Christine Peloquin
" Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá
o que vou dizer . Não me refiro à inspiração ,
que é uma graça especial que tantas vezes acontece
aos que lidam com arte .
O estado de graça de que falo não é usado para nada .
É como se viesse apenas para que se soubesse
que realmente se existe .
Nesse estado , além da tranquila felicidade que se
irradia de pessoas e coisas , há uma lucidez que só
chamo de leve porque na graça tudo é tão ,
tão leve . É uma lucidez de quem
não adivinha mais : sem esforço , sabe.
Apenas isso : sabe .
Não perguntem o quê , porque só posso responder
do mesmo modo infantil : sem esforço , sabe-se .
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara .
O corpo se transforma num dom .
E se sente que é um dom porque se está experimentando ,
numa fonte direta ,
a dádiva indubitável de existir materialmente .
No estado de graça vê-se às vezes a profunda beleza ,
antes inatingível , de outra pessoa .
Tudo , aliás , ganha uma espécie de nimbo que não é
imginário : vem do esplendor da irradiação
quase matemática das coisas e das pessoas .
Passa-se a sentir que tudo que existe - pessoa ou coisa -
respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor
de energia . A verdade do mundo é impalpável .
( ...)
Depois , lentamente se sai .
(...)
Sai-se do estado de graça com o rosto liso ,
os olhos abertos e pensativos e , embora não se tenha
sorrido , é como se o corpo todo viesse de um sorriso
suave . E sai-se melhor criatura do que se entrou .
Experimentou-se alguma coisa que parece
redimir a condição humana , embora ao mesmo tempo
fiquem acentuados os estreitos limites desta condição .
E exatamente porque depois da graça
a condição humana se revela na sua
pobreza implorante ,
aprende-se a amar mais , a esperar mais .
Passa-se a ter uma espécie de
confiança no sofrimento e em seus caminhos
tantas vezes intoleráveis .
Há dias que são tão áridos e desérticos
que eu daria anos de minha vida
em troca de uns minutos de graça ."
Clarice Lispector ,
in " Aprendendo a Viver "