terça-feira, 23 de outubro de 2012

CAIO FERNANDO ABREU

Al Saralis

"  As  pessoas  suportam  tudo , as  pessoas  às  vezes
procuram  exatamente  o  que  será  capaz  de doer
ainda mais fundo , o verso  justo , a música perfeita ,
o filme exato ,  punhaladas  revirando um talho quase
fechado , cada  palavra , cada  acorde , cada  cena ,
até  a  dor  esgotar-se  autofágica , consumida
em si mesma , transformada em outra  coisa  que
não saberia dizer  qual  era ."


in , " Triângulo  das  Águas "

OS AMIGOS

Irina Vitalievna Karkat
 
"   Os  amigos  amei despido de ternura
fatigada ;
uns  iam  , outros  vinham ,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava ;
era  pouco o que tinha
pouco  o que dava ,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais  amarga ."
 
 
Eugénio  de  Andrade
 

domingo, 21 de outubro de 2012

PALAVRAS AO VENTO

 
"  A primeira letra do alfabeto  é também a primeira
letra da palavra amor e  se acha importantíssima por isso .
Com   A  se escreve "  arrependimento  " que é uma
inútil vontade de pedir ao tempo  para  voltar atrás  
e com A  se dá o  tipo de  tchau  mais triste que
existe  :  adeus ... 
Ah  , é com  A  que  se  faz  " abracadabra " ,
palavra que se diz capaz  de transformar  sapo
 em príncipe  e vice-versa ... 
Com  B  se diz " belo " , que é tudo que faz  os olhos
pensarem  ser coração ;  e se dá a " benção " ,
um sim que pretende dar sorte .
Com   C  , "  calendário " , que é onde moram os
dias e o  " carnaval " , esta oportunidade
praticamente obrigatória de ser feliz  com data marcada .
" Civilizado " é quem já  aprendeu  a cantar
 " parabéns pra você " e sabe o que é " contrato" :
você isso , eu aquilo ,  com assinatura  embaixo .
Com  D  , se chega  a  " dedução " , o caminho entre
o " se" e  o " então " ...
Com  D ,  começa  defeito , que é cada pedacinho que
falta pra se chegar  a  perfeição  e se pede
" desculpa "  uma palavra  que pretende ser beijo .
E  tem  o  E  de  " efêmero" , quando  o  eterno
passa  logo ; de " escuridão "  que é o resto da
noite , se alguém recortar  as  estrelas  ;  e
  "  emoção "  um  tango que ainda  não foi feito .
E  também  de  "  eba ! " 
 uma forma  de agradecimento
muito utilizada  por quem ganhou  um
pirulito , por exemplo .
F é para  " fantasia " , qualquer tipo de
" já pensou se fosse  assim ?" ;
" fábula " , uma história  que poderia
ter acontecido  de verdade , se a verdade
fosse   um  pouco mais maluca  ; e
  " fé "  que é toda certeza  que  dispensa provas .
A  sétima  letra do alfabeto é  G  , que fica
irritadíssima quando a confundem com  J .
A  letra  G  é para " grade " , que serve para
prender todo mundo - uns  dentro ,
outros  fora ;  G  de  " goleiro " , alguém  que
se pode botar  a  culpa do gol  ;
G  de  "   gente " :  carne , osso  , alma  e
sentimento , tudo isso  ao  mesmo  tempo .
Depois  vem  o  H  de  " história " :  quando
todas  as  palavras  do  dicionário  ficam  à
disposição  de  quem  quiser  contar  qualquer
coisa que tenha acontecido ou sido  inventada .
 O  I  de  " idade " , aquilo que você 
 tem certezaque vai ganhar de aniversário ,
 queira ou  não queira .
 J  de  " janela " por onde  entra  tudo
que é lá fora  e de " jasmim  "  , que tem  a
sorte de ser flor e  ainda  tem  a  graça
  de  se chamar assim .
L  de  " lá "  onde  a gente fica pensando
se está melhor ou pior do que aqui ;
de " lágrima " , sumo  que  sai  pelos
olhos  quando se espreme um  coração,
 e de " loucura " , coisa   que  quem  não tem
só poder  ser  completamente louco .
M  de  " madrugada " , quando vivem os
sonhos ...
N  de " noiva " , moça que geralmente usa
branco  por  fora  e  vermelho  por  dentro .
O  de  " óbvio "  não precisa explicar ...
P  de  " pecado " , algo   que os homens
 inventaram e então  inventaram que
foi Deus  que  inventou.
Q ,  de tudo que tem um não sei quê
 de não sei quê .
E  R  de  " rebolar " o que se tem
para fazer  pra  chegar  lá .
S  de  " sagrado " , tudo que combina
com uma cantata de Bach ;
de  " segredo " , aquilo que você está
louco para contar ;  de " sexo " ,
quando o beijo é maior do que a boca .
T  é  de  " talvez " , resposta pior do
que não , uma vez que ainda deixa  ,
meio  bamba , uma  esperança ...
De  " tanto " um muito que até ficou tonto ...
de " testemunha " :  quem  por sorte ou
por azar , não estava  em  outro lugar .
U  de  "  ui ", " ai " que ainda é arrepio ;
de " último "  que anuncia o começo de
outra  coisa ;  e  de   " único "  :
tudo que  ,  pela facilidade de virar
nenhum , pede  cuidado .
Vem  o  V  de  " vazio ", um termo
injusto com a palavra  nada ;
de  " volúvel " , uma pessoa  que  ora
quer  o  que  quer , ora  quer  o que querem
que ela queira .
E  chegamos  ao  X  , uma  incógnita ...
X  de  " xingamento "  que é  uma palavra
ou  uma  frase  destinada  a acabar  com
a alegria  de alguém ;  e de " xô " ,
única  palavra  do dicionário  das  aves
traduzida para  o  português.
Z  é  a  última  letra  do  alfabeto  , que alcançou  
a  glória  quando  foi  usada  pelo  Zorro ...
Z  de   "zaga" , algo  que  serve  para  o
goleiro  não  se  sentir  o  único  culpado ;
de  " zebra " , quando você  esperava liso e
veio  listrado ; de " zíper " ,  fecho que precisa
de um bom motivo para ser aberto ; e de
" zureta " que é como a cabeça  fica
no final de um dicionário  inteiro ... "
 
 
Adriana  Falcão 
 

sábado, 20 de outubro de 2012

VERSOS DE HOJE ...

Angela Betta Casale
 
" É  tempo de meio silêncio,
de boca gelada e suspiro ,
de palavra indireta ,
aviso na esquina .
Tempo de cinco sentidos num só ."
 
 
Carlos Drummond de Andrade ,
no poema "  Nosso  Tempo  "

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

CLARICE LISPECTOR

 
" Ele  chorou um pouco . Era um  belo homem  com
barba por fazer  e abatidíssimo .
Via-se  que  havia  fracassado . Como  todos nós .
Ele  me  perguntou  se  podia  ler  para  mim
um  poema . Eu  disse  que queria  ouvir .
Ele  abriu  uma  sacola , tirou de dentro  um  caderno
grosso , pôs-se  a  rir  , ao  abrir  as  folhas .
Então  leu  o  poema . Era simplesmente  uma beleza .
Misturava  palavrões  com  as maiores delicadezas .
Oh Cláudio - tinha  eu vontade  de  gritar - 
 nós  todos  somos  fracassados , nós  todos  vamos
morrer  um  dia !  Quem ?
Mas  quem  pode  dizer  com  sinceridade  que
se  realizou  na  vida ?  O  sucesso  é  uma  mentira ."
 
 
in ,   " A via crucis   do corpo "


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

POEMA DE HOJE ...

 
"  Naquele  momento
o riso acabou
e veio o espanto
e do meu choro
 o desentendimento
e das mãos  unidas
veio o tremor  dos dedos
e da vontade de vida 
veio o medo .
Naquele momento
veio de ti o silêncio
e o pranto de todos os homens
brotou  nos teus  olhos translúcidos
e os meus se afastaram dos teus
e dos braços compridos
veio o curto adeus .
 
Naquele momento
 o mundo parou
e das distâncias
vieram águas
e o barulho do mar .
E  do amor
veio o grande sofrimento.
 
E  nada  restou
das infinitas coisas pressentidas
das promessas  em  chama .
Nada . "
 
 
Hilda Hilst , in " Baladas "
 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

PESSOA , SEMPRE ...

 
"    ( ...)
 
Saudades !  Tenho-as  até  do que me não foi
nada , por uma angústia  de fuga do tempo e
uma doença  do mistério da vida .
Caras que via habitualmente  nas minhas ruas
habituais- se deixo de vê-las  entristeço ; e não me 
foram nada  , a não ser o símbolo  de toda a vida .
O  velho  sem interesse das polainas  sujas  que
cruzava  frequentemente  comigo 
 às  nove  e meia  da manhã ?
 O cauteleiro coxo que me maçava
inutilmente ?   
  O velhote redondo e corado
do charuto à porta da tabacaria ?
O dono pálido  da tabacaria ?
O que é feito de todos eles , que , porque os vi
e os tornei a ver , foram parte da minha vida ?
Amanhã também eu me sumirei  da Rua da Prata ,
da Rua dos Douradores , da Rua dos Fanqueiros .
Amanhã  também eu - a alma que sente e pensa ,
o universo que sou para mim - sim , amanhã  eu
também  serei o que deixou de passar  nestas ruas ,
o que outros vagamente  evocarão com um
" o que será dele ?".
E  tudo quanto faço , tudo quanto sinto ,
tudo quanto vivo ,
 não será mais que um transeunte  a menos
 na  quotidianidade   de ruas de uma cidade qualquer . "
 
 
Bernardo Soares ,in " Livro do Desassossego "
Fragmento ,481