sexta-feira, 11 de maio de 2012

PESSOA , sempre ...


"  Nunca  pretendi  ser  senão  um  sonhador .

Pertenci   sempre  ao que não  está  onde estou

e  ao  que  nunca  pude  ser ."


Bernardo Soares , in " Livro do Desassossego "

PARA TI


 " Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida "


Mia Couto

quinta-feira, 10 de maio de 2012

SONETO DE ANIVERSÁRIO


 " Passem-se dias, horas, meses, anos

Amadureçam as ilusões da vida

Prossiga ela sempre dividida

Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida

Diminuam os bens, cresçam os danos

Vença o ideal de andar caminhos planos

Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura

À medida que a têmpora embranquece

E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece…

Que grande é este amor meu de criatura

Que vê envelhecer e não envelhece. "


Vinicius de Moraes

O BLOG FAZ DOIS ANOS !


Comemoro a data com vocês queridos amigos .

Juntos  compartilhamos o que nos alegra  a  alma .

O pedaço de bolo será servido em forma de poesia .

Beijos ,

Marisa

quarta-feira, 9 de maio de 2012

CECÍLIA MEIRELES

" De um lado, a eterna estrela,
e do outro a vaga incerta,

meu pé dançando pela
extremidade da espuma,
e meu cabelo por uma
planície de luz deserta.

Sempre assim:
de um lado, estandartes do vento...
- do outro, sepulcros fechados.
E eu me partindo, dentro de mim,
para estar no mesmo momento
de ambos os lados. "


in , "  Canção  quase  inquieta "

terça-feira, 8 de maio de 2012

NENHUM NOME DEPOIS


  " De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para parar-me, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar."

Maria do Rosário Pedreira


segunda-feira, 7 de maio de 2012

EPIGRAMA

 
 " Abro-te a porta do poema; e tu

espreitas para dentro da estrofe, onde

um espelho te espera."


Nuno  Júdice