quinta-feira, 2 de julho de 2020

PAI , dizem-me que ainda te chamo ...

Joahanna  Harmon 

" Pai , dizem-me que ainda te chamo , às vezes ,
durante o sono - a ausência  não te apaga 
como a bruma sossega , ao entardecer ,
o gume das esquinas .
Há nos meus sonhos  um território suspenso 
de toda a dor , um país de verão  aonde não chegam
as guinadas da morte  e todas as conchas da praia
trazem pérolas .
Aí nos encontramos , para dizermos  um ao outro 
aquilo que pensamos ter , afinal , a vida toda 
para dizer ;  aí te chamo , quando a luz me cega 
na lâmina do mar , com lábios que se movem
como serpentes , mas sem nenhum ruído  que 
envenene as palavras : pai , pai .
Contam-me depois que é deste lado da noite 
que me ouvem gritar  e que por isso me libertam
bruscamente do cativeiro  escuro desse sonho .
Não sabem que o pesadelo  é a vida onde já
não posso dizer o teu nome - porque a memória 
é uma fogueira  dentro das mãos  e tu onde
estás não me respondes . "

Maria do Rosário Pedreira 
in , " Nenhum Nome Depois "

A página de hoje é uma republicação 
dedicada ao meu pai que há 08 anos
nos deixou .
Quanta  saudade ...

Som  na  caixa 

  

segunda-feira, 8 de junho de 2020

CLARICE , mais uma vez

Jean Paul Avisse 

Benjamin Moser , na sua obra " CLARICE ," 
nos conta : 
À medida que se aproximava do
fim da vida , suas lembranças de um tempo
mais feliz , a infância , assomavam à consciência 
com crescente insistência . 
Num esboço de  Água Viva  ela escreveu : 
" Estou agora na corda bamba por não estar
escrevendo direito .
 É porque estou escondendo uma coisa .
 Contarei : comprei uma boneca para  mim .
Para dormir comigo .
Não tenho senão um pouco de vergonha .
Mas em menina eu queria tanto uma
boneca bonita . 
Só tinha aquelas  pequenas e feitas
de trapos. 
Recheadas de macela ou palha .
Eu tinha tanto amor para dar .
E agora meu amor foi tão grande 
que se tornou compulsivo .
Ela é linda .
Já a beijei e abracei .
Durmo agarrada com ela .
Eu animo os objetos .
Ela fecha os olhos azuis quando fica
em estado horizontal .
Só não herdou meus cabelos  que são
macios de fazer aflição : os dela são
brilhantes e ásperos .
Chama-se Laura .
E estou tendo menina -
pois só tive filho homem .
É tão doce .
Dei agora Laura para uma menina pobre 
porque queria ver uma menina feliz . "

In , " CLARICE , " , páginas 477-478

Som  na  caixa ...

segunda-feira, 18 de maio de 2020

NASCIMENTO ...

foto  na maternidade 

" Brilhar para sempre ,
brilhar como um farol ,
brilhar com brilho eterno ,
Gente é para brilhar ,
que tudo o mais vá para o inferno ,
Este é meu slogan e o do sol "

Vladimir Mayakovsky 
( tradução Augusto de Campos )

A página de hoje é do Felipe , meu filho ,
que nasceu num 18 de maio  , há 36 anos ,
depois de uma gravidez de risco onde
 ambos nos salvamos .
Nesta pandemia não poderemos  celebrar junto dele .
Os beijos e abraços  de todos nós logo acontecerá .  
Muita saúde , amor , sucesso e luz para nunca 
deixar de brilhar  , com as bençãos de Deus .  

Som  na  caixa 


quinta-feira, 7 de maio de 2020

MAIO ...

Lauri Blank 

Nestes tempos de quarentena tenho feito várias
releituras e uma delas  sobre Clarice Lispector ,
 no livro " Clarice , " de Benjamin  Moser . 
Lembrei-me então , que no próximo dia 10 de
maio este blog  completará  10 anos , e que na
primeira publicação   a escrita de Clarice  estava
presente . 
Assim , republico suas palavras e aproveito
para desejar a todas as mães  que terão ,
 no próximo domingo seu dia  comemorado ,
 saúde , amor , paz e fé em dias melhores .
Beijo e abraço cada um de vocês , 
queridos amigos .

" Há três coisas para as quais eu nasci 
e para as quais eu  dou  minha vida .
Nasci para amar  os outros , nasci para
escrever e nasci para criar meus filhos .
O " amar os outros " é tão vasto que
inclui até  perdão para mim mesma ,
com o que sobra .
As três coisas são tão importantes 
que minha vida é curta para tanto .
Tenho que me apressar , o tempo urge .
Não posso perder um minuto do 
tempo que faz minha vida .
Amar os outros é a única salvação
individual que conheço : 
ninguém estará perdido  se  der amor 
e às vezes receber amor em troca . "

Clarice Lispector 
na crônica " As três experiências " 

Som  na  caixa ...


domingo, 12 de abril de 2020

terça-feira, 24 de março de 2020

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

NATALIA GINZBURG

Jean  Paul Nacivet 

Conheci a escritora italiana Natalia Ginzburg  ( 1916-1991) ,
 através do livro   " As  Pequenas Virtudes " que ganhei neste
mês de fevereiro .
Não poderia  ter sido presente melhor .
É a reunião de  onze  ensaios publicados em jornais e
revistas  entre  1944  a 1962.
O livro é dividido em duas partes sendo que na  primeira 
há a descrição de  seus deslocamentos e suas impressões .
Na segunda parte ,  ela nos apresenta textos  com um apelo 
mais pessoal , falando de sua relação com a escrita 
 e com as pessoas .  
Textos curtos  que nos colocam  entre a crueza do cotidiano 
e  acontecimentos que redefinem  a relação do ser humano
com a vida . 
Ser exilada , passar por privações , sobreviver
a uma guerra .
Escritos após a morte de seu  primeiro marido , 
Leone Ginzburg ,os ensaios não recaem em tom sentimental
  mas há neles a lucidez de quem sofreu , 
tem seus filhos  para cuidar e precisa seguir adiante . 
Partilho com vocês  algumas  linhas  do ensaio que dá 
título ao livro .

" No que diz respeito à educação dos filhos , 
penso que se deva ensinar a eles não as pequenas virtudes ,
mas as grandes .
Não a poupança , mas a generosidade  e a indiferença ao
dinheiro ; não a prudência , mas a coragem e o desdém 
pelo perigo ; não a astúcia , mas a franqueza e o amor 
à verdade ; não a diplomacia , mas o amor ao próximo 
e a abnegação ; não o desejo de sucesso , mas o desejo de
ser e de saber . 
No entanto fazemos frequentemente o contrário :
apressamo-nos  a ensinar o respeito
 pelas pequenas virtudes , 
fundando sobre elas  todo o nosso sistema educativo .
Deste modo , escolhemos a via mais cômoda : porque as
pequenas virtudes  não apresentam  nenhum perigo
material , ao contrário , nos mantêm ao abrigo dos 
golpes de sorte . Descuidamos de ensinar as grandes 
virtudes , apesar de amá-las , e gostaríamos que nossos 
filhos  as assimilassem : mas nutrimos a confiança  de
que elas emergirão  espontaneamente  de seu espírito ,
num dia futuro , considerando-as  de natureza instintiva ,
ao passo que as outras , as pequenas ,  nos parecem fruto
de reflexão  e cálculo , e por isto pensamos que
devem ser absolutamente  ensinadas . 
Na verdade a diferença é só aparente .
As pequenas virtudes provêm igualmente  do fundo
do nosso instinto , de um instinto de defesa : mas nelas 
a razão fala , sentencia , disserta , como um brilhante 
advogado  da integridade pessoal .
As grandes virtudes  jorram de um instinto em que 
a razão não fala , um instinto ao qual me seria difícil 
dar um nome . E o melhor de nós está neste instinto
mudo , e não em nosso instinto de defesa , que argumenta ,
sentencia  e disserta com a voz da razão ."


in , As pequenas virtudes "

Som na caixa ...