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“ Eu amo tudo o que foi ,
Tudo o que já não é ,
A dor que já me não dói ,
A antiga e errônea fé ,
O ontem que dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi , e voou
E hoje já é outro dia .”
“ Ó mar salgado , quanto de teu sal
São lágrimas de Portugal !
Por te cruzarmos , quantas mães choraram ,
Quantos filhos em vão rezaram !
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso , ó mar !
Valeu a pena ? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena .
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor .
Deus ao mar o perigo e o abismo deu ,
Mas nele é que espelhou o céu .”
Fernando Pessoa
“ De uma mulher que apenas conheci
guardo o nome fechado: é uma caixa
levanto de tarde em tarde as sílabas que tem
ferrugem e rangem como pianos desconjuntados :
vão saindo logo as árvores aquelas , da chuva ,
mais os jasmins e as tranças vitoriosas
de uma mulher sem corpo já , perdida ,
afogada no tempo como num lento lago :
seus olhos se apagaram ali como carvões .”
verso do poema “ Imagem "
“ Eu gosto da gente que é capaz de entender que
o maior erro do ser humano é tentar arrancar
da cabeça aquilo que não sai do coração .”
Mario Benedetti
“ Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias ,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas .
Quando abri a janela , vi-a ,
como nunca a vira
constelada ,
os botões ,
alguns já com rosa-pálido
espiando entre as sépalas
jóias vivas em pencas . “
Adélia Prado , in
“ Meditação à beira de um poema “
“ Então que seja doce . Repito todas as manhãs ,
ao abrir as janelas para entrar o sol ou o cinza
dos dias , bem assim , que seja doce .
Quando há sol e este sol bate na minha cara
amassada do sono ou da insônia , contemplando
as partículas de poeira soltas no ar , feito um
pequeno universo ; repito sete vezes para dar
sorte : que seja doce que seja doce que seja
doce e assim por diante . Mas , se alguém
me perguntasse o que deverá ser doce , talvez
não saiba responder .
Tudo é tão vago como se fosse nada .
Ninguém perguntará coisa alguma , penso .
Depois continuo a contar para mim mesmo ,
como se fosse ao mesmo tempo o velho
que conta e a criança que escuta , sentado
no colo de mim .”
Caio Fernando Abreu , in
“ Os dragões não conhecem o paraíso .”
( ...)
“ que a importância de uma coisa não se mede com
fita métrica , nem com balanças , nem barômetros etc...
Que a importância de uma coisa há que ser medida
pelo encantamento que a coisa produza em nós .”
(...)
Manoel de Barros