesmo disco , lembro poesias , dou
piruetas , sonho , invento , abro todos
os portões e quando vejo a alegria
está instalada em mim .”
“ A beleza não está nem na luz da manhã
nem na sombra da noite , está no crepúsculo ,
nesse meio tom , nessa incerteza .”
Lygia Fagundes Telles
(...) “ O nascimento é uma felicidade coletiva ,
somos de fato todos irmãos , tão parecidos uns
com outros .”
(...) “
Se fosse homem seria Felipe .
Felipe . Um belo nome .
Nítido como um cavaleiro recortado contra o horizonte.
Um nome com contornos definidos .
Uma dignidade simples , auto-evidente .
Repete o nome várias vezes , quase em voz alta ,
para conferir se ele não se desgasta pelo uso ,
se não se esfarela no próprio som , esvaziado pelo
eco : Felipe , Felipe ,Felipe , Felipe .
Não : mantém-se intacto no horizonte, firme sobre
o cavalo , a lança na mão direita .”
Cristóvão Tezza , in “ O filho eterno “
Hoje a página é para meu filho , Felipe ,
que comemora conosco mais um ano de vida.
Parabéns !!!
Beijos .
Saúde , sucesso , alegria e muito amor ,
com as bênçãos de Deus .
“ Na primeira noite
eles se aproximam
e colhem uma flor
de nosso jardim.
E não dizemos nada .
Na segunda noite ,Já não se escondem :
pisam as flores ,
matam nosso cão ,
e não dizemos nada .
Até que um dia
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa ,
rouba-nos a lua e ,
conhecendo nosso medo ,
arranca-nos a voz da garganta .
E porque não dissemos nada ,
Já não podemos dizer nada .”
Eduardo Alves da Costa