quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

VAI , ANO VELHO

 
Amigos ,
 
Nestes últimos dias de 2012 , vou ao encontro do mar ,
meu bom e velho conselheiro .
Quero agradecer  todos vocês  pela companhia  no
 blog , que faço com carinho  na intenção de partilhar
 o belo ,  mas também  e , principalmente , por tê-los conhecido
e a seus espaços  e me encantar 
com o que oferecem .
Que possamos seguir neste caminhar poético
  no ano que logo chegará ,
sempre com muita saúde , alegria e paz .
Deixo com vocês um belo poema
 de Affonso Romano de Sant'Anna ,
com abraços e beijos a cada um .
Até  2013 !
 
" Vai , ano velho , vai de vez
vai com tuas dívidas
e dúvidas ,  vai , dobra  a ex-
quina  da sorte , e no trinta e um ,
à meia noite , esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.
 
Vai , leva tudo : destroços ,
ossos , fotos de presidentes ,
beijos de atrizes , enchentes ,
secas , suspiros , jornais  .
Vade retrum , pra trás ,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro ,
a casa e o coração .
Não quero te ver mais ,
só daqui a anos , nos anais ,
nas fotos  do nunca-mais .
 
Vem , Ano Novo , vem veloz ,
vem em quadrigas , aladas , antigas
ou jato de luz moderna , vem ,
paira , desce , habita em nós ,
vem com cavalhadas , folias , reisados ,
fitas multicores , rebecas ,
vem com uva e mel e desperta
em nosso corpo a alegria ,
escancara a alma , poesia ,
e, por  um instante , estanca
o verso  real , perverso ,
e sacia em nós  a fome
- de utopia .
 
Vem na areia da ampulheta  com
a semente  que contivesse outra  se-
mente  que contivesse  ou-
tra  semente ou pérola
na casca da ostra
como se
se
outra se -
mente  pudesse nascer
do corpo e mente
ou do umbigo da gente  como o ovo
o Sol  a gema do Ano Novo que rompesse
a placenta da noite
em viva flor luminescente .
 
Adeus , tristeza : a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã .
Agora é recomeçar .
A utopia  é urgente .
Entre flores de urânio
é permitido sonhar ."
 
Affonso Romano de Sant'Anna
 
  
 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

FELIZ NATAL !

 
Amigos ,
republico a mensagem  que deixei  em 2012 ,
por  gostar  muito dela .
Este é o primeiro de muitos natais que  não terei 
 meu pai  ao lado da família .  Vai doer .
Abraço e Beijo todos vocês  , com carinho .
 Feliz Natal !
 
( ...)
 
 "           Fica  decretado que as mesas de  Natal ,
estarão cobertas  de afeto  e , dispostos a renascer  
com o Menino , trataremos de  sepultar  iras  e
invejas , amarguras  e  ambições desmedidas ,
para que o nosso coração seja acolhedor ,
como a manjedora de Belém ."
 
Frei  Betto
 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

HOJE ,MANOEL DE BARROS FAZ 96 ANOS !

 
VIVA  O POETA  !
 
" Distâncias somavam a gente para menos .
Nossa morada estava tão perto do abandono que dava
 até para a gente pegar nele . Eu conversava bobagens
profundas com os sapos , com as águas  e com  as
árvores . Meu avô  abastecia a solidão .
A natureza  avançava  nas minhas palavras tipo assim :
O dia está frondoso em borboletas .
 No amanhecer  o sol põe glórias  no meu olho .
O cinzento da tarde me empobrece .
E o rio encosta  as margens na minha voz .
Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade
de pensar . Eu queria que as garças  me sonhassem.
Eu queria que as palavras me gorjeassem .
Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens .
Me dei bem . Perdoem-me os leitores desta entrada mas
vou copiar de mim  alguns desenhos verbais  que fiz
para este  livro . Acho-os como os  impossíveis verossímeis
de nosso mestre Aristóteles . Dou quatro exemplos :
1) É nos loucos  que grassam luarais ;
2) Eu queria crescer pra passarinho ;
 3) Sapo é um pedaçode chão que pula ;
 4) Poesia é a infância da língua .
Sei que os meus desenhos verbais  nada significam .
Nada . Mas  se  o  nada desaparecer a poesia acaba .
Eu  sei . Sobre  o  nada  eu  tenho  profundidades ."
 
Manoel de Barros ,
in " Poesia  Completa " 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

INÊS PEDROSA

Duy  Huynh
 
(...) " Arrumei os amores , é a primeira regra da vida -
saber arquivá-los , entendê-los , contá-los ,
esquecê-los .  Mas  ninguém nos diz  como se
sobrevive  ao murchar de um sentimento que não
murcha . A amizade  só se perde  por traição -
como a pátria . Num  campo de batalha , num
terreno de operações . Não  há explicações  para
o desaparecimento  do desejo , última  e única
lição  do mais extraordinário amor .
Mas  quando  o  amor  nasce  protegido  da
erosão  do corpo , apenas perfume , contorno ,
coreografado  em redor dos arco-íris   dessa
animada esperança  a que chamamos alma -
porque se esfuma  ?
Como é que , de um dia para o outro ,
a tua voz deixou de me procurar  , e eu deixei
que a minha vida  dispensasse  o espelho  da tua ? "...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

ACEITAR O DIA

Carrie  Vielle
 
" Aceitar  o  dia . O que vier .
Atravessar  mais  ruas  do  que  casas ,
mais gente do que ruas . Atravessar
a pele até ao outro lado . Enquanto
faço e desfaço o dia . O teu coração
dorme comigo . Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto .
E pergunto sempre onde estás  e porque
as ruas  deixaram de ser rios . Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima .Às vezes
não há chão que baste para a enxugar ."
 
 
Rosa  Alice  Branco

domingo, 16 de dezembro de 2012

CANÇÃO AMIGA

Aída Emart
 
" Eu  preparo  uma canção
em que minha mãe se reconheça ,
todas as mães se reconheçam ,
e que fale como dois olhos .
 
Caminho  por uma rua
que passa em muitos países .
Se  não me vêem , eu vejo
e saúdo  velhos  amigos .
 
Eu  distribuo  um  segredo
como quem ama ou sorri .
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram .
 
Minha  vida , nossas  vidas
formam  um só diamante .
Aprendi novas palavras
e tornei  outras  mais  belas .
 
Eu  preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer   as crianças ."
 
 
Carlos Drummond de Andrade 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Natal vem chegando ...

 
Trânsito caótico ,
ruas iluminadas ,
presépio  no  coração .
 
Marisa  Giglio
 
Postado  em 11 de dezembro de 2010
 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Que fazes aqui ?

Angela Reilly
 
" Julgava que te  tinha dito adeus ,
um adeus contundente , ao deitar-me ,
quando pude por fim  fechar os olhos ,
esquecer-me de ti , dessas  argúcias ,
dessa  tua insistência , teu mau génio  ,
tua capacidade de anular-me .
Julgava que  te tinha dito adeus
de todo e para sempre , mas acordo ,
encontro-te  de novo junto a mim ,
dentro de mim ,rodeias-me , a meu lado ,
invades-me , afogas-me , diante ,
dos meus olhos , em frente à minha vida ,
por sob a minha sombra , nas entranhas ,
em cada  golpe do meu sangue , entras
por meu nariz  quando respiro ,vês ,
pelas minhas pupilas , lanças fogo 
nas palavras que minha boca diz .
E agora que faço ?, como posso  
desterrar-te  de mim  ou adaptar-me
a conviver  contigo ? Principie-se  
por demonstrar  maneiras impecáveis .
Bom dia , tristeza ."
 
Amalia  Bautista

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

ENGUIÇO

Zindy S.D.Nielsen
 
" Eis  um amor  que  bate  à  porta
em  hora  imprópria .
Ousado , liga a lâmpada frouxa ,
joga a trouxa de roupa ainda manchada
do sangue das costas lanhadas.
Impõe  cadeado  no  portão ,
como se não fosse  sair  mais ,
caminha  decidido sobre minha  paz .
Esse  temido  amor de hora  errada
já  vem  assobiando  pelo  corredor .
O  trinco  da  porta  é  fraco
e  não sustenta ;
a  oração  é  rala e pouco  aguenta ,
o  medo  é  pequeno  e permissivo .
A tal  amor  que  chega  inoportuno,
eu  me  condeno .
Porque  me  condeno é que me sinto  vivo ."
 
 
Flora  Figueiredo ,
in  "  Amor  a  céu  aberto ' 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

SE ...

 Andrew Ek
 
"  Se  eu  tivesse um  carro
havia de conhecer
  toda a terra .
Se eu  tivesse  um  barco
havia de conhecer
todo  o mar .
Se  eu  tivesse um  avião
havia de conhecer
todo o céu .
Tens  duas  pernas
e ainda  não conheces
a gente da tua rua ."
 
Luísa Dacosta
 

ENTRETENIMENTO

´
Vladimir Dunjic 
 
 
" Como  quem  procura  conchas à beira do mar ,
escolho  as  palavras  para  te  dizer ,
quando o silêncio dos teus  braços
vestir o frio dos meus ombros ."
 
 
Luísa  Dacosta

FATALIDADE

Duy Huynh
 
" Não  sei  tecer
senão espumas ,
nuvens
e  brumas
...Coisas  breves ,
leves ,
que o vento desfaz .
 
Como prender-te
em teia tão frágil ? "
 
 
Luísa   Dacosta
 
 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

92º ANIVERSÁRIO DE CLARICE

Maria  Zeldis
 
" Há três  coisas  para as quais  eu nasci e para as quais
eu dou  minha vida .
Nasci  para  amar os outros , nasci para escrever ,
e nasci para criar meus filhos .
O " amar  os outros " é  tão  vasto  que inclui
até perdão para mim mesma , com o que sobra  .
As três  coisas  são tão importantes  que minha vida
é curta para tanto .
Tenho que me apressar , o tempo urge .
Não posso perder  um  minuto do tempo que faz
minha vida .
 Amar os outros é a única salvação individual
que conheço :
ninguém estará perdido se der amor e  às vezes
receber amor em troca ."
 
 
Clarice Lispector ,
 na crônica  " As três  experiências "
 

domingo, 9 de dezembro de 2012

MIA COUTO

Lauri Blank
 
" Para  sempre  me  ficou  este  abraço .
 Por via desse cingir de corpo minha vida  se mudou .
Depois desse abraço , trocou-se , no mundo ,
 o fora pelo dentro .
Agora , é dentro que tenho pele .
Agora , meus olhos se abrem  apenas
 para  as funduras da alma .
 Nesse  reverso, a poeira da rua me suja  é o coração .
 Vou  perdendo  noção de mim , vou desbrilhando .
E  se  eu  peço  que  ele regresse  é 
 para  sua  mão peroleira
me  descobrir  ainda cintilosa por dentro .  
Todo este  tempo me madreperolei  ,
 me enfeitei de lembrança. "
 
 
in , " Na Berma  de Nenhuma Estrada "


sábado, 8 de dezembro de 2012

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 
" Conto  até cem  e, se não chegares antes dos cem ,
vou-me embora . Não chegaste antes dos cem .
Conto de cem a um  e, se não chegares  antes do um ,
vou-me  embora . Não chegaste antes do um .
Conto  dez automóveis pretos e , se não chegares
antes dos dez automóveis pretos , vou-me embora .
Não chegaste antes dos dez automóveis pretos .
Nem  antes  dos quinze  táxis  vazios .
Nem  antes  dos  sete  homens carecas .
Nem  antes das nove  mulheres  loiras .
Nem  antes  das quatro ambulâncias .
Nem  sequer  antes  dos  três  corcundas 
 e, entretanto , começou  a  chover ."

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

VERSOS DE HOJE ...

Eva Breuer
 
" Entrego-te  as  palavras  mais  brandas
que  entre  os  meus  dedos  construí
para alimentar de ti os recantos da casa
invadindo o coração da noite
 
Entrego-te  as  palavras  com  a  redonda  luz
das  maçãs  sobre a mesa e o rumor da água 
rasgando o caminho da paixão
em horas que já não conseguimos  sem ajuda
recordar
mas que habitam a mais frágil memória de nós próprios
 
Palavras  jorrando dos meus olhos
invadindo-te  o  sono  e  tropeçando
nas esquinas das frases que decoro
ao longo dos veios da tua pele
 
E  a  verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera  de um dia perceber melhor
porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor
e ele é sempre um convidado estranho
sentado em silêncio na penumbra da sala
olhando os quadros , o chão , o teto
 
Como um velho parente da província
com medo de dizer o que não deve ."
 
 
Alice Vieira ,
in " Dois corpos tombando na água " 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

AVESSO

Wendy  Ng
 
" Pode  parecer  promessa
mas eu sinto que você é a pessoa
mais parecida  comigo
que eu conheço
só que do lado do avesso .
 
Pode  ser  que seja engano
bobagem  ou  ilusão
de ter você  na  minha ,
mas acho que com você eu me esqueço
e em seguida  eu  aconteço .
 
Por isso  deixo aqui meu endereço
se você  me procurar
eu apareço ,
se você  me  encontrar
te  reconheço . "
 
Alice  Ruiz

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

NÃO TE RENDAS

 
Anna  e  Elena Balbusso
 
" Não  te  rendas , ainda é  tempo
De se ter objetivos  e começar de novo ,
Aceitar  tuas  sombras ,
Enterrar  teus   medos
Soltar  o  lastro ,
Retomar  o  vôo .
 
Não  te  rendas  que a vida é isso  ,
Continuar  a  viagem ,
Perseguir  teus sonhos  ,
Destravar  o  tempo ,
Correr   os  escombros ,
E destapar  o  céu .
 
Não  te  rendas , por favor , não cedas ,
Ainda  que o frio queime ,
Ainda  que o medo morda ,
Ainda que o sol se esconda ,
E  o vento se cale ,
Ainda existe  fogo  na tua  alma .
Ainda existe  vida  nos  teus sonhos .
 
Porque  a  vida  é  tua  e teu também o desejo
Porque o tens querido  e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor , é certo .
Porque não existem feridas que o tempo não cure .
Abrir  as portas ,
Tirar  as  trancas ,
Abandonar as muralhas que te protegeram  .
 
Viver  a  vida  e aceitar  o  desafio ,
Recuperar  o sorriso   ,
Ensaiar  um  canto ,
Baixar  a  guarda  e  estender as mãos,
Abrir  as  asas
E  tentar  de  novo
Celebrar  a  vida  e  se apossar dos   céus .
 
Não  te rendas , por favor ,  não cedas ,
Ainda que o frio te  queime ,
Ainda  que o medo te  morda ,
Ainda  que o sol ponha e se cale o vento ,
Ainda  existe   fogo  na tua alma ,
Ainda   existe  vida  nos teus sonhos ,
Porque cada  dia  é um  novo começo ,
Porque  esta  é  a  hora  e  o  melhor momento .
Porque não estás só ,  porque  eu  te  amo ."
 
 
Mario Benedetti
 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

ESTADO DE GRAÇA

 
Christine Peloquin
 
" Quem já conheceu  o estado de graça reconhecerá 
 o que vou dizer . Não me refiro à inspiração ,
que é uma graça especial que tantas vezes acontece 
aos que lidam com arte .
O estado de graça de que falo não é usado para nada .
É como se viesse apenas  para que se soubesse 
 que realmente se existe .
 Nesse  estado , além da tranquila felicidade  que se
irradia  de pessoas e coisas , há uma lucidez  que só
chamo de leve  porque na graça  tudo é tão ,
tão leve . É uma lucidez  de quem
 não  adivinha mais : sem esforço , sabe.
  Apenas isso : sabe .
Não perguntem o quê , porque só posso responder
  do mesmo modo infantil : sem esforço , sabe-se . 
E há uma bem-aventurança  física que a nada se compara .
O corpo se transforma num dom .
E se sente que é um dom porque se está experimentando ,
 numa fonte direta ,
a dádiva indubitável de existir materialmente .
No estado de graça  vê-se  às vezes  a profunda beleza ,
antes  inatingível , de outra pessoa .
Tudo , aliás , ganha uma espécie de nimbo  que não é
imginário : vem do esplendor  da irradiação
  quase matemática das coisas e das pessoas .
Passa-se  a  sentir  que tudo que existe - pessoa  ou  coisa -
respira e exala  uma espécie de finíssimo  resplendor
de energia . A verdade do mundo é impalpável .
( ...)
Depois , lentamente se sai . 
(...)
Sai-se do estado de graça  com o rosto liso ,
os olhos abertos  e pensativos  e , embora não se tenha
sorrido , é como se o corpo  todo viesse de um sorriso
suave . E sai-se melhor criatura do que se entrou .
Experimentou-se alguma coisa  que parece
redimir  a condição humana , embora ao mesmo tempo
fiquem acentuados  os estreitos limites desta condição .
E exatamente porque  depois da graça 
 a condição humana se revela  na sua
 pobreza implorante ,
 aprende-se a amar mais , a esperar mais .
 Passa-se  a ter uma espécie  de
confiança  no sofrimento  e em seus caminhos
tantas vezes intoleráveis .
Há dias que são tão áridos e desérticos
 que eu daria anos de minha vida
  em troca de uns minutos de graça ." 
 
 
Clarice Lispector ,
in "  Aprendendo  a Viver "
 
 

sábado, 1 de dezembro de 2012

POEMA DE HOJE ...

Jesús  de  Perceval
 
" Dezembro é o cântico   contido .
A vontade  de ser que se recolhe
e aguarda o seu momento .
 
E  na  hora de ser
ei-lo dezembro .
 
(...)
 
Dezembro derribou todos os meses.
E depois de dezembro
tudo  terá começo .
Terá   de haver  janeiro
com certeza .
Outra vez , outra vez .
 
(...)
 
O  grande mágico .
O onipresente bruxo .
 
Deus  nasceu  em  dezembro .
Então  dezembro é tudo ."
 
 
Daniel Lima ,
 no poema  "Zodíaco " 
 
 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

77 ANOS SEM PESSOA

 
Aos  30 de novembro de 1935 , às 20 :00 horas ,
 num leito do hospital São Luís dos Franceses ,
 em Lisboa , morria Fernando Pessoa  , aos 47 anos ,
 de complicações hepáticas .
No dia anterior , quando foi internado ,  com crises
de febre  e fortes dores abdominais , já  no hospital ,
escreveria  sua última frase :
" I Know not what tomorrow will bring ."
( não sei o que trará  o amanhã )
De acordo com  José Paulo Cavalcanti Filho , 
 em seu livro ,
" Fernando Pessoa , uma quase autobiografia " :
11  dias  antes de morrer , ainda escreve  um derradeiro
poema  que se encerra dizendo :
 
" Há doenças  piores  que as doenças ,
Há dores que não doem , nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas  mais reais
Que as que a vida nos traz , há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas que a própria  vida .
(...)
Por  sobre  a  alma o adejar  inútil
Do que não foi , nem pôde ser , e é tudo .
Dá-me  mais vinho  , porque a vida não é nada ."

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

IMPASSE SOCRÁTICO

Iain Faulkner
 
" Sei que o que sei de mim
é quase o avesso
do que penso que  sou .
 
E  isto me dói
e isto me acusa,
mas isto me sustenta .
 
O que de mim a mim se oculta
é a minha verdade .
 
E Pilatos indagou do Cristo
o que era a verdade .
 
E Jesus , a verdade , recusou-se
a responder-lhe  então :
não era a hora aquela ,
era a hora da paixão .
 
E a hora da paixão é sempre a minha .
Eu  me ignoro .
 
Conheço tão somente
o meu rosto no espelho ,
a minha sombra na calçada ,
a imagem que de mim
os meus sonhos fizeram .
 
Sou  inacabada construção dos meus desejos .
Sou  minha  fantasia ,
meus anseios e medos ,
sou minhas pretensões e pesadelos .
Mas , de mim , pouco sei .
 
Sei  apenas que este que sou agora
não sou eu ,
embora parecido :
é falso este retrato
e o passaporte  é  falso .
 
Sei que os outros sabem
muito melhor que eu
quem sou eu de verdade .
 
Eles  se  veem  em  mim .
Sou  a  mentira  deles ."
 
 
Daniel Lima ,
in " Poemas "

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

ANINHA E SUAS PEDRAS

Christian Schloe
 
" Não  te  deixes  destruir ...
Ajuntando  novas  pedras
e construindo  novos  poemas .
 
Recria tua vida , sempre,sempre .
Remove  pedras  e  planta  roseiras  e faz doces .Recomeça .
 
Faz  de  tua  vida  mesquinha
um  poema .
E  viverás  no  coração  dos  jovens
e na  memória  das  gerações que hão de vir .
 
Esta  fonte  é  para  uso de todos os sedentos .
Toma  a  tua  parte .
Vem  a  estas  páginas
e não entraves  seu  uso
a quem tem sede ."
 
Cora  Coralina

terça-feira, 27 de novembro de 2012

CITAÇÃO DE HOJE ...

Ana Teresa Fernandez
 
 
"  Torça  bem  as  lágrimas , uma a uma ,
até  desencharcar  o  coração .
Depois  estenda  a  tristeza  no  varal da
autogentileza  .
Lá  costuma  bater  sol ."
 
Ana  Jácomo

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O CORAÇÃO

Anna e Elena Balbusso

" Quase só músculo  a  carne dura .
É  preciso  morder  com  força ."


Eucanaã  Ferraz ,
in " Sentimental "

domingo, 25 de novembro de 2012

VOCÊ E O RETRATO

Zyndy S.D.Nielsen
 
" Porque  tenho  saudade  de  você  no  retrato  ,
ainda que o mais recente ?
E porque um simples retrato , mais que você ,
me comove , se você mesma está  presente ?
Talvez  porque  o  retrato , já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar  de  lembrança .
Talvez  porque  o  retrato ( exato , embora maliciososo )
revele algo de criança , como ,  no fundo da  água ,
 um coral em repouso .
Talvez pela idéia de ausência que o seu retrato faz surgir
colocado entre nós dois ( como  um  ramo de hortência ).
Talvez porque  o  seu retrato , embora se torne oblíquo ,
me olhe , sempre , de  frente ( amorosamente ).
Talvez  porque o seu retrato mais  se parece  com você
do que você mesma ( ingrato ).
Talvez porque  no retrato você  está  imóvel (sem respiração... ).
Talvez  porque  todo  o  retrato é uma retratação  ..."
 
Cassiano  Ricardo 

sábado, 24 de novembro de 2012

NOSSOS INIMIGOS DIZEM

Christian Schloe
 
" Nossos  amigos  dizem : A luta terminou .
Mas  nós   dizemos : ela começou .
 
Nossos  inimigos  dizem :  A verdade está liquidada .
Mas  nós  dizemos : Nós  a  sabemos  ainda .
 
Nossos  inimigos  dizem : Mesmo que ainda
se conheça a verdade
Ela  não pode mais  ser divulgada .
Mas  nós  a  divulgamos .
 
É  a  véspera  da  batalha .
É a preparação de nossos quadros .
É  o estudo  do plano de luta .
É  o dia  da  queda 
De  nossos  inimigos ."
 
Bertold  Brecht  
 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

NOVEMBRO E CECÍLIA MEIRELES

 
Filha de Carlos Alberto de Carvalho Meireles,
funcionário público , e de Matilde Benevides
Meireles , professora primária ,
Cecília Benevides de Carvalho Meireles ,
 nasceu ,  aos 7 de novembro de 1901
 no Rio de Janeiro .
O  pai faleceu três  meses antes  de
seu nascimento , e sua mãe quando ainda
tinha três anos . Foi criada , a partir de então ,
pela avó materna , moçambicana ,
Jacinta Garcia Benevides .
 
Conta-nos  Cecília :
 
"  Nasci  aqui   mesmo  no  Rio  de  Janeiro ,
três  meses  depois  da  morte  de  meu
pai , e perdi minha  mãe antes dos três anos .
Essas  e  outras mortes  ocorridas  na  família
acarretaram  muitos contratempos  materiais ,
mas  ao  mesmo  tempo , me deram , desde
pequenina , uma  tal intimidade com  a
Morte  que docemente  aprendi  essas  relações
entre o Efêmero e o Eterno .
(...)
Em  toda  a  vida , nunca me esforcei  por
ganhar nem me espantei por perder .
A noção ou o sentimento da transitoriedade
de  tudo é o fundamento mesmo
da minha  personalidade .
(...)
Minha  infância  de  menina sozinha deu-me
duas coisas que parecem negativas , e foram sempre
positivas  para  mim : silêncio e solidão.
Essa foi sempre a área de minha vida .
Área mágica , onde os caleidoscópios
inventaram  fabulosos mundos geométricos ,
onde os relógios revelaram o segredo do seu
mecanismo , e as bonecas o jogo de seu olhar .
Mais tarde  foi nessa área  que os livros
se abriram , e deixaram sair suas realidades
e seus sonhos , em combinação tão harmoniosa
que até hoje não compreendo como se possa
estabelecer uma separação entre esses  dois
tempos de vida , unidos como fios de um pano ." 
 
Aos sessenta  e três  anos , em plena maturidade
existencial e atividade  criadora ,
 falece  , aos 09 de novembro de 1964 ,
vítima de um câncer , no Rio de Janeiro .
 
 Declara o crítico  , Paulo Rónai :
" Considero o lirismo de Cecília Meireles  ,
o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa . 
Nenhum outro poeta iguala o seu despreendimento ,
a sua fluidez , o seu poder transfigurador ,
 a sua simplicidade e seu preciosismo ,
porque Cecília , só ela , se acerca  da
nossa poesia primitiva  e do nosso lirismo espontâneo ...
A poesia de Cecília Meireles é uma das mais
 puras , belas e válidas manifestações
 da literatura contemporânea ."