quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O ALFABETO NO PARQUE



David  Lee Thompson 


" Eu   sei escrever . 
Escrevo cartas , bilhetes , lista de compras ,
composição escolar narrando o belo passeio 
à fazenda de vovó que nunca  existiu 
porque ela era pobre como Jó . 
Mas escrevo também coisas inexplicáveis: 
quero ser feliz , isto é amarelo .
E não consigo , isto é dor .
Vai-  te  de mim , tristeza , sino gago ,
pessoas dizendo entre soluços :  
" não aguento mais ".
Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais 
que o volume das águas denominadas mar ,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas .
Aqui se passa fome . Aqui se odeia .
Aqui se é feliz , no meio de invenções  miraculosas .
Imagine que uma dita roda gigante 
propicia passeios  e vertigens 
entre luzes , música , namorados em êxtase .
Como é bom ! De um lado os rapazes .
De outra as moças , eu louca para casar
e dormir  com meu marido no quartinho 
de uma casa antiga com soalho de tábua .
Não há como não pensar na morte ,
entre tantas delícias , querer ser eterno .
Sou alegre e sou triste , meio a meio .
Levas tudo a peito , diz minha mãe ,
dá uma volta , distrai-te , vai ao cinema .
A mãe  não sabe , cinema é como dizia o avô :
" cinema é gente passando .
Viu uma vez , viu todas ."
Com perdão da palavra , quero cair na vida .
Quero ficar no parque , 
a voz do cantor açucarando  a tarde ...
Assim escrevo : tarde . Não a palavra .
A coisa . "

Adélia Prado 

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domingo, 30 de agosto de 2020

A VIDA E O TEMPO

Imagem  da net 

" O dia em que o sol nasce
é o mesmo dia em que o sol morre .

A manhã : a luz, o nascimento 
A tarde :  a morte , a sombra .

E  no intervalo ,
eu .

Eu em processo , nascendo
e morrendo 
ao mesmo tempo 
deslumbrado e aturdido .

E sem nada saber que  isto se chama vida ,
esse encanto de luz , 
essa espera  de sombras ,
esse  saber  que  ignora  que nem o sol  nasce
nem morre .

É o tempo que passa .
Sou eu , que o tempo vai levando ."

Daniel Lima 
in , Poemas 

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terça-feira, 18 de agosto de 2020

BEM NO FUNDO

Esau  Andrade 

"  No  fundo , no fundo ,
Bem lá no fundo ,
A gente gostaria 
De ver nossos problemas
Resolvidos por decreto 

A partir desta data ,
Aquela mágoa sem remédio
é considerada nula 
 e sobre ela -silêncio perpétuo 

Extinto por lei todo o remorso
Maldito seja quem olhar para trás ,
Lá pra trás não há nada ,
E nada mais .

Mas problemas não se resolvem ,
Problemas tem família grande ,
E aos domingos saem todos  a passear 
O problema , sua senhora 
E outros pequenas probleminhas "

Paulo Leminski 

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quarta-feira, 29 de julho de 2020

A BRUXINHA DE PANO

Jinchul  Kim 

" Perguntei com raiva : Porque logo comigo ?
Tanta gente no mundo , tantos caminhos e itinerários ,
porque aquela moça , cismara de escolher um descaminho ,
um autêntico  fim de picada , um homem terminal que ,
na realidade , nem sequer começara ?
Ela contou uma história que parecia inventada  na hora ,
atribuindo-a a uma amiga .
Decidi aceitá-la , embora sem acreditar nela .
Como num daqueles contos  de Dickens , a história tinha início
num Natal .  A menina  pedira uma boneca de porcelana ,
sonhou com a boneca toda a noite ; quando acordou encontrou
ao seu lado uma bruxinha de pano .
Um monstrinho simpático , de pano preto , com a carne de 
algodão  cheia de caroços , os olhos eram duas linhas
vermelhas em forma de X .
A menina estranhou , teve vontade de chorar , mas acabou
aceitando a bruxinha .
Aos poucos se apaixonou por ela .
Tudo de bom ou de mau que lhe acontecia , a menina contava
para a bruxinha e a bruxinha entendia sua dor ou sua alegria .
Entendia até mesmo quando ela não tinha nada ,
nem dor nem alegria .
A menina cresceu ; quando casou levou a bruxinha consigo .
O marido reclamava , dormia com a mulher , mas a mulher 
dormia agarrada à bruxinha de pano . 
O marido viajou , foi à feira de Leipzig  onde comprou 
uma boneca de porcelana , coisa  finíssima  ,  
de olhos azuis que abriam e fechavam ,
 cabelos que pareciam de ouro . 
A mulher continuou  agarrada à bruxinha .
O marido se encheu e foi embora .
Ela chorou um pouco , mas logo sorriu :
a bruxinha continuava com ela .
Bem , a história é meio enigmática , nem chega a ser
bonita nem  muito original .
Com medo de ter entendido errado , perguntei se a moça
me considerava uma bruxinha de pano .
Respondeu que não .
A bruxa de pano era ela .
Queria apenas que dormissem com ela todas as noites . "

Carlos Heitor Cony      

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sexta-feira, 17 de julho de 2020

POEMA DE HOJE ...

Karen  Hollingsworth 

" Quando pensei que estava  tudo  cumprido ,
havia outra surpresa :  mais uma curva do
rio ,  mais riso , mais pranto .

Quando calculei que tudo estava pago ,
anunciaram-se  novas dívidas e juros ,
o amor e o desafio .

Quando achei que estava serena ,
os caminhos se espalmaram
como dedos de espanto 
em cortinas  aflitas .

E eu espio  ainda que o olhar seja grande
e a fresta pequena . "

Lya Luft ,
in  " O tempo é um rio que corre "

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quinta-feira, 2 de julho de 2020

PAI , dizem-me que ainda te chamo ...

Joahanna  Harmon 

" Pai , dizem-me que ainda te chamo , às vezes ,
durante o sono - a ausência  não te apaga 
como a bruma sossega , ao entardecer ,
o gume das esquinas .
Há nos meus sonhos  um território suspenso 
de toda a dor , um país de verão  aonde não chegam
as guinadas da morte  e todas as conchas da praia
trazem pérolas .
Aí nos encontramos , para dizermos  um ao outro 
aquilo que pensamos ter , afinal , a vida toda 
para dizer ;  aí te chamo , quando a luz me cega 
na lâmina do mar , com lábios que se movem
como serpentes , mas sem nenhum ruído  que 
envenene as palavras : pai , pai .
Contam-me depois que é deste lado da noite 
que me ouvem gritar  e que por isso me libertam
bruscamente do cativeiro  escuro desse sonho .
Não sabem que o pesadelo  é a vida onde já
não posso dizer o teu nome - porque a memória 
é uma fogueira  dentro das mãos  e tu onde
estás não me respondes . "

Maria do Rosário Pedreira 
in , " Nenhum Nome Depois "

A página de hoje é uma republicação 
dedicada ao meu pai que há 08 anos
nos deixou .
Quanta  saudade ...

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segunda-feira, 8 de junho de 2020

CLARICE , mais uma vez

Jean Paul Avisse 

Benjamin Moser , na sua obra " CLARICE ," 
nos conta : 
À medida que se aproximava do
fim da vida , suas lembranças de um tempo
mais feliz , a infância , assomavam à consciência 
com crescente insistência . 
Num esboço de  Água Viva  ela escreveu : 
" Estou agora na corda bamba por não estar
escrevendo direito .
 É porque estou escondendo uma coisa .
 Contarei : comprei uma boneca para  mim .
Para dormir comigo .
Não tenho senão um pouco de vergonha .
Mas em menina eu queria tanto uma
boneca bonita . 
Só tinha aquelas  pequenas e feitas
de trapos. 
Recheadas de macela ou palha .
Eu tinha tanto amor para dar .
E agora meu amor foi tão grande 
que se tornou compulsivo .
Ela é linda .
Já a beijei e abracei .
Durmo agarrada com ela .
Eu animo os objetos .
Ela fecha os olhos azuis quando fica
em estado horizontal .
Só não herdou meus cabelos  que são
macios de fazer aflição : os dela são
brilhantes e ásperos .
Chama-se Laura .
E estou tendo menina -
pois só tive filho homem .
É tão doce .
Dei agora Laura para uma menina pobre 
porque queria ver uma menina feliz . "

In , " CLARICE , " , páginas 477-478

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