
( ...)
" Meus amigos reclamam quando suas
namoradas os perseguem .
Lamentam o barraco do ciúme ,
a insistência dos telefonemas para
falarem praticamente nada , o cerceamento
dos horários .
Sempre as mesmas tramas de tolhimento
da liberdade , que todos concordam
e soltam gargalhadas buscando um
refúgio para respirar .
Eu me faço de surdo .
Fico com vontade de pedir a chave da
prisão para passar o domingo .
Acho o controle comovente . Invejável .
( ...)
Quero uma mulher perdigueira , possessiva ,
que me ligue a cada quinze minutos para
contar uma idéia ou uma nova invenção para
salvar as finanças , quero uma mulher que
ame meus amigos e odeie qualquer amiga que
se aproxime. Que arda de ciúme imaginário
para prevenir o que nem aconteceu .
Que seja escandolosa na briga e me amaldiçoe
se abandoná-la .
Que faça trabalhos em terreiro para me assustar
e me banhe de noite com o sal grosso da
sua nudez . Que feche meu corpo quando sair
de casa , que descosture meu corpo quando
voltar .
Que brigue pelo meu excesso de compromissos,
que me fale barbaridades sob pressão e ternuras
delicadíssimas ao despertar .
Que peça desculpa depois do desespero e
me beije chorando .
A mulher que ninguém quer eu quero.
Contraditória , incoerente , descabida .
(...)
Quero uma mulher que esqueça o nome de
seu pai e de sua mãe para nascer em
meus olhos . Em todo momento .
A toda hora . Incansavelmente .
E que eu esteja apaixonado para nunca
desmerecê-la , que esteja apaixonado para
não diminuí-la aos amigos ."
in , " Mulher Perdigueira "
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