sexta-feira, 24 de maio de 2013

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

Christiane  Vleugels  
 
 "  Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra.
  Deixa que nos meus braços pousem então as aves
(que, como eu, trazem entre as penas a saudades
de um verão carregado de paixões).
 E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas,
 e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti).
 Quando eu morrer, deixa-me  a ver o mar do alto
 de um rochedo e não chores,
 nem toques com os teus lábios a minha boca fria.
 E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios;
e que depois os lanças na solidão
de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez:
 se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu,
 estrelas que se escaparam das trevas,
pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor. "

                      in , " O  canto do  vento nos ciprestes " 

                                                  Som  na  caixa ...
                                                 
                                                     


12 comentários:

  1. Marisa,Parabéns,não encontro palavras que possam expressar o quando gostei de seu texto.
    Estou emocionado.
    Parabéns
    Sinval

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    1. Sinval ,

      Me agrada bastante a escrita da Maria do Rosário Pedreira . Sentimentos á flor da pele .
      Bom que tenha gostado ,amigo .
      Abraços

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  2. Que blog gostoso, bonito. Li pelo menos umas 4 ppostagens, muitas variações poéticas, sempre intensas e bem escritas, além de citações de outros excelentes. Vim retribuir a visita e volto feliz. E você, volte sempre ao meu blog, é um prazer. Também sigo você. Beijossss

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    1. Carlos ,
      Agradeço suas palavras e a visita .
      Sempre bom conhecermos pessoas que comungam dos mesmos interesses .
      Que continuemos partilhando o que nos alegra a alma .
      Beijos

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  3. Marisa, que beleza de poema! lirismo extremo, uma exquisita perola en medio do mar tempestuoso da internet!
    Grande abraco, querida ೋღ❤ღೋ

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    1. Carolina ,

      Também gosto muito do poema .
      Obrigada por vir me visitar .
      Amigos sempre são queridos por perto .
      Beijos

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  4. Feliz terça-feira!
    Lindissima postagem,
    Bjs

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  5. Nicinha ,

    É tão bom este retorno de pessoas sensíveis como você .
    Agradecida .
    Beijos

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  6. Nossa Marisa, que poema belíssimo, arrepiou todos os pelos. Um bj, foi prazer passar por aqui.

    => Gritos da alma
    => Meus contos
    => Só quadras

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  7. Nádia ,

    O poema é realmente muito bonito .
    Fico feliz que tenha vindo e gostado .
    Beijos

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