
" O processo da vida se opera em tentativas
sucessivas de libertação .
Estamos todos os dias renovando ,
na criatura que fomos na véspera ,
a criatura que seremos no amanhã .
Mais do que renovando-a :
refazendo-a ,- porque não tornamos a ser
jamais o que fomos , salvos apenas de uma
velhice porterior ,mas construímos de fato
uma vida própria , que das outras só guarda
a lembrança das experiências e uma certa
memória de duração com que vamos acreditando
na sua continuidade .
Mas para que a vida empregue o seu ritmo com
alegria , é necessário que as criaturas estejam
em condições de aceitar com facilidade essas
mudanças , e hajam adquirido uma agilidade
interior que lhes permita acertar com as várias
posições que se sucedem , no tempo adequado ,
e com a medida justa .
( ...)
E nesse dom de sempre se adaptar ,
de sempre estar pronto ,
de sempre ter de se pôr à prova ,
há um gosto de mocidade que é a maior
riqueza que pode conter um destino .
Porque a mocidade é a face mais clara do eterno .
Do eterno que só é porque a todo o instante
deixa de ser .
Do eterno que , sendo um só ,por essa capacidade
de mudar sem se perder ,pode ser tudo ,
ao mesmo tempo , ou de cada vez ."
Cecília Meireles , in " Crônicas de educação "
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