sábado, 31 de outubro de 2020

118 º ANIVERSÁRIO de DRUMMOND

Anna e Elena Balbusso 

" Além  da terra , além do céu 
no trampolim  do 
sem-fim das estrelas ,
no rastro dos astros ,
na magnólia  das nebulosas .
Além , muito além do sistema solar 
até onde alcançam o pensamento 
e o coração ,
 vamos !
vamos conjugar o verbo
 fundamental  essencial ,
o verbo transcendente ,
acima das gramáticas 
e do medo e da moeda e da política ,
o verbo sempre amar ,
o verbo pluriamar ,
razão de ser de viver . "

Carlos Drummond de Andrade 

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segunda-feira, 12 de outubro de 2020

DENTRO DE UM ABRAÇO ...


imagem da net 

Nesta pandemia  , que falta nos faz um abraço 
queridos amigos .
Republico  trecho de crônica  da escritora 
Martha Medeiros que ressalta  a importância
de abraçarmo-nos .

( ... )

" Onde , afinal , é o melhor lugar do mundo ?
Meu palpite : dentro de um abraço .
Que lugar  melhor para uma criança , 
para  um idoso , para uma mulher apaixonada , 
para um adolescente  com medo , para um doente ,
para alguém solitário ?
Dentro de um abraço é sempre quente ,
é sempre seguro .
Dentro de um abraço não se ouve 
o tic-tac  dos relógios e , se faltar luz , tanto melhor.
Tudo o que você pensa e sofre  , dentro de um 
abraço  se dissolve .
Que lugar melhor  para um recém-nascido , 
para um recém chegado , para um recém demitido ,
para um  recém contratado ?
Dentro de um abraço  nenhuma situação é incerta ,
o futuro não amedronta , 
 estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso .
O rosto contra o peito de quem te abraça  , 
as batidas do coração dele e as suas ,
o silêncio  se faz durante esse  envolvimento físico :
não há nada para se reinventar  ou agradecer ,
dentro de um abraço voz nenhuma se faz  necessária ,
está tudo dito . "

Martha Medeiros , in " feliz por nada "        

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domingo, 27 de setembro de 2020

CELEBRAÇÃO

 

Hoje esta menininha , minha filha ,
Fernanda , faz aniversário .
Para os pais os filhos nunca crescem 
porque vemos neles  a pureza , 
alegria e vivacidade da infância 
e somos gratos .
Este ano será sem festa que ela
sempre adorou .
Entretanto , nossos desejos
são os mesmos : 
saúde , sucesso , viagens e amor 
com as bençãos de Deus .
Beijos e abraços de todos nós .
Viva você !

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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O ALFABETO NO PARQUE



David  Lee Thompson 


" Eu   sei escrever . 
Escrevo cartas , bilhetes , lista de compras ,
composição escolar narrando o belo passeio 
à fazenda de vovó que nunca  existiu 
porque ela era pobre como Jó . 
Mas escrevo também coisas inexplicáveis: 
quero ser feliz , isto é amarelo .
E não consigo , isto é dor .
Vai-  te  de mim , tristeza , sino gago ,
pessoas dizendo entre soluços :  
" não aguento mais ".
Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais 
que o volume das águas denominadas mar ,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas .
Aqui se passa fome . Aqui se odeia .
Aqui se é feliz , no meio de invenções  miraculosas .
Imagine que uma dita roda gigante 
propicia passeios  e vertigens 
entre luzes , música , namorados em êxtase .
Como é bom ! De um lado os rapazes .
De outra as moças , eu louca para casar
e dormir  com meu marido no quartinho 
de uma casa antiga com soalho de tábua .
Não há como não pensar na morte ,
entre tantas delícias , querer ser eterno .
Sou alegre e sou triste , meio a meio .
Levas tudo a peito , diz minha mãe ,
dá uma volta , distrai-te , vai ao cinema .
A mãe  não sabe , cinema é como dizia o avô :
" cinema é gente passando .
Viu uma vez , viu todas ."
Com perdão da palavra , quero cair na vida .
Quero ficar no parque , 
a voz do cantor açucarando  a tarde ...
Assim escrevo : tarde . Não a palavra .
A coisa . "

Adélia Prado 

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domingo, 30 de agosto de 2020

A VIDA E O TEMPO

Imagem  da net 

" O dia em que o sol nasce
é o mesmo dia em que o sol morre .

A manhã : a luz, o nascimento 
A tarde :  a morte , a sombra .

E  no intervalo ,
eu .

Eu em processo , nascendo
e morrendo 
ao mesmo tempo 
deslumbrado e aturdido .

E sem nada saber que  isto se chama vida ,
esse encanto de luz , 
essa espera  de sombras ,
esse  saber  que  ignora  que nem o sol  nasce
nem morre .

É o tempo que passa .
Sou eu , que o tempo vai levando ."

Daniel Lima 
in , Poemas 

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terça-feira, 18 de agosto de 2020

BEM NO FUNDO

Esau  Andrade 

"  No  fundo , no fundo ,
Bem lá no fundo ,
A gente gostaria 
De ver nossos problemas
Resolvidos por decreto 

A partir desta data ,
Aquela mágoa sem remédio
é considerada nula 
 e sobre ela -silêncio perpétuo 

Extinto por lei todo o remorso
Maldito seja quem olhar para trás ,
Lá pra trás não há nada ,
E nada mais .

Mas problemas não se resolvem ,
Problemas tem família grande ,
E aos domingos saem todos  a passear 
O problema , sua senhora 
E outros pequenas probleminhas "

Paulo Leminski 

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quarta-feira, 29 de julho de 2020

A BRUXINHA DE PANO

Jinchul  Kim 

" Perguntei com raiva : Porque logo comigo ?
Tanta gente no mundo , tantos caminhos e itinerários ,
porque aquela moça , cismara de escolher um descaminho ,
um autêntico  fim de picada , um homem terminal que ,
na realidade , nem sequer começara ?
Ela contou uma história que parecia inventada  na hora ,
atribuindo-a a uma amiga .
Decidi aceitá-la , embora sem acreditar nela .
Como num daqueles contos  de Dickens , a história tinha início
num Natal .  A menina  pedira uma boneca de porcelana ,
sonhou com a boneca toda a noite ; quando acordou encontrou
ao seu lado uma bruxinha de pano .
Um monstrinho simpático , de pano preto , com a carne de 
algodão  cheia de caroços , os olhos eram duas linhas
vermelhas em forma de X .
A menina estranhou , teve vontade de chorar , mas acabou
aceitando a bruxinha .
Aos poucos se apaixonou por ela .
Tudo de bom ou de mau que lhe acontecia , a menina contava
para a bruxinha e a bruxinha entendia sua dor ou sua alegria .
Entendia até mesmo quando ela não tinha nada ,
nem dor nem alegria .
A menina cresceu ; quando casou levou a bruxinha consigo .
O marido reclamava , dormia com a mulher , mas a mulher 
dormia agarrada à bruxinha de pano . 
O marido viajou , foi à feira de Leipzig  onde comprou 
uma boneca de porcelana , coisa  finíssima  ,  
de olhos azuis que abriam e fechavam ,
 cabelos que pareciam de ouro . 
A mulher continuou  agarrada à bruxinha .
O marido se encheu e foi embora .
Ela chorou um pouco , mas logo sorriu :
a bruxinha continuava com ela .
Bem , a história é meio enigmática , nem chega a ser
bonita nem  muito original .
Com medo de ter entendido errado , perguntei se a moça
me considerava uma bruxinha de pano .
Respondeu que não .
A bruxa de pano era ela .
Queria apenas que dormissem com ela todas as noites . "

Carlos Heitor Cony      

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